por Fernando Luna
Trip #115

Preta Gil está nua. Ela tira a roupa para enfrentar padrões de beleza e se despe também da personagem que inventou para si mesma.

Você tem coragem de mudar sua vida? Preta Gil tem.

E ela levava uma vida boa. Sócia da Dueto, uma das melhores produtoras de filmes e eventos do país, ganhava aos vinte e poucos anos dinheiro que a maioria não vê durante a vida toda. O bastante, por exem-plo, para levar sua compulsão para consumir a uma conta de cartão de crédito de 30 mil dólares.

Decidiu deixar tudo para trás — inclusive a compulsão, com a ajuda de terapia — e se arriscar como cantora e atriz. Não foi fácil. Teve que vender seu apartamento, voltar para a casa da mãe, Sandra Gadelha, e abrir mão de viver com o filho, Francisco, para se dedicar à nova carreira. “Estou recomeçando”, diz ela. “Vai dar certo.”

Por enquanto, não há do que reclamar. Aos 29 anos, acaba de lançar seu primeiro disco, Prêt-à-Porter, com doze músicas inéditas que ela define como “afoxé funk” e uma regravação de “Táxi pra Bahia”, do soulman Hyldon. No ar com a novela global Agora É que São Elas, dá um jeito de fazer o público simpatizar com sua protovilã, Vanusa, que se diverte organizando rachas. Um assunto, aliás, difícil para Preta: seu irmão Pedro morreu em um acidente de carro aos 19 anos, em 1990.

Assim como o sucesso profissional, a maternidade chegou cedo. Aos 20 anos, teve com o ator Otávio Müller seu único filho. Separou-se e casou mais duas vezes, a última com o também ator Caio Blat — uma união que durou um ano e terminou há pouco mais de dois. Desde então, Preta se diverte com ho-mens, como Paulo Vilhena e Marcos Mion, e com mulheres que prefere não revelar. Ou com homens e mulheres juntos. Mas, garante, está é procurando a pessoa certa para se casar na igreja.

Sim, Preta não tem problemas em assumir suas contradições. Define o pai, Gilberto Gil, como “a pessoa mais rude do planeta” — só para, em seguida, explicar que a suposta agressividade seria uma forma de amor. O mesmo amor que declara à mãe, embora assuma ter mais afinidade com a madrasta, Flora Gil. Defende suas raízes negras com a mesma convicção com que pinta o cabelo de louro. E, após anos lutando contra o próprio corpo com dietas e lipo, esmaga os padrões de beleza posando nua para estas Páginas Negras com seus 74 quilos em 1,60 metro.

Não estranhe. É só Preta, sem preconceito.


TRIP Você tem dois celulares, a campainha de um é uma batucada carnavalesca, do outro, a marcha nupcial. Meio esquizofrênico, né?
Preta Gil Eu adoro. No fundo quero casar e ter mais filhinhos. Meu sonho é casar de noiva na Igreja do Bonfim, na Bahia, com a minha família, com a marcha nupcial tocando. Sou muito romântica. Sou bem louca, metida a liberal, o caralho. Mas é tudo fachada, viu?

Por que você precisa dessa fachada de louca, que pega todo o mundo?
Não preciso, não. Mas numa fase achei que era uma característica minha, que eu era uma pessoa e aparentava ser outra. Depois descobri que você acaba sendo quem você quer ser.

Por que é importante casar na igreja?
Não que seja importante, é só mais um sonho, uma imagem que criei.

Você acha que um dia vai se casar na igreja?
Com certeza. E vai ser o casamento do ano! [Risos.]

O que tem mais a ver com você, a batucada ou a marcha?
É tudo junto, não tem uma verdade. E tudo complexo mesmo. Experimento as coisas.

Então vamos falar disso. O que você experimentou de drogas?
Maconha uma vez... uma não, algumas. Me dá fome, uma larica. Já me vi comendo coisas absurdas, tipo leite condensado com Sucrilhos. A maconha ajuda na criatividade, dá uma viagem e tudo, mas não quero entrar em vício nenhum.

