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Marcus Preto: Como um garçom virou o produtor top da MPB

Da zona norte de São Paulo aos estúdios mais importantes da música brasileira, o jornalista e produtor musical fala do trabalho por trás de discos e palcos de Gal Costa, Nando Reis, Tom Zé e Erasmo Carlos

O jornalista e produtor musical Marcus Preto (@marcuspreto)

O jornalista e produtor musical Marcus Preto (@marcuspreto) / Créditos: Divulgação


Por Redação

em 12 de dezembro de 2025

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“Meu trabalho é ficar invisível. Ler o artista, entender o que a história dele pede. Talvez isso venha dos anos em que fui garçom: ninguém observa mais do que um garçom”, diz Marcus Preto. No Trip FM, o jornalista e produtor musical relembra a trajetória improvável que começou na zona norte de São Paulo, passou pelas bandejas do restaurante Spot, aterrissou na redação de jornais e revistas e, pouco depois, foi parar dentro do estúdio.

Um dos maiores nomes por trás de discos e shows de grandes ícones da MPB, como Nando Reis, Tom Zé e Erasmo Carlos, ele encontrou no jornalismo cultural a sua grande parceria profissional: Gal Costa. “Foi fundamental na minha vida. Três discos de estúdio, vários ao vivo. Vivi os últimos nove anos da vida dela ao lado dela.”

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Na conversa com Paulo Lima, Marcus Preto também revela detalhes de sua saída da Folha de S.Paulo e os tropeços e aprendizados que moldaram sua carreira. “Fui demitido porque eu era bonzinho demais com os artistas. Queriam sangue, mas eu não ia falar mal da Gal Costa num disco que eu achava lindo. Não ia mesmo”, diz. “A imprensa cultural perdeu quando virou sabotagem. Cultura e crítica sempre formaram um jogo rico. Quando deixaram de se provocar, os dois lados perderam. A maldade pela maldade é uma idiotice tremenda.”

Você pode ouvir o programa no play nesta página, no SpotifyDeezer e no YouTube da Trip, ou ler um trechinho a seguir!

O jornalista e produtor musical Marcus Preto (@marcuspreto)
O jornalista e produtor musical Marcus Preto (@marcuspreto) / Créditos: Divulgação

De onde você vem? Como sua origem influenciou sua vida?
Marcus Preto. Sou da zona norte de São Paulo, família classe média. Meu pai tinha loja de autopeças, minha mãe era dona de casa desde os 19 anos. Mas aquele mundo não tinha nada a ver comigo. Quando conheci cinema na adolescência, pirei — achei que aquilo ia me tirar daquele lugar. Eu imaginava um mundo mais libertador “depois da ponte”.

Você falou da descoberta da sexualidade. Como isso atravessou sua formação? Eu não sabia que era gay. Fui descobrir com 18 anos, muito tarde. Aquele ambiente da zona norte me reprimia, e isso retardou tudo. Na psicanálise entendi como essa repressão me empurrava para sair dali de qualquer jeito. E quando comecei a conviver com pessoas de outros lugares da cidade, tudo abriu.

A Escola Técnica também fez parte dessa travessia? Sim. Fiz Eletrotécnica, que não tinha nada a ver comigo, mas foi importante. Fui reprovado, jubilei… Mas ali conheci gente de outros lugares. Foi libertador e abriu meu faro. Depois veio o cinema, veio a música, vieram caminhos novos.

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Como o restaurante Spot entrou na sua vida? Depois de tentar Filosofia na USP e música, precisava de dinheiro. Um amigo falou que o Spot contratava atores. Fui lá, me contrataram. Eu tinha 25 anos e ali conheci Caetano Veloso, Waly Salomão, Antônio Cícero, Arnaldo Antunes, Zélia Duncan… Fiquei amigo de alguns, especialmente do Waly e do Cícero. Aquilo mudou completamente minha cabeça.

Como era sua relação com os dois? Eles eram opostos. O Cícero tímido, elegante; o Waly explosão pura. Eu era fã dos dois. O Waly me dizia “escreva, escreva”, com aquelas mãos enormes, me empurrava pra frente. O Cícero lia poemas meus e dizia: “Esse está ótimo; esse aqui você escreveu meio no meu estilo”. Uma generosidade absurda. Foram encontros fundamentais.

E como você virou jornalista? Foi por acaso. Já estava há anos no Spot quando um amigo disse que tinha amigos editando a revista da MTV. Fui procurar contato, fiquei bêbado, comprei a revista na Paulista, peguei o e-mail da editora e mandei. No dia seguinte: “Adorei você. Quero te conhecer.” Ela me contratou. Assim começou o jornalismo.

Como foi a passagem pela Folha de S.Paulo? Fiquei quase quatro anos. Peguei o fim da festa do impresso. Trabalhei um pouco com o Marcos Augusto Gonçalves, que era genial, mas depois entrou uma equipe mais “jornalista de saúde” para um caderno de cultura — gente sem paixão pelo tema. E para escrever sobre cultura você precisa de paixão, mesmo que seja ódio. Sem isso, fica tudo morno.

Por que você foi demitido? Porque eu era “bonzinho” com artistas. Quando a Gal lançou Recanto, eu tive uma crise de choro ouvindo o disco. Minha editora queria sangue. Eu não ia falar mal de uma coisa que eu achava maravilhosa. Isso virou um ano de batata assando.

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Como você vê a relação entre crítica e artista? A maldade pela maldade é idiotice. A imprensa perdeu quando virou sabotagem. Mas a crítica sempre foi importante. Quando alguém fala mal de um disco que produzi, tudo bem. Às vezes é até ótimo — significa que aquele disco pode alcançar mais gente. Esse jogo já foi muito mais rico do que é hoje.

E como surgiu a parceria com Gal Costa? Um ano depois, eu tinha encontrado imagens raras dela na cinemateca e fui mostrar. Ela topou conversar. Perguntei sobre o próximo disco. Ela queria fazer versões em português de Chet Baker. Eu falei: “Você não vai fazer isso”. Ela respondeu: “Então o que você acha que eu tenho que fazer?”. Foi aí que começamos a trabalhar juntos. Foram nove anos, três discos de estúdio e vários ao vivo. Foi fundamental na minha vida.

Quais outros encontros foram marcantes na sua trajetória como produtor musical? Depois da Gal, o grande encontro foi o Nando Reis. Eu o conhecia como jornalista, mas quando fomos trabalhar juntos rolou uma telepatia absurda. Desde então faço muitos trabalhos com ele. O Erasmo Carlos também foi enorme: até hoje lembro do choque de ver “Erasmo Carlos” no identificador de chamada e sentir que eu precisava até pôr um paletó para atender. O Tom Zé foi especial. Quando ele levou porrada nas redes sociais por causa de um comercial, chegou a dizer que talvez não quisesse mais fazer música. Eu disse: “Pega os comentários, imprime e responde cantando”. Assim nasceu Tribunal do Feicebuqui.

O que é ser produtor para você? Meu trabalho é ficar invisível, ler o artista, saber o que aquela história precisa. Cada artista pede algo totalmente diferente. Talvez eu faça isso assim por causa do jornalismo — e também por causa do garçom: ninguém observa mais que um garçom. Observar virou meu ofício.

Como você lida com fracasso? Fracasso é a regra. Para cada disco lindo que você faz, cinco não acontecem. Você marca reunião, pensa repertório, reserva estúdio… E cai. Mas os sucessos são bons o suficiente para te manter feliz.

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