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Repara a bagunça

A personal organizer Carol Ferraz revira as lógicas de arrumação que nunca fizeram sentido, ensina como resistir à mania de limpeza e deixar tudo em ordem antes de morrer

Bagunça, organização e a culpa feminina

Bagunça, organização e a culpa feminina / Créditos: Unplash


em 27 de abril de 2026

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Quando você recebe uma visita inesperada em casa, a primeira frase que sai da sua boca é um pedido de desculpas? “Não repara a bagunça”, você diz, mesmo que a casa esteja habitável. Para a pesquisadora e personal organizer Carol Ferraz, essa frase não é apenas educação, e sim o sintoma de uma ferida cultural profunda. Mestre em comunicação, consumo e cultura, Carol descobre a sujeira debaixo do tapete e investiga a fundo como bagunça e organização se tornaram questões de gênero e classe no Brasil.

Com uma trajetória que une as técnicas de arrumação de Marie Kondo à psicanálise, ela entende que a organização, da forma como é vendida hoje, atrapalha mais do que ajuda. “Em nosso imaginário, é como se ela fosse uma punição. Organização não é pra ser punição, é pra ser uma ferramenta”, afirma.

A origem da bagunça

Em sua dissertação de mestrado defendida em 2025 na USP, Carol Ferraz mergulhou nos significados da bagunça no Brasil para entender por que, afinal, ela gera tanta culpa, especialmente para as mulheres. “O contrário de organização é desorganização. Mas o Brasil usa outra palavra para esse significado: bagunça, que está associada ao mau comportamento.”

Ela foi buscar respostas na etimologia da palavra, em jornais antigos, em manuais domésticos de décadas passadas, em trends de redes sociais e até na casa de diversos brasileiros e brasileiras. Seus achados foram compartilhados em vídeos que alcançaram dezenas de milhares de curtidas no Instagram e no TikTok. “Entendi que era um assunto muito interessante para ficar dentro da universidade”, disse a pesquisadora.

Uma de suas principais descobertas foi que o termo “bagunça” tem origem no Kikongo (língua falada em diversas regiões da África) e era associado a festa e alegria – portanto, nada tinha a ver com o caos do seu armário. “Esse termo foi sequestrado por uma sociedade racista”, explica Carol. “Tudo o que era ligado ao festejo e à liberdade da população negra e indígena passou a ser visto como algo errado, que não traz progresso e que deve ser suprimido”. Assim, a bagunça deixou de ser festa para virar sinônimo de fracasso. No Brasil, país que carrega “ordem e progresso” na bandeira, a desordem virou um desvio de caráter.

O gênero da organização

/ Créditos: Unplash

A pesquisa de Carol revela um abismo de gênero na percepção do caos. Enquanto homens de classe alta ostentam suas casas desorganizadas como sinal de “mente criativa”, as mulheres, mesmo as mais bem-sucedidas, carregam uma culpa ancestral. “O valor da mulher ainda está atrelado à casa. Se a mulher branca é julgada pela desordem, a mulher negra sofre o dobro, pois historicamente é ela quem organiza a casa do outro e a sua própria”, pontua a especialista. “Sempre surgem novas formas para a mulher otimizar a limpeza e organização da casa, mas nunca a opção de ela simplesmente não fazer.”

Da bagunça nas redes à limpeza da morte

Hoje, o discurso da organização se dissemina nas redes ao gosto do algoritmo: da tradwife (a “esposa tradicional”) arrumando a cama com sorriso no rosto aos vídeos satisfatórios de limpeza, marmitas e utensílios que prometem transformar sua vida. Mas a promessa de rotina impecável estimula ainda mais o consumismo e vira mais uma fonte de ansiedade. “Hoje, a organização é vendida como meio para produtividade, saúde mental e sucesso profissional mas continua sendo a velha cobrança de sempre, só que disfarçada numa nova estética”, afirma a pesquisadora.

Ela propõe um caminho inverso: o desapego dessas lógicas disfuncionais de arrumação e a preparação, inclusive, para o fim. Especialista também na chamada “limpeza da morte”, ela defende que organizar nossos pertences enquanto estamos saudáveis é um ato de amor com quem fica.

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No papo com a Trip, Carol revira as lógicas de organização que nunca fizeram sentido, ensina como resistir à mania de limpeza e como deixar tudo em ordem antes de morrer.

Trip. O que despertou seu interesse em pesquisar sobre bagunça?

Carol Ferraz. Sempre fui muito bagunceira. Apesar de eu ser muito organizada no trabalho, passava perrengues por perder objetos como a chave de casa e resolvi fazer um curso da Marie Kondo [especialista em organização pessoal] após ler um livro dela. E aí, falei: ‘Quero trabalhar com isso’. Fiz uma formação de personal organizer e, desde 2017, eu entro na casa das pessoas para guiar processos de organização. Já ouvi histórias de tudo quanto é tipo e percebi que nenhum método é perfeito porque a bagunça tem relação com a forma que a gente compra coisas, com o tipo de casa que a gente vive, com quem organiza, quem limpa. E aí me toquei que eu não queria estudar sobre organização, e sim sobre bagunça, porque de bagunça a gente não fala, a gente esconde. Fui ver o que existia de pesquisa sobre o assunto no Brasil: nada. Mas há muitos usos dessa palavra no país: bagunça tem a ver com casa mas também com samba, política, com comportamento fora do esperado. Na bandeira nacional, está escrito “ordem e progresso” e a frase que a gente mais usa é “não repara a bagunça”. Então falei: tem alguma coisa aqui, no sentido cultural brasileiro, que vem antes dos métodos de organização.