Ecstasy?
Tomei ácido uma vez. Achei tão bom que fiquei com medo de viciar, e nunca mais tomei. Já fui compulsiva com comida, com consumo. Se for com drogas, tô fodida. Tenho uma tendência à compulsão.

Ainda sobre suas experiências, fala um pouco das sexuais.
Já transei com homem no mesmo dia que o conheci, já transei com mulher, já transei com homem e mulher. Tive prazer, mas o melhor é quando você encontra alguém.


Do que você mais gostou nessas experiências?
Dessa coisa de fazer bagunça, de muitas pessoas juntas, o que vocês chamam de suruba.

Vocês quem?
A sociedade.

E você chama de quê?
Ah, não sei... de nada. Um bando de gente junta querendo bolinar, como se diz na Bahia [risos]. Mas não dá certo, as pessoas não estão preparadas para isso. Dá sempre merda, no meio tem sempre um que não segura a peteca. A porra da ressaca moral...

Não há psicanálise que resista.
Não há. Sexualmente falando, gosto de transar com um homem e uma mulher ao mesmo tempo. Mas, emocionalmente falando, é perigoso. Já aconteceu de eu estar apaixonada por um cara, e como eu queria ele a qualquer custo e sei que fetiche de homem é ver duas mulheres juntas resolvi dar isso a ele. E me fodi, o cara se apaixonou...

Pela outra.
Fiquei fodida, ouvindo de todos os meus amigos: “Ah, quem mandou? A culpa foi sua”. É perigoso mesmo.

O que você procura no homem e na mulher?
Na mulher, a delicadeza da pele, do tato, da boca que não espeta. E com a mulher há a possibilidade de ser um pouco mais ativa. Com o homem é a coisa de ser submissa, um brinquedo ali na mão do cara, ele fazer coisas com você, fazer você sentir prazer. Tive mais homens, até porque fui casada com homens durante dez anos. Mulheres são coisas esporádicas, nunca namorei uma mulher, são só transas. Agora, tenho interesse mesmo é pelas pessoas, nem sempre a motivação principal é sexo. Mas ainda não rolou a pessoa que vai me fazer ser feliz.

Isso não é acreditar em príncipe encantado?
Totalmente. Todos os que passaram na minha vida foram sapos que achei que eram príncipes.

Você não sabe que príncipes não existem?
Para que aprender que não existem?

Para encontrar.
É aí que está. Até não existe, mas acho que existe... É cafona isso. Tenho que me encantar por alguém. Na hora que acontecer, vai ser mais fácil uma pessoa chegar e eu saber exatamente o que quero, parar de ficar idealizando o outro.

Você está com alguém?
Não. Acabei de arrancar uma pessoa do meu coração. Não deu certo porque exagerei, passei do limite da idealização. Acreditei demais, me entreguei demais e me decepcionei demais. Tudo isso aconteceu não por culpa da pessoa... ele sempre foi honesto. Idealizei, e aí fodeu.

Seu discurso é muito consciente, muito analisado.
É terapia na veia.

Há quanto tempo você faz terapia?
Não faço desde o dia em que resolvi deixar de ser produtora para ser cantora.

Há um ano?
Recebi alta há exatamente um ano.

Por quanto tempo você fez análise?
Uns oito anos, com analistas dife­rentes. Tinha uma doença bem bar­ra-pesada, tinha compulsão para gastar dinheiro. Ganhei muito di­nheiro na minha vida, trabalhando como publicitária, como produtora, fui uma profissional muito bem-sucedida. Mas não era o que queria, estava me enganando. Como tinha esse buraco em mim, esse vazio, preenchi de duas formas: comendo e gastando. Comecei a gostar, a ter adoração por marca, por grife. A Regina Casé me chamava de “Pretinha de Beverly Hills”! Todo o dinheiro que ganhei, gastei na Daslu! [Risos] Dizem que a galera cheira o dinheiro, né

Você não cheirou, calçou o dinheiro.
Calcei, vesti. Era uma menina bem-sucedida com 24, 25 anos, ia para Nova York quando queria, ajudava meus amigos fodidos, minha empregada, a babá, meu motorista.


