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Marjorie Estiano: Ângela Diniz, feminicídio, fama e a vida aos 43

Da construção de seu último personagem às lições do SUS, a atriz reflete sobre misoginia, processo criativo e as mudanças profundas que viveu na carreira e na vida

Marjorie Estiano, protagonista de “Ângela Diniz: Assassinada e Condenada”, série recém-lançada pela HBO Max

Marjorie Estiano, protagonista de “Ângela Diniz: Assassinada e Condenada”, série recém-lançada pela HBO Max / Créditos: Divulgação


Por Redação

em 5 de dezembro de 2025

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“A misoginia parece cada vez mais um posicionamento autorizado. Fico chocada quando eu vejo pessoas se manifestando livremente de uma forma tão violenta nas redes. Como é possível que isso possa ter espaço e seguidores?”, diz Marjorie Estiano.

Protagonista de Ângela Diniz: Assassinada e Condenada, série recém-lançada pela HBO Max, a atriz revisita um dos casos mais emblemáticos de feminicídio do país — e as armadilhas de um machismo que não apenas matou, mas tentou culpar a vítima.

No papo com Paulo Lima, ela revela como a preparação para a personagem acabou atravessando a vida real. “Foi um processo psicanalítico, você começa a se liberar. A investigação física é muito gostosa. Eu pensava: ‘Autoconfiança é muito bom!’ A gente podia tomar um comprimido todo dia de manhã. Me conheci um pouco mais através dessa experiência”, afirmou a atriz.

Marjorie também sublinha os contrastes da personagem com sua personalidade: “Tenho uma natureza mais reservada. Não me interessa expor a intimidade. Eu demoro para ter opinião, não me autorizo a ser leviana sobre assuntos importantes. As palavras têm força”.

Na conversa, ela também relembra a infância e adolescência em Curitiba e antecipa detalhes de Habeas Corpus, nova série da Netflix que irá protagonizar.

Você pode ouvir o programa no play nesta página, no SpotifyDeezer e no YouTube da Trip, ou ler um trechinho a seguir!

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Marjorie Estiano, protagonista de “Ângela Diniz: Assassinada e Condenada”, série recém-lançada pela HBO Max
Marjorie Estiano, protagonista de “Ângela Diniz: Assassinada e Condenada”, série recém-lançada pela HBO Max / Créditos: Divulgação

Para quem vê o resultado não parece, mas o tempo entre filmar e lançar um trabalho sempre é longo. Como isso te afeta como atriz?
Marjorie Estiano. Eu acho que nunca fiz um trabalho que não tivesse no mínimo um ano de distância entre terminar a filmagem e ser lançado. E isso é muito louco, porque eu esqueço dos detalhes, das nuances. Não lembro direito o que fiz semana passada. Por isso, durante o processo, meu estudo tem muita anotação. Eu tenho um diário, porque a escrita é importante para sedimentar uma informação — tanto teórica quanto da construção da personagem, desse entre-cenas que está para muito além do roteiro.

Você disse que assistir ao próprio trabalho já foi doloroso. O que mudou? No início da carreira, era muito sofrido, eu não gostava de nada. Mas isso também me ajudou a chegar até aqui. Hoje eu me reconheço no lugar do aprendizado. Consigo assistir sem sofrer tanto. Ainda tenho olhar crítico, mas consigo ver coisas boas também. E tento entender que escolhas geraram aqueles pequenos momentos que são especiais e tão impalpáveis.

Como é se assistir? Na primeira vez que assisto eu fico muito misturada com a memória do roteiro e com a experiência. A montagem conta outra história. É muito diferente da vivência. Quando está sendo exibido, eu vejo com um olhar mais fresco. A resposta das pessoas é fundamental, porque eu entendo o que aconteceu também pelo olhar do outro.

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Você começou o processo para viver Ângela Diniz ainda na pandemia. O que marcou aquela fase? Eu estava filmando o Sob Pressão especial Covid, e o Andrucha Waddington me contou que tinha comprado os direitos do podcast Praia dos Ossos [original da Rádio Novelo sobre o assassinato de Ângela Diniz]. Eu comecei a ouvir aquele material enquanto estava mergulhada no plantão da Covid. E de lá até agora, continuo estudando. Eu sigo em processo com essa personagem, mesmo trabalhando em outra coisa. Estou bem mexida. Acho que a sociedade inteira está.

Você tem falado muito sobre como o caso da Ângela nos obriga a olhar para a misoginia de hoje. Como você enxerga esse momento? A misoginia parece cada vez mais autorizada. Eu vejo isso nos podcasts, nos vídeos, nos comentários. E fico chocada. Como é possível que uma fala dessa possa ter espaço? Como é possível ter seguidores que compactuam com isso? A mentalidade demora a se transformar. A gente evoluiu muito em liberdade — a mulher hoje tem mais autonomia de escolha —, mas a violência e a mentalidade masculina não acompanharam isso.

Como essa mentalidade afeta a formação dos homens? A estupidez nasce na insegurança. A formação do homem é muito insegura. Ele entende as relações de forma hierárquica. E junta isso com a falta de lida com os próprios sentimentos, porque isso não é autorizado dentro do patriarcado. O homem não pode duvidar de si, não pode se sentir frágil. Resolve as coisas com força. Vira um organismo pouco amparado, sem ferramenta de autoconhecimento, e sofre muito com isso. Quando eles entendem que essa cultura faz mal para eles também, talvez haja mais abertura para se desconstruir.

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Você mantém uma relação discreta com redes sociais. Por quê? Eu tenho uma natureza mais reservada. Não é um universo que me interessa no sentido de expor a intimidade. Eu gosto de expor o meu trabalho, o processo, a discussão. E hoje todo mundo tem muita opinião. Eu demoro para ter opinião. Acho que preciso ouvir e ver muitas coisas antes. Não me autorizo a ser leviana. As palavras têm força.

Como foi viver a liberdade de Ângela Diniz no corpo? A Ângela é uma mulher livre, autônoma, de sensibilidade aflorada. Teve um trabalho psicofísico de expansão, de ocupar o espaço, de aguçar os sentidos. Ela gosta do flerte com o ambiente, do prazer, da sensação. E isso me fez pensar: se eu tivesse nascido numa sociedade que não fosse patriarcal, será que eu seria assim? Não consigo distinguir totalmente o que é minha natureza e o que é construção social. Mas o estudo da Ângela me deu um shot de autoconfiança. Era um exercício de expandir, de crescer.

Você contou que Sob Pressão mudou sua relação com a saúde pública. Como foi? Foi um divisor de águas. Eu compreendi melhor a saúde pública do meu país e o papel social da minha profissão. Dentro daquela temática, o impacto era direto: a gente fazia um episódio sobre transplante de órgãos e no dia seguinte aumentava a busca por informações sobre doação. Eu não tinha consciência da amplitude do SUS. O hospital público concentra todas as questões da sociedade — violência, desigualdade, tudo desemboca ali. Sob Pressão me ensinou cidadania.

E como a Ângela fica em você depois desse processo tão longo? Não tem como voltar atrás depois de uma experiência dessas. Ela me transformou fisicamente, emocionalmente. Acho que ela vai continuar comigo. Eu tive o privilégio de conhecer essa mulher dentro da minha fantasia, mas conheci. Fui muito tocada por essa perspectiva de vida. E isso me fez muito bem.