E o que você descobriu na sua pesquisa? A minha ideia era entender como a gente construiu a narrativa do que é bagunça e do que é organização na sociedade brasileira, e como isso impacta, hoje, nas nossas vidas e casas. Busquei os registros da palavra bagunça nos jornais antigos e sua etimologia. O termo bagunça veio do Kikongo [língua falada em diversas regiões da África] e era usado para falar de jogo, associado a um contexto de alegria. Ele foi sequestrado pela sociedade branca, elitista, racista e tirado do contexto da felicidade, ganhando conotações negativas, atreladas à população negra. Porque a liberdade, o festejo, a criatividade dessa população marginalizada não era bem vista. Então, se criou uma narrativa associando bagunça ao mau comportamento, ao que impede o progresso, ao que deve ser suprimido.

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Isso tem a ver com uma certa “mania de limpeza” que existe no Brasil? Se falar para um europeu que você passa pano toda semana em casa, eles te olham como se você fosse um ET. O Brasil é o país com maior índice de queimadura por produtos domésticos do mundo. A gente literalmente corrói nossos pulmões com água sanitária. Se você conversar com dez empregadas domésticas, no mínimo duas já foram para o hospital com queimadura química. Essa mania de limpeza está incrustada por causa da escravidão: sempre teve um batalhão de pessoas pretas limpando para a elite. E a população negra também tem mania de limpeza porque foi domesticada para isso.

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A bagunça pesa igual para todo mundo? Não, depende de onde você está, do gênero, da cor da pele, do quanto você tem na conta bancária. Quando você fala com homens, eles trazem muito mais a questão da bagunça como criatividade e leveza. Além disso, eles se apoiam muito no discurso do ‘sou bagunceiro’ pra mulher organizar a vida dele. Tem um deles que eu entrevistei, da classe alta, a casa cheia de móveis caríssimos, que me disse: “Mesmo que a casa esteja uma bagunça, não é um problema para mim”. Porque quem entra na casa vê o “capital social” dele, então a bagunça não é uma desqualificação. Já quando eu entro numa casa na favela, os moradores pedem desculpa diversas vezes. Falam: “Tá meio bagunçado, mas tá limpinho.” Aí a bagunça é uma questão de vergonha. Muda completamente o sentido da palavra. A gente até pode usar o termo como festejo, como alegria, até no contexto do carnaval, mas se uma mulher ouve que é bagunceira, ela provavelmente vai se sentir mal. Então, esse termo, além de ter sido sequestrado, ele foi ganhando pesos diferentes para camadas diferentes da população.

Você mencionou que homens e mulheres vivem a bagunça de formas opostas. Como isso se manifesta na prática? Para as mulheres, a bagunça é vergonha e culpa. Mesmo as que ocupam altos cargos, que ganham muito bem, que têm a carreira consolidada sentem que falharam se a casa não está em ordem. Depois da Revolução Industrial, o homem foi trabalhar fora e a mulher ficou em casa. A partir daí, a demanda de serviço doméstico para as mulheres aumentou. O trabalho dela era assegurar que o ambiente estivesse em ordem para quando o marido chegasse. A partir da década de 1950, começam a surgir os eletrodomésticos e a mulher ganha o status de administradora da casa, a rainha do lar. Os manuais domésticos de organização eram matéria obrigatória nas escolas femininas. Nestes manuais, a mulher bagunceira não tem valor. O valor da mulher está atrelado à forma como a casa dela está controlada, organizada e limpa. Tudo o que as mulheres consumiam de conteúdo na TV, no jornal, na revista feminina, falava disso. Quando você conversa com mulheres mais velhas, elas têm uma preocupação real de as filhas serem bagunceiras, porque temem que elas sejam julgadas por isso. E se a mulher branca é julgada pela desordem, a mulher negra sofre o dobro, pois historicamente é ela quem organiza a casa do outro além da sua própria.

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O discurso da organização mudou muito desde os manuais domésticos do passado até as influenciadoras de hoje? O discurso da organização mudou ao longo do tempo, mas continua voltado para mulheres, com o fim de domesticação. Sempre se discute uma forma da mulher conseguir fazer melhor, mais rápido, mas nunca a opção de ela simplesmente não fazer ou de compartilhar as tarefas. Hoje, o discurso é mais sorrateiro, está disfarçado de aesthetic, produtividade ou saúde mental. Como as mulheres estão no mercado de trabalho, a organização virou um meio para conseguir manter a casa, o trabalho e os filhos ao mesmo tempo. Você vê trends no TikTok mostrando que para passar no vestibular você precisa de muitos post-its e marcadores coloridos para estudar. Quem faz esse conteúdo? São meninas. Adolescentes que já chegam socializadas nisso. A organização também virou autoajuda: dizem que se sua cabeça está uma bagunça, sua casa também está. “Organize sua cama, arrume sua vida” que era discurso do exército, virou discurso para mulheres. 