Qual foi sua maior extravagância de consumo?
Ir a Nova York comprar um bando de coisas e voltar com um cartão de US$ 30 mil para pagar. Como é que faz?

Como é que faz?
Pede emprestado, parcela...

Até sua nova carreira decolar, você vai ser sustentada pelo seu pai. Como está sendo isso?
Fácil. Aliás, como é fácil não ter dinheiro! Você precisa ter outras coisas que eu achava que o dinheiro comprava, como amizade, bem-estar.

Nelson Rodrigues escreveu que se compra até amor verdadeiro...
Não compra não. A gente pode até se iludir, mas não compra.

Você já tentou?
Não de uma maneira deliberada, mas indiretamente sim. Sempre tentando ajudar a realizar as coisas. O cara quer fazer a peça de teatro, vou lá e boto grana do meu bolso. Mas não é difícil para mim, muito pelo contrário. Vender meu apartamento para ser cantora me rendeu conseqüências e sensações mais positivas. Desde então, realmente sou uma pessoa muito mais feliz.

Daria para manter essa tranqüilidade sem a rede de segurança que o dinheiro do seu pai proporciona?
Mas eu conquistei isso, não tinha isso antes! Ele só resolveu me ajudar quando percebeu que era corajosa para viver a minha vida. Provei para ele, para Flora [mulher de Gil], que é quem na realidade me dá costas quentes. Não é ele, é ela. Se dependesse dele, talvez fosse tudo mais difícil.

Você acha?
Acho não, tenho certeza. É ela que me protege, muitas vezes faz coisas que ele nem sabe. Ele tem razão, tem sete filhos e não pode ser tão bonzinho com todos, senão tá fodido.

Seu pai cobra mais de você por estar ajudando financeiramente?
Não, não cobra nada. A única coisa que me cobra sempre é o equilíbrio, para que eu possa atingir a felicidade. Fica checando da maneira dele, observando minha vibração, a energia que estou emanando. Ele percebe que estou mais tranqüila.

Você fez as fotos deste ensaio no Dia dos Pais. O que o Gil achou?
Não sei, não falei para ele que ia fazer este ensaio [risos].

Não?
Não. Das fotos do encarte do meu disco, em que também estou sem roupa, ele não gostou. A única coisa que falou foi: [com sotaque baiano] “Desnecessário, desnecessário, desnecessário, horrível, horrível, horrível”. Peguei as fotos e fui embora. Não emitiu nenhuma opinião mais profunda, e também não perguntei mais nada. Nem quero perguntar, porque tudo que meu pai fala tem um peso muito grande para mim, me faz refletir. Então prefiro não ouvir, não quero voltar atrás. Mas não acho que vá me arrepender das fotos, estou num momento um pouco mais consciente da minha vida.

Quando você estava numa fase menos consciente, fez muitas coisas das quais se arrependeu?
Várias. Tem uma coisa que estou tentando mudar: eu falo muito. Falo muito de mim, e esqueço que muitas vezes ao falar de mim estou falando de pessoas que estão envolvidas comigo.


Dizem que quem fala muito de sexo faz pouco.
Provavelmente sou dessas, sou uma boba. Tem esse mito de que a Preta Gil pega todo o mundo, come geral. Mas estou aqui cheia de estrias. Na hora de trepar comigo, pode crer que eu vou apagar a luz.

Só com luz apagada?
É assim no começo...

Nos primeiros cinco minutos?
Não, nas primeiras três transas! Uma coisa a meia-luz. Tenho estria, celulite, tive um filho...

Mas as estrias e celulites continuam lá depois das três transas.
Continuam lá, mas aí... já dei uma surra de buceta! [Gargalha] A estria vai para a casa do caralho.

