Elas pagam a conta: por que a autonomia financeira é ferramenta indispensável para o destino de qualquer mulher?
O que um estudo com 400 entrevistadas revela sobre o "PIX invisível", as dívidas de supermercado, o peso da economia do cuidado e a mais fundamental de todas as autonomias, a gerada pelo dinheiro
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Há uma pergunta que mulheres quase nunca fazem em voz alta, porque aprendemos cedo que ela não faz parte das inquietações que podemos ter: quanto do que eu ganho é, de fato, meu?
Isso no sentido de decisão, de destino, de dizer para onde aquele dinheiro vai sem precisar sentir culpa ou priorizar o mundo todo antes da gente. Essa pergunta — rara, silenciosa, atravessada por séculos de história — é uma boa forma de entrar no estudo Elas Pagam a Conta, realizado pela ONG Think Olga e pela consultoria Think Eva. O projeto nasceu para mapear os principais desafios em torno do dinheiro que as brasileiras ganham, gastam e investem. Uma fotografia ampla da relação delas com a economia e dos caminhos possíveis para ampliar sua autonomia. Mas a resposta encontrada é menos sobre planilhas do que sobre as solidificadas estruturas de poder em que ainda vivemos.
O trabalho partiu da imersão em mais de cem pesquisas acadêmicas, dados de fontes como IBGE, Serasa e Ministério do Trabalho, e da escuta de especialistas, entre elas a juíza do Trabalho Bárbara Ferrito, a especialista em psicologia econômica Vera Rita de Mello Ferreira e a educadora financeira Dirlene Silva. O material mais significativo veio da escuta de 400 mulheres: é nelas que mora a inteligência mais sensível do estudo.
“São as mulheres da vida real, lidando com essa realidade, que muitas vezes não têm a dimensão da importância do que estão dividindo. Quando a gente dá um nome, um rosto, uma história por trás daquele dado, a gente consegue compreendê-lo com mais profundidade”, diz Maíra Liguori, coordenadora com Nana Lima do estudo, que conta com pesquisa de Laura Ming.
É um deslocamento sutil e decisivo. Tira a conversa sobre dinheiro do silêncio e a leva para as mulheres, suas rotinas, escolhas de todo tamanho, e renúncias invisíveis (que nos atravessam muito mais do que imaginamos).
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Um afastamento calculado
O que mais surpreendeu Maíra no levantamento foi a constatação do quanto estamos distantes do dinheiro como ferramenta. “Historicamente, fomos afastadas desse recurso tão vital de maneira intencional e deliberada.”
Não é força de expressão. Há 200 anos, brasileiras eram proibidas de estudar; quando finalmente puderam frequentar a escola, em 1827, aprender matemática lhes era vedado. No Código Civil de 1916, a mulher casada era qualificada como “incapaz”, ao lado de menores de idade. Até 1962, precisava de autorização do marido para trabalhar. E só em 1974 uma lei proibiu que bancos exigissem um avalista homem — pai ou irmão — para conceder crédito a mulheres solteiras ou divorciadas.
Ou seja: a relação pouco íntima das mulheres com o dinheiro não é um traço de personalidade ou um desinteresse natural com finanças. É, como define o próprio estudo, “o resultado de um processo contínuo e deliberado de exclusão econômica”. E esse afastamento se mantém vivo por meio de crenças que parecem banais, mas operam profundamente: a de que dinheiro é um assunto “chato” para mulheres, que falar de finanças com a pessoa que se relaciona romanticamente “estraga” a relação, que é mais fácil conversar sobre sexo do que sobre dinheiro entre amigas. Alijadas de uma das conversas mais centrais da vida, as mulheres acabam levadas a assumir “uma postura infantilizada em relação às próprias finanças”.
Uma dinâmica que começa cedo e se disfarça de escolha. “Se você cresce ouvindo ‘isso não é para você’, que investimento é coisa de homem, que é melhor deixar para o marido, muitas acabam deixando mesmo”, observa a educadora financeira Dirlene Silva. “E, quando não tem marido, deixam para um terceiro — o assessor de investimentos, o gerente do banco. Sempre existe essa figura intermediária.”
E embora a sociedade venha se abrindo para mais equidade, e leis como essas já tenham ficado para trás, a herança patriarcal não se dissolve na mesma velocidade. “Ao mesmo tempo em que espaços foram sendo conquistados, e o acesso aos recursos foi sendo conquistado, ele ainda não é oferecido de maneira igualitária entre homens e mulheres”, completa Maíra. “E a gente sente os efeitos disso na nossa própria autonomia.”
“Não existe nenhuma autonomia se a gente não começar pela autonomia financeira.” Maíra Liguori
As mulheres ainda recebem, em média, 21% a menos que os homens no Brasil. Trabalham mais — 58,1 horas por semana, somando trabalho remunerado e não remunerado, contra 50,3 horas deles — e estão menos presentes no mercado formal: apenas 49,1% delas estão ativas, contra 68,8% dos homens. Não por falta de vontade, mas porque o tempo que sobra é engolido pelo trabalho de cuidado, aquele que ninguém remunera e quase ninguém enxerga.
