Gabriel Leone: Levei muito 'não' antes de começar na TV

por Redação

O ator fala sobre a amizade com Domingos Montagner, a preparação para viver um dependente químico na série ”Dom” e a tristeza na pandemia

Gabriel Leone estava dentro de seu carro, no estacionamento do Projac (cidade cenográfica da TV Globo), onde havia acabado de gravar sua última participação em “Um Lugar ao Sol”, próxima novela inédita das nove, quando bateu um papo com a Trip. Não fosse a pandemia, ele teria emendado as filmagens de "DOM" – série da Amazon Prime – com o novo projeto da Globo, como tem feito desde que deu vida ao personagem Gui em "Verdades Secretas". Essa sucessão de trabalhos forma um já extenso currículo para o jovem ator, que faz 28 anos neste mês de junho, mas desde os 16 já dava sinais do talento ao interpretar Shakespeare com a Cia Teatral Notre Dame.

Intensamente dedicado à construção de seus papeis, Leone cita viver Pedro Dom, da série "DOM", de Breno Silveira, como um trabalho exaustivo. "Fui buscar exercícios trabalhando os chacras para acessar essa energia – diferente da minha – da cocaína, presente em 90% das cenas."

Gabriel tropeçou na profissão quando um professor de história do colégio passou a criação de uma peça de teatro como lição de casa. A experiência completamente amadora foi o suficiente para despertar nele um ímpeto gigante que mais tarde o lançou a todas as esferas da atuação. E quando os musicais eram a bola da vez, ele foi estudar canto e dança, habilidades que lhe renderam a participação no espetáculo "Chacrinha".

Na televisão, vale lembrar ainda de seu papel marcante como Miguel, em "Velho Chico”, que não só fundamentou seu trabalho no casting principal da maior emissora do país como deixou uma saudade imensa pela amizade construída com o ator Domingos Montagner, que morreu afogado ao nadar no rio durante a produção da novela. "Nós éramos tão próximos que até meus pais ficaram destruídos naquele dia. Quando voltei para casa, meu pai havia colocado uma foto minha com o Domingos em um porta retrato na minha cabeceira”, conta.

No Trip FM, Gabriel Leone ainda fala de seu papel como Pedro Dom, discute as ferramentas que utiliza para entrar e sair dos personagens e conta como combateu a tristeza durante a pandemia. Ouça o programa no Spotify ou leia um trecho da entrevista a seguir.

Trip. Você e a Carla Salle, sua namorada, fizeram um ensaio para a Trip. Na época ela contou que conheceu você vestido de Roberto Carlos em uma festa que não era à fantasia. Conta melhor essa história.

Gabriel Leone. Tem uma explicação, eu não sou tão corajoso assim. Eu estava filmando a cinebiografia do Erasmo Carlos, “Minha Fama de Mau” e, no fim de um dia de gravação, tínhamos uma festa. Eu joguei a ideia para o Chay Suede, brincando, de ir com a roupa dos nossos personagens. Ele topou e conseguimos dar um jeito, com o diretor, de sair com o figurino. Eu fui da maneira que estava, com cabelo alisado, e passei a festa toda agindo como se fosse o Roberto. Em dado momento eu passei pela Carla e conversei dessa forma. Já estava de olho nela, mas foi a primeira vez que conversamos.

Uma coisa que sempre me fascinou é a preparação de um ator para interpretar um dependente químico, por exemplo, como o Pedro Dom que você faz na série do Breno Silveira. Como é para você viver um drama tão pesado como esse? Como é a preparação? Uma coisa muito importante foi o fato de o pai do personagem principal, o Vítor, ter procurado o Breno há dez anos para contar essa história. Então para além de diretor, o Breno foi alguém que viveu – por meio do pai do protagonista – a história. Ele foi muito o nosso farol. Nossa história é baseada em fatos reais: as situações mais absurdas são reais. Outra ajuda foi ter filmado tudo em ordem cronológica, assim a gente pôde caminhar junto com o personagem. Você vive uma situação e pode usar a memória física e emocional para a próxima cena. Ter usado apenas locações trouxe um nível de realismo também. Especificamente sobre a minha preparação, percebi que 90% do tempo o personagem estaria sob o efeito da cocaína. Eu, sabendo que teria que achar essa energia, busquei exercícios para acessar esse estado que era muito diferente do meu.

Falando de um outro trabalho seu, estava lembrando do seu papel em "Velho Chico", uma novela muito bonita, mas que ficou marcada também pela morte do Domingos Montagner. Me conte um pouco sobre essa época. Como foi viver isso? Hoje, depois de mais de cinco anos, sempre que falo sobre o Domingos, falo com muito carinho e saudade. Ele foi um dos seres humanos que mais me transformou. Era um gigante não só de tamanho, mas de coração e generosidade também, um ator brilhante que tive o privilégio de conviver intensamente por mais de um ano. Dali nasceu uma amizade lindíssima. A gente se chamava de pai e filho por conta da relação dos personagens na novela. Foi um dos encontros mais especiais da minha vida. Foi uma dor para todos nós. Para você ter uma ideia, no dia, quando falei com meus pais, ambos estavam completamente destruídos porque já tinham a dimensão do que ele representava para mim. Quando voltei para casa, meu pai tinha revelado uma foto minha com o Domingos e colocado na cabeceira da minha cama.

Créditos

Imagem principal: Divulgação

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