O que você tem que as outras mulheres não têm?
Ah, tenho alguma coisa! [Risos.]

As pessoas ficam irritadas quando vêem alguém fora do padrão de beleza saindo com homens que definem o padrão de beleza masculino?
Com certeza, é a merda do preconceito. A princípio até eu estranharia... Se visse o Brad Pitt namorando aquela moça que eu adoro, uma gordinha americana, [Queen] Latifah. [Irônica] Ah, não pode! Ela é preta, gordinha. Deve comprar ele... Por que as pessoas não podem simplesmente achar que é amor, tesão? O que ouço muito é: “Preta, você é foda”. Não sou porra nenhuma.

Mas você já saiu com Caio Blat, Rodrigo Santoro, Paulo Vilhena, Marcos Mion.
Desses nomes todos, namorei o Caio, fiquei com o Paulinho e tive um relacionamento com o Mion. Nunca dei sequer um beijo na boca do Rodrigo, quanto mais... É com isso que fico chateada. Não quero esse título de “a pegadora”, não condiz com a realidade. As coisas não são fáceis para mim, não fico com todos os homens que quero... Algumas vezes até deixo isso transparecer como uma espécie de compensação.


Para se afirmar fora do padrão de beleza?
É terapia, né? Algumas vezes busco estar com pessoas que são bonitas para dar o contraponto: “Nossa, mas é uma gordinha e mesmo assim consegue ficar com fulano e com beltrano”. Tanto o Caio quanto o Paulinho e o Mion foram homens que eu idealizei e fui atrás.

E quando deixou de ser idealização e virou realidade?
Não quero dizer nomes, mas com dois deles me surpreendi muito.

Positivamente?
Positivamente. A carinha bonita realmente não é nada. O coração, a alma, a força, o talento, tudo é muito grande. E um foi absolutamente decepcionante.

É mais difícil ser preta ou ser gorda?
Ser preta é difícil por todos os preconceitos, mas é uma carga de dificuldade que transformo em força para viver. Não acho que alguém se afaste de mim porque sou negra. E já não acho que o fato de ser gorda gere uma questão tão grande assim de preconceito. Nem me acho mais gorda. Estou muito confortável com meu corpo.

Tem quem critique o fato de uma mulher negra alisar cabelo, pintar de louro, como você pinta.
Sou negra, mas o movimento negro está em mim, está na minha história. Faço parte do movimento pró-felicidade. É você se olhar no espelho e se sentir bonita. Não fere, não agride, não chega nem perto de uma negação da minha negritude, da raiz.

Só da raiz dos cabelos.
Da raiz dos cabelos [risos]. Tem tanto branco que faz dreadlock, que quer ter cabelo de negão... Michael Jackson quis ficar branco. Não quero ficar branca, mas gosto de alisar meu cabelo. Sempre quis ser loura, mas daqui a pouco vou ser morena de novo.

É mais difícil ser preta ou ser Gil?
Cara, Gil é fácil ser. O cara é idolatrado, um guru, um mestre. Hoje em dia é ministro!

Mas deve haver uma cobrança grande...
Foda não é nem ser preta e nem ser Gil, foda é ser a Preta Gil.

Por quê?
Porque sou uma mulher independente, sempre fui. Sempre conquistei minhas coisas e vou a cada momento mostrando para todo o mun­do que, se a gente tiver amor próprio, garra e respeitar o outro, consegue o que quer. Ser filha do Gil me traz sorte em vários aspectos, mas não é o bastante. O [publicitário] Nizan [Guanaes] falou para mim: “Ué, você tem esse brilho todo porque é filha do Gil? O Gil tem sete filhos, tem cinco filhas. Cadê suas irmãs?”. Estão aí, vivendo a vida que elas querem para elas, incógnitas. Eu optei por ser artista.

