Bruce Springsteen “mata o pai” e vai ao cinema
Filme sobre o cantor foca no período em que ele lidava com o sucesso e a depressão, a relação conflituosa com o pai e as maneiras como a música e a terapia o ajudaram durante uma crise de saúde mental
Jeremy Allen White interpreta o músico em 'Springsteen: Salve-me do desconhecido', que estreia dia 30 de outubro / Créditos: divulgação
Por Felipe Gil
em 30 de outubro de 2025
Você não precisa gostar de Bruce Springsteen ou saber muita coisa sobre ele para se interessar pelo filme “Springsteen: Salve-me do Desconhecido” que chega aos cinemas no próximo dia 30 de outubro. Isso porque a vida do cantor, um dos maiores astros da música norte-americana, com 140 milhões de discos vendidos no mundo, é o ponto de partida para temas como saúde mental, masculinidade, solidão, relações familiares e de amizade, processos criativos, a visão original de um artista e a maneira como os Estados Unidos produzem e lidam com tudo isso.
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O filme de Scott Cooper cobre o período entre 1981 e 1982, época da produção e lançamento de Nebraska, o sexto dos mais de 20 álbuns de estúdio de Springsteen, e é baseado no livro Deliver me from nowhere, do músico e escritor Warren Zanes. Jeremy Allen White, o Carmy de The Bear (O Urso), materializa a tensão e o olhar melancólico de um Springsteen de 30 e poucos anos. Um artista já bem-sucedido e reconhecido por hits como Born to run e pelas capas das então poderosas revistas semanais Time e Newsweek, mas ainda próximo o bastante de suas origens para perceber que o sucesso do tipo shows esgotados em estádios e sequências de músicas nas paradas de sucesso estava prestes a mudar definitivamente a maneira como ele vivia e, provavelmente, quem ele era.

Allen White foi desde o início o nome escolhido pela produção do filme, o que incluiu o próprio Bruce Springsteen. Ele não sabia cantar ou tocar violão. Suas credenciais eram os trabalhos anteriores – uma coleção de tipos mais ou menos atormentados habitando a fronteira entre potência e colapso que ele mesmo descreveu como “homens solitários”.
“Eu me interesso por essas histórias. A maioria dos filmes que realmente amo, no fundo, fala sobre pertencimento. E isso é algo muito humano – todos nós queremos pertencer a uma comunidade, a uma família, seja de sangue ou não. Essa jornada de um homem solitário em busca de consistência e comunidade é uma história que sempre vale a pena contar”, disse Allen White à Trip durante a turnê de divulgação do filme em New Jersey, estado natal de Springsteen.
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Gravado em casa, com um gravador simples, Nebraska destoava de tudo o que se esperava de um artista em ascensão. O músico à beira do estrelato e já conhecido pela presença de palco explosiva canta baixo e acústico sobre fracasso, pobreza, desespero e falta de sentido em meio às promessas do sonho americano. A faixa-título, por exemplo, é um olhar sobre o assassino do filme Badlands (Terra de ninguém), estreia do diretor Terrence Malick. O personagem, por sua vez, é inspirado em Charles Starkweather, que em 1958 deixou uma trilha de onze mortos nos estados de Nebraska e Wyoming e acabou na cadeira elétrica. Também ali há canções como My father’s house, sobre um filho afastado do pai e sua tentativa frustrada de reaproximação.
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A relação de Springsteen com o próprio pai é parte relevante da história. Interpretado por Stephen Graham, o pai da série Adolescência, Doug enfrenta questões de saúde mental sem diagnóstico e anestesia suas dores e traumas com o álcool. A criação do filho segue a receita masculina clássica dos anos 1950: para enfrentar a vida, a dureza deve esmagar a sensibilidade. É a resistência silenciosa e alegre da mãe, Adele (Gaby Hoffmann), que consegue manter a família funcional e permite que o filho abrace a música como caminho de sobrevivência.
A dificuldade masculina de se expressar para além do trabalho ou de outros tipos de performances é algo que Allen White conhece de perto. “Descobri a atuação muito jovem, mas na primeira vez em que subi ao palco senti uma onda de calma, foco e presença – algo que nunca tinha sentido. E acho que homens como Bruce Springsteen sentem o mesmo. Bruce chegou a dizer: ‘Não tenho problema nenhum em me apresentar por três horas e meia no palco; sei exatamente quem eu sou lá. É nas outras 21 horas do dia que tenho dificuldade.’”
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A estrela de The Bear é um homem que já “quebrou a internet” em fotos para uma campanha de cuecas da Calvin Klein e de tempos em tempos é visto comprando flores para a sua casa nas ruas de Nova York, onde nasceu e cresceu, mas rejeita a posição de um exemplo possível de masculinidade. “Não costumo pensar sobre mim dessa forma. Mas já pensei no Bruce nesse sentido, sim — como uma espécie de luz que guia a masculinidade, ou o tipo de homem que eu gostaria de ser: inteligente, sensível, cuidadoso, humilde e fiel aos seus princípios”, diz.
Faye Romano, personagem fictícia interpretada pela australiana Odessa Young, é a presença feminina mais intensa do filme. “Como eu sabia que a Faye não era uma pessoa real, não quis invadir [a intimidade de Springsteen ou de suas ex-namoradas] ou prendê-la a uma única história. Ela foi ganhando forma por si só”, contou à Trip, sobre a maneira como construiu a personagem. Mãe solo e trabalhando como garçonete, Faye inicia um relacionamento com o cantor, mas logo descobre que as prioridades dele eram outras. “Bruce foi muito generoso e não teve problema em dividir momentos em que não saiu bem na foto – dizia coisas como ‘eu estava mal naquela época, fui egoísta’. Foi bonito ouvir esse tipo de franqueza”, disse.

