Grande Mini! Cineasta Mini Kerti fala sobre Preta Gil, Oscar, separação e os 50+
A diretora das séries "Sob Pressão" e "Juntas e Separadas" lança documentários sobre Preta Gil e Dona Onete e celebra o boom do cinema nacional
A diretora das séries Sob Pressão e Juntas e Separadas fala sobre cinema nacional, Oscar / Créditos: Carlos Eboli / Arquivo pessoal
Mergulhar em realidades distintas é o combustível que move a diretora Mini Kerti. Sócia da Conspiração Filmes, ela construiu uma carreira de mais de 30 anos transitando entre publicidade, videoclipes, cinema, TV, streaming. Ela é autora de documentários musicais como Refavela 40 (2019), com Gilberto Gil, indicado ao Emmy Internacional. Nesta entrevista, Mini Kerti compartilha reflexões sobre sua trajetória e o cinema nacional. “Tenho muito prazer em mergulhar em outras realidades. Minha profissão me permite sair do lugar da elite branca do Sul”, afirma a cineasta carioca.
No papo com Paulo Lima, ela detalha os bastidores de Sob Pressão (2017). A série revelou ao Brasil a grandeza e, simultaneamente, a precariedade do sistema público de saúde. “Tínhamos a sensação de estar fazendo um serviço de cidadania, retratando quem dedica a vida à medicina e a importância do SUS, que é um sistema de saúde incrível.”
Mini também reflete sobre os 35 anos da Conspiração e a necessidade de abrir espaço para talentos de origens diversas: “No início, a produtora era formada por homens brancos, eu era uma das poucas mulheres. Teve uma hora que a minha geração se deu conta de como a questão racial afeta tudo: cultura, comportamento, economia. É muito importante abrir espaço para diretores e protagonistas pretos e de lugares diferentes”, afirmou.
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A vida pessoal da cineasta também passa por transformações profundas. Aos 56 anos, ela fala abertamente sobre o fim de um casamento de 25 anos. “Resgatei uma liberdade que não tinha há muito tempo. Agora estou livre para fazer o que mais eu quiser.” A nova fase inspirou a direção da série Juntas e Separadas, que acaba de estrear no Globoplay. Além disso, a diretora prepara o documentário Dona Onete: Meu Coração Neste Pedacinho Aqui e um longa sobre Preta Gil para o segundo semestre.
Durante a conversa, Mini Kerti também falou sobre a valorização do cinema nacional no ano em que o Brasil foi indicado a quatro categorias do Oscar com o filme O Agente Secreto (2025). “Vejo como o movimento de um país que está investindo na sua cultura e deve continuar, porque isso é mercado de trabalho. Além de ter uma importância muito grande na questão da identidade: você se ver no que está assistindo e mostrar a sua cultura para o mundo.”
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Você pode ouvir o programa no play nesta página, no Spotify, Deezer, YouTube e outras plataformas de áudio, ou ler alguns trechos da entrevista a seguir.
A série Sob Pressão é uma obra-prima. Um trabalho que teve uma função social muito importante e revelou ao mesmo tempo a precariedade e a genialidade do nosso sistema público de saúde, e o quão heróicos são os profissionais que estão lá dentro. Conta um pouco dessa parte da tua carreira.
Mini Kerti. O Sob Pressão nasceu numa época em que eu estava grávida da Rita, minha primeira filha, e assistia a séries médicas. Aí, li uma matéria na Veja sobre como eram as emergências no Brasil perto de zonas de conflito, e outra na Piauí, que era o diário de um médico. Juntei tudo e falei: não tem uma série
sobre isso aqui, que conte esse dia a dia dos médicos de emergência. O SUS é um sistema de saúde incrível — qual país tem um sistema assim? — mas isso eu fui descobrir depois. No início era só uma vontade de contar uma história num hospital. Demorou uns dez anos para ser produzido e foi uma concepção muito coletiva com o Cláudio Torres, o Jorge Furtado, o Andrucha Waddington, o Guel Arraes, Lucas Paraíso. A gente acompanhou o dia a dia de diversos hospitais públicos do Rio, e era muito gratificante, porque a tínhamos a sensação de estar fazendo um serviço de cidadania, além das nossas funções de cineasta, roteirista, atores e atrizes.
