Finalmente o Brasil parou de fingir que a cannabis não existe
“Demorou 8 anos e 800 mil pacientes para que o país permitisse o cultivo da cannabis medicinal. Na cultura oriental, o 8 é associado à prosperidade. Será um sinal?”, escreve o cientista Fabricio Pamplona
Finalmente o Brasil parou de fingir que a cannabis não existe / Créditos: Ilustrações: Gemini IA / Google
Durante anos, o Brasil sustentou uma espécie de encenação regulatória em torno da cannabis. Não era exatamente proibição, porque aos poucos fomos evoluindo, mas também era algo tímido comparado a outros países. Parece que o país nunca soltava o freio de mão.
Um tal de “pode, mas não muito”, um “importa, mas não cultiva”, para se juntar ao famoso “fuma, mas não traga” que se popularizou na fala de um presidente americano. De exceção em exceção, o Estado seguia tratando tudo isso como se fosse transitório, provisório, quase um desvio tolerado. A cannabis medicinal existia no Brasil, mas não como uma política pública consistente.

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Pela primeira vez, a plantinha vai crescer em solo nacional sem medo da polícia
A decisão recente da Anvisa de regulamentar o cultivo e ampliar a produção industrial de cannabis medicinal rompe esse teatro e finalmente verticaliza esse mercado no nosso país. “Da semente ao paciente”, como se fala no jargão. Pela primeira vez, a plantinha vai crescer em solo nacional sem medo da polícia.
O que se aprovou é a admissão tardia de que um país que já prescreve, consome, pesquisa e importa cannabis não pode continuar fingindo que a planta não faz parte do seu sistema de saúde.
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Até agora, vivíamos um paradoxo difícil de justificar. Temos clima, solo, agrônomos, farmacêuticos, universidades e pacientes, mas importávamos extratos de cannabis como se estivéssemos falando de uma tecnologia alienígena. Isso significa pagar em dólar, depender de cadeia produtiva externa, aceitando variações de qualidade e à mercê dos custos, gerando empregos em outros países quando poderíamos plantar aqui. Fazendo um paralelo absurdo, era como tentar desenvolver a indústria do vinho importando uva. Que tal? A nova regulamentação não resolve tudo, mas quebra essa lógica colonial disfarçada de prudência regulatória.
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Depois de anos fingindo que não via o fenômeno que essa planta simboliza, o país finalmente aceitou o inevitável. Para o nosso Brasil conservador, isso já é um passo enorme
A atualização do marco regulatório que substitui a RDC 327 vai na mesma direção. A norma original cumpriu seu papel num momento em que o tema era tratado como arremedo jurídico. O que vemos agora é a tentativa de acabar com as exceções e trazer mais solidez pro uso medicinal. Nada disso é revolucionário a essa altura do campeonato, mas continua igualmente importante.
Depois de anos fingindo que não via o fenômeno que essa planta simboliza, o país finalmente parou, olhou para a realidade e aceitou o inevitável. Convenhamos que para o nosso Brasil conservador, isso já é um passo enorme.

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