Estar “mal naquela época” é uma maneira suave de descrever alguém que se aproximava de uma série crise depressiva. Aqui entra o amigo e empresário Jon Landau (Jeremy Strong), que compreende e defende o disco junto a todos os envolvidos, desde executivos até engenheiros de som que precisam transformar uma fita demo gravada em casa no álbum que Springsteen precisava lançar naquele momento. É ele também quem reconhece os próprios limites e recomenda que o amigo busque ajuda psicológica profissional numa época em que fazer terapia era motivo de vergonha, ainda mais entre homens ensinados a projetar força inabalável.

Poder finalmente ceder e deixar a emoção sair entrega um dos melhores momentos da atuação de Allen White. “Aquela cena era sobre libertação. Eu queria que o Bruce, e eu também, nos sentíssemos mais leves depois dela. Eu já fiz terapia. Acho que é algo maravilhoso”, pontua.
Além das questões pessoais, o contexto mais amplo também contribuia para os questionamentos que Springsteen se fazia. No momento em que gravava Nebraska em seu quarto em New Jersey, os Estados Unidos eram governados por Ronald Reagan, o ex-ator republicano que, eleito presidente, combatia a realidade da recessão, do desemprego e da desesperança, nas palavras do autor Warren Zanes, com “cores saturadas” e o slogan “Let’s Make America Great Again”. Sim, você já ouviu isso antes (ou depois).
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O filme pode ser ambientado no começo dos anos 1980, mas diz muito sobre o presente. E isso vale também para o disco. “Quando ouço Nebraska, ouço muitas coisas, incluindo muita raiva e muita confusão. E acho que esse disco continua atual. Como nação, estamos com raiva – independentemente do lado – e também confusos, de ambos os lados, sobre como seguir em frente e encontrar algum tipo de unidade”, reflete Allen White.
Diferente de Springsteen – que ao longo da carreira criticou o uso deturpado de seu hit Born in the USA como hino patriótico acrítico, se envolveu em questões sociais e em maio deste ano disse que seu país está “nas mãos de uma administração corrupta, incompetente e traidora” –, o filme passa longe da política institucional e acertadamente não tenta apontar possíveis saídas nessa busca por unidade. Mas não deixa de ser um bom lembrete, numa época em que a sociedade se depara com formas grotescas de lidar com os problemas de seu tempo, que os sentimentos e a expressão de um artista e as relações que ele e sua obra estabelecem com amigos, parceiros ou admiradores são um exemplo daquilo que nos faz humanos.

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