O que você não tinha na vida de produtora e encontrou na de cantora e atriz?
Paz de espírito. Nasci para fazer o que faço hoje. Sabe postura de superstar? Eu tenho desde criança [ri]. Desde pequena, nas festas de aniversário, a atração era me ver imitar a minha madrinha, Gal Costa, a Rita Lee, a Elba Ramalho. Também imitava a Gretchen, tem o lado puta também! [Risos] Eram sinais que a vida me dava... Eu não tinha sido cantora nem atriz, mas resolvi que seria. Por quê? Porque sabia que podia.

O que dava essa certeza? Tinha uma dose de prepotência nisso?
Não era prepotência, muito pelo contrário. Era medo. Agora é liberdade, é vontade de ser feliz depois de ter ido para o fundo do poço, de ter sofrido de depressão, de ter que tomar remédio, ir para terapeuta, psiquiatra, depois de ter me revirado por dentro, buscando amigos, buscando energia na família. Estou a fim de encarar as barras-pesadas que vão vir pela frente, não vai ser fácil, como não é fácil fazer novela ou lançar um disco.

Você está preparada para ser criticada?
Estou mais do que preparada! A vida é uma só, já vi meu irmão esborrachar o carro no poste e morrer. Não vou ter outra vida, o jeito é ser feliz agora. Se neguinho vai me criticar, está no direito. Agora, eu estou feliz.

Foi ao ar uma cena em que acontece um acidente de carro sério durante um racha organizado pela sua personagem, a Vanusa. Você lembrou do seu irmão?
É, foi uma cena horrível... Meu irmão sofreu um acidente de carro, não era um racha. A gente teve que gravar durante duas horas num carro todo fodido, com o personagem do lado de fora todo ensangüentado, deitado. Lembro que nas fotos do acidente do Pedro o carro estava muito fodido. Minha personagem não podia se emocionar na cena, e eu com o choro aqui assim na garganta, sabe? Olhava e me lembrava do Pedro...

 


Você era muito ligada a ele?
Muito, muito. Ele era muito próximo de todo o mundo, uma referência muito grande na família. Um garoto muito bom, muito talentoso, muito bonito, muito grande. Muito tudo, sabe? Parece que foi feito para viver pouco...

Depois do acidente bateu a urgência de viver?
Caiu a ficha da emergência pela felicidade. Percebi que levava uma vida que não queria, e não era feliz. Percebi que a minha vida estava em jogo, que tinha que viver agora.

Mudaram as relações na sua família?
Todo o mundo tentou se aproximar mais.

De quem você é mais próxima, do seu pai ou da sua mãe?
Da minha mãe [Sandra Gadelha, ex-mulher de Gil, inspiradora da canção “Drão”]. Mas sou ainda mais próxima da Flora.

Por quê?
Porque ela não é minha mãe! [Risos] Minha mãe é mãe, e mãe é chata. A Flora me mima.

Sua mãe não sente ciúme dessa relação?
Acho que já sentiu mais. Mas ela entendeu, porque sou honesta com ela. Preciso da minha mãe para viver, moro com ela, ela cuida de mim, ela é fundamental. A Flora é uma pessoa como eu, que faz. Quando ela e meu pai foram assistir a meu show, a Flora olhou para mim e falou: “A gente agora entendeu que você é uma artista. Esse estúdio aqui é seu, essa casa aqui é sua, tudo o que é do seu pai é seu”. É muito louco, passei a vida correndo do meu pai, querendo provar para ele que eu podia...

Como seu pai ajudou, se é que ele ajudou, a encontrar seu rumo musical?
Meu pai me ajudou sendo muito rude, e ele tinha razão.

É difícil imaginar o Gil rude.
Ele é a pessoa mais rude do planeta Terra... É um cara sábio e percebia que eu estava fazendo coisas em que não acreditava. Por mais que não me desse força para ser cantora especificamente, sempre me cutucou para eu não me acomodar.