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Você vem da publicidade, como o Fernando Meirelles, e faz parte de uma geração que foi pioneira no audiovisual, mas que carregou um estigma de ser visto como alguém que não era da arte, mas do mundo do marketing, do dinheiro. E tem uma outra coisa: era todo mundo rico e branco. Isso já te pegou de alguma forma? Alguém já te questionou nesse sentido? Eu mesma me cobrei. A minha geração foi com a faca nos dentes, abrindo o mato, dirigindo publicidade, fazendo videoclipe. O Brasil não é moleza: economicamente, politicamente, tudo sempre foi bastante conturbado e na época, éramos jovens querendo fazer acontecer, a gente não olhava muito para o lado. Mas teve uma hora que a minha geração se deu conta dessas estruturas. Aí eu comecei a ler [Frantz] Fanon, e vi como a questão racial afeta tudo: cultura, comportamento, economia. Outro dia eu peguei uma foto antiga da Conspiração, que está fazendo 35 anos, e só tinha homem branco. Hoje temos uma equipe de produtores executivos majoritariamente feminina e políticas internas de diversidade. Não tem como não ter isso hoje em dia. é muito importante também abrir espaço diretores e protagonistas pretos e de lugares diferentes. Além disso, a minha profissão me permite sair desse lugar da elite branca do sul. Fazer Sob Pressão e documentários sobre o André Midani e a Dona Onete de alguma maneira me levaram para um universo que não era meu. Tenho muito prazer em mergulhar em outras realidades.
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A gente está falando muito de trabalho. Mas eu queria ir um pouco para a vida pessoal. Você está com 56 anos, como é que está essa fase? Mudou alguma coisa essencial? Há três anos, terminei um casamento de 25 anos. Foi uma decisão conjunta, uma separação tranquila. E por coincidência ou não, as meninas já estão crescidas, uma com 20, outra com 16 anos. Então eu resgatei uma liberdade que não tinha há muito tempo. A carreira tá estável, as filhas já estão no caminho delas, você fala: agora estou livre para fazer o que eu quiser. Saio à noite, vou sozinha a um samba, ligo para uma amiga. Tem a questão da menopausa, a sensação de que um ciclo está acabando. Mas eu não acho que seja uma parada do processo produtivo. Ao contrário: quero produzir e aprender muita coisa ainda. Se eu não trabalhar, não fico bem. Gosto muito do que eu faço. Eu tenho uma sensação muito mais de ciclos que se renovam e você vai se reinventando.
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O seu divórcio inspirou a série Juntas e Separadas, sobre mulheres cujas vidas recomeçam após a separação? Na verdade, o projeto veio para mim. É uma criação da Thalita Rebouças, que levou para a Conspiração, e me chamaram para dirigir. A Thalita é uma pessoa maravilhosa, muito viva, muito corajosa. Tive a sorte de me relacionar com mulheres que me botaram para frente nesse momento difícil. E é um texto que trata exatamente disso: separação, menopausa, mudança de ciclo do ponto de vista da mulher. É você entrar na intimidade de mulheres em assuntos que não são fáceis de tratar e que a gente não prestava muita atenção.
Falando em cinema brasileiro, a gente está com O Agente Secreto concorrendo ao Oscar e o diretor Kleber Mendonça Filho cada vez mais reconhecido internacionalmente. Como você vê esse momento?Acho o trabalho do Kleber maravilhoso ele tem uma visão muito particular e Pernambuco é um polo de cinema brasileiro muito forte. Mas eu vejo isso como um movimento maior de um país que está investindo na sua cultura, e deve continuar, porque isso é mercado de trabalho. As leis de incentivo, o streaming, a Globo abrindo para produções independentes. Isso cria mão de obra, promove o exercício da profissão. É que nem você falar uma língua: quanto mais você pratica, melhor fica. E tem uma importância enorme na questão da identidade: você se ver no que está assistindo e mostrar sua cultura para o mundo. Outro dia, ouvi alguém falando que o brasileiro agora gosta mais de cinema nacional do que de futebol. Tomara! Nossa cultura é muito rica, é um borogodó que só a gente tem.
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O que você recomenda para quem esteja querendo conhecer melhor o seu trabalho? E quais são os novos projetos que você está aprontando? Sempre indico Sob Pressão, claro, e o documentário André Midani: do vinil ao download. No segundo semestre, vou lançar o documentário sobre Dona Onete nos cinemas e um sobre a Preta Gil no Globoplay. Aliás, tem uma entrevista da Preta na Trip, muito emblemática, que a gente quer usar no filme. Além disso, estou fazendo meu primeiro documentário true crime para a HBO. E, em breve, no final do ano, eu vou fazer um longa sobre Gordon Parks, um fotógrafo americano que veio ao Brasil em 1961 para fazer uma matéria para a revista Life.
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