Você acha que esse cenário pode mudar? Não consigo ver uma mudança estrutural, porque o mundo ainda é dominado por homens brancos que precisam manter as mulheres no trabalho doméstico para que eles possam realizar seus sonhos. A casa é um ambiente de aprisionamento da mulher, infelizmente. Mas a gente avança aos poucos. Minha mãe passava pano de prato, a filha dela nem ferro de passar tem, por exemplo. Isso antes era inadmissível. O que dá pra fazer agora é a gente entender que não precisa fazer tanto. Se permita deixar a casa um pouco desorganizada. Por que a gente quer manter uma rotina de organização e limpeza como se estivéssemos nos anos 50? As pessoas compram robô aspirador mas ficam vigiando para ver se ele está limpando direito, quando poderia usar esse tempo para fazer outra coisa. O segredo para diminuir esse peso é ignorar esse “grilo falante” da organização. É sair de casa mesmo tendo louça na pia, se não der para lavar. É receber os amigos em casa mesmo sem conseguir organizar tudo antes. No dia que a gente começar a mostrar a casa como ela é de verdade, vai ser uma revolução. Mulheres precisam conversar sobre isso entre si. Porque quando você vê a outra saindo de casa amassada sem se importar, você pensa: se ela pode, talvez eu também possa.

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Para quem quer começar a mudar essa relação tóxica com a casa, qual o primeiro passo? O jeito que a gente constrói o imaginário da organização hoje, é como se ela fosse uma punição. Mas organização não é para ser punição, é para ser uma ferramenta. O foco das pessoas, às vezes, é outro, não é o armário organizado. A casa tem que ser fácil de limpar. Não adianta ter muitos móveis e objetos se você não tem tempo para administrá-los. Então, às vezes, é preciso abrir mão de coisas. Fomos internalizando uma ideia de organização sem parar para refletir o que funciona de fato para nós. Os livros da minha estante estão ordenados por tema e não por cor ou tamanho. Quem vê, fala: ‘Sua estante está uma bagunça’. Mas ela está organizada, só não é estética. Por isso, acontece um choque entre pessoas que moram juntas. A bagunça do outro às vezes te incomoda, porque não está dentro da sua estética, mas é funcional para ele. É uma invasão de privacidade entrar no espaço de alguém e mudar as coisas de lugar. Então, o ideal é fazer acordos com cada um estabelecendo seus limites para entender qual organização funciona para a rotina da casa. Além disso, a forma de organizar vai mudando conforme as fases da vida, o tamanho da casa, a mobília e a quantidade de objetos que existem no espaço. Isso é diferente quando a pessoa desenvolve um transtorno de acumulação. Até mesmo jovens adultos podem manifestar alguns sintomas como a dificuldade de desapegar de objetos. Mas isso não se resolve entrando na casa da pessoa e organizando as coisas dela. Nesse caso, é preciso procurar a ajuda de um psicólogo. 

Hoje se fala da “limpeza da morte”, que defende que cada pessoa busque deixar as coisas organizadas antes de morrer. Isso realmente facilita a vida de quem fica? A morte é muito negligenciada na nossa sociedade. Temos medo de falar sobre ela e isso vem muito do cristianismo. Nas religiões de matriz africana e orientais, essa conversa ocorre com mais frequência. O ideal é que cada pessoa deixe um documento escrito: “Se eu morrer, abra aqui.” Porque, se não, seus direitos, sua dignidade no leito de morte, fica tudo para outra pessoa decidir. Quando existe um roteirinho deixado por quem morreu, é como se você tivesse a oportunidade de conversar de novo com a pessoa e de honrar o desejo dela em vida. Já quando alguém morre sem que nada tenha sido conversado, costumam surgir dois cenários e nenhum deles é saudável. O primeiro é se livrar de tudo rapidamente, para fugir das lembranças. O segundo é não conseguir mexer em nada, por medo de estar “matando de vez” aquela pessoa. Saber a vontade de quem foi tira esse peso de quem fica. O que eu critico na limpeza da morte é quando se exige que a pessoa seja racional num momento sensível: numa idade avançada, ou diante de uma doença terminal. Para quem está morrendo, se desfazer dos próprios objetos é doloroso, é uma morte em vida. O melhor momento para fazer essa triagem é quando você está bem de saúde: separar o que faz sentido manter, o que pode ser doado, o que pode ser descartado. E observar quem ao seu redor tem uma ligação especial com determinado objeto para deixá-lo com essa pessoa. Isso garante que os objetos que você verdadeiramente ama estejam guardados e contem a sua história após a sua morte.

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