Como essa rudeza se manifestava?
Meu pai é terrível. De sentar na mesa para almoçar e falar na cara: [com sotaque baiano] “Você está gorda, tem que emagrecer, está tomando Coca-Cola demais. Que desequilíbrio é esse?”. Ele dá a real do que pensa. Por trás disso tudo é amor. Por trás não, pela frente disso tudo. Eu é que era burra e queria ficar causando problema. Ele é do jeito que é, a gente se quiser aceita ele, se não quiser não aceita. Eu aceito e aprendi a lidar.

Ele já ouviu seu disco?
Já.

E o que achou?
Adora tanto que chega a se emocionar e fica paralisado. Então, não toma ne­nhuma atitude. Mas eu o conheço.

E você, o que está achando do trabalho dele como ministro da Cultura?
Cara, tenho muito medo, desde o começo. Meu pai é um cara muito bom e o sistema político no Brasil é muito ruim. Será que a máquina deixa ele ser honesto a qualquer preço? Como ele não vai deixar de ser honesto nunca...

Pode se decepcionar.
Como já se decepcionou. Ele foi vereador e tinha como meta nunca mais se meter em política. Mas no dia 30 de dezembro [de 2002], ele falou com lágrimas nos olhos para os filhos todos, na mesa: “Vou aceitar [o convite para assumir o ministério] porque chegou a minha hora. Vocês agora se virem, porque chegou a minha vez de fazer alguma coisa pelo meu povo e pelo meu país”. E eu disse: “Pai, só o que você fez com a música já é demais. Você vai mudar de lado”. Olhei no olho dele, ele olhou pra mim e falou: “Você não mudou sua vida? Vou mudar a minha. Agora eu te entendo”.

Qual foi a reação do Gil quando você engravidou, aos 19 anos?
[Pensa] Meu, ele reage assim às coisas: “É? Então tá”. No dia seguinte, comprou apartamento para mim, na outra semana me deu um carro melhor, organizou as coisas para ficarem mais ou menos ok. Se achou que aquilo não era certo naquele momento, quando o Francisco nasceu, ele se apaixonou. O Francisco tem um carisma...

E qual foi sua reação quando descobriu que estava grávida?
Eu era muito nova e irresponsável. Não tinha noção do que aquilo significava. Pulava de felicidade, foi realmente a coisa mais importante na minha vida.

Você nunca pensou em aborto?
Nunca fiz aborto e nunca faria. Se engravidar, vou ter. E, de fato, fiquei grávida outra vez, mas perdi com cinco meses. Nasci para ser mãe. Filho estraga a vida de alguém? Só se você deixar.

Hoje seu filho mora com o pai, para que você se dedique à carreira. O contrário, o homem priorizar a carreira, é mais comum. Foi difícil tomar essa decisão?      
Tá vendo? Sou totalmente ao contrário! [Risos] É muito difícil e doloroso. Mas tento ver as coisas de uma outra maneira, senão fodeu. Criei o Francisco até os 8 anos. Ele tem um pai, caralho, e nada mais natural do que o filho morar com o pai. O Otávio foi se estabilizando, casou, é contratado da Globo. O Francisco respeita pra caralho minha decisão. Entende tudo: “Mãe, não vejo a hora de você ficar famosa e ganhar dinheiro para a gente morar junto”.

Como você resiste?
A saudade aperta, de vez em quando bate uma...

Culpa?
Não! Vou me culpar porque não posso morar com ele agora? Caralho, o cara tem o meu amor, meu carinho, meu afeto, o pai dele, que é o melhor pai do mundo, a família. Só bate saudade. Quero muito ser feliz para que ele possa ver que na vida a gente tem que ter coragem... É hora de plantar, sabe? Estou recomeçando. Vai dar certo.

 

Créditos

Coordenação de produção Renata Grynszpan; Estilo Lara Gerin e Patrícia Zuffa; Produção de moda Gustavo Garcez; Beleza Daniel de Matos (Gloss Agency) Agradecimentos Christhian Dior La Perla Les Filós Prima Donna Guerreiro Swarovsky Santa Gema Doc Dog Jogê

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