“… a ferramenta concreta que separa o sobreviver do viver”
“Não existe nenhuma autonomia se a gente não começar pela autonomia financeira”, aponta Maíra. É uma afirmação que reorganiza a hierarquia das conquistas femininas. A autonomia afetiva (poder sair de um relacionamento que adoece), a autonomia emocional, a liberdade de projetar um futuro: todas dependem, em alguma medida, de uma base financeira e material. Sem dinheiro próprio, a saída de uma relação abusiva deixa de ser uma decisão e vira um cálculo de sobrevivência.
“Muitas mulheres permanecem em relacionamentos abusivos porque não têm renda própria e não sabem como conseguiriam cuidar de si mesmas e dos filhos sem nenhuma fonte de sustento.” Vera Rita de Mello Ferreira
O estudo é direto sobre isso. A doutora em psicologia social Vera Rita de Mello Ferreira, especialista em psicologia econômica e uma das ouvidas pelo estudo, resume o que está em jogo: “Muitas mulheres permanecem nesses relacionamentos porque não têm renda própria e não sabem como conseguiriam cuidar de si mesmas e dos filhos sem nenhuma fonte de sustento.” A autonomia financeira, nesse desenho, não é luxo nem ambição, mas a ferramenta concreta que separa o sobreviver do viver.
Um dos achados que mais impressionaram a equipe foi justamente a transversalidade dessa necessidade: independentemente de classe social, idade ou região, a busca por autonomia financeira aparece em todas as mulheres, em maior ou menor grau. Muda a urgência, mudam os recursos, mas a questão de fundo é a mesma. A mulher que faz o salário render até o fim do mês na periferia e a executiva que esconde do marido o quanto ganha para não gerar atrito vivem versões diferentes do mesmo enredo.
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O dinheiro do homem é dele. O da mulher é da família
“O dinheiro do homem é dele. O da mulher é da família.” A frase aparece para explicar um fenômeno que o levantamento batizou de “PIX invisível”: os pequenos gastos cotidianos que recaem, quase sempre, sobre as mulheres.
“O gasto invisível é aquele que não entra na planilha”, explica Carolina Cavenaghi, fundadora e CEO da Fin4She, plataforma de educação financeira e inclusão de mulheres no mercado financeiro. “A gente divide as contas maiores — escola, aluguel, IPTU, plano de saúde —, mas existe um conjunto de gastos muito ligado ao custo familiar que simplesmente não é contabilizado.” O presente para o aniversário da festa, o remédio comprado para os pais idosos, a mistura que faltou no jantar. Some tudo, ao longo dos meses, e o impacto na capacidade de poupar é enorme.
Daí nasce um dos pontos mais importantes do estudo: ele põe abaixo o mito de que mulher gasta mal. O imaginário popular insiste na figura da consumista descontrolada, julgada quando compra uma bolsa nova enquanto o homem é celebrado por gastar meio salário numa camiseta de time.
Mas os dados contam outra história. Entre os inadimplentes brasileiros, a diferença entre mulheres e homens é de apenas 1,2 ponto percentual. E as dívidas delas estão concentradas em supermercado e remédio. O estudo fecha a discussão com uma frase certeira: a culpa não é das blusinhas.
São as mulheres que administram o orçamento da casa, equilibram gastos, decidem qual boleto pagar primeiro e fazem o dinheiro durar. “Isso é gestão financeira”, afirma Daniela Carvalho, educadora financeira e criadora do método Dinheiro é Meio. Um conhecimento concreto, sofisticado, exercido diariamente — e que raramente é reconhecido como legítimo, nem pelas instituições, nem pelas próprias mulheres.
Falar de dinheiro como ato político
No fim, Elas Pagam a Conta faz algo que vai além de diagnosticar e nos convida a uma mudança de relação. Porque a culpa de gastar consigo, o medo de negociar o próprio salário, o hábito de guardar dinheiro escondido “no sutiã, debaixo do colchão” — como descreve a planejadora financeira Vívian Rodrigues — são sintomas de uma mesma ferida histórica.
A virada começa em algo aparentemente simples e, na prática, ainda revolucionário: falar sobre dinheiro sem vergonha. Entre amigas, com o par romântico, no trabalho, na própria cabeça. Reconhecer que prosperar também pode ser um projeto feminino. Que ambição, vinda de uma mulher, não é um problema.
“Que bom poder falar sobre grana”, escreveu uma das mulheres ouvidas pelo estudo. “Gostamos de dinheiro e não é errado falarmos isso abertamente; muito pelo contrário”, completou.
É um começo de conversa. E, como mostram as 400 vozes que sustentam este estudo, já passou da hora de tê-la em voz alta.
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