DESPIDA: quando tiraram minha roupa sem consentimento em imagens geradas por inteligência artificial
Vítima de deepfakes pornográficos, a quadrinista e jornalista Helô D’Angelo revela o despreparo das autoridades para lidar com esse crime e alerta para os riscos da tecnologia sem regulação
Créditos: Maria Ribeiro
Por Helô D'Angelo
em 5 de fevereiro de 2026
Aconteceu do nada. Em um momento, eu estava acordando na minha cama, tranquila, pensando nos afazeres do dia. No outro, eu estava em uma crise de ansiedade terrível, tomada por raiva e frustração, afogada por notificações de pessoas desconhecidas.
O motivo: um perfil anônimo na internet havia roubado fotos minhas — vestida, em situações absolutamente comuns —, usado inteligência artificial para criar imagens pornográficas realistas e publicado esse material na rede social X (antigo Twitter). O pior: eu sequer tinha acesso à plataforma para denunciar.


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Em 2024, o X foi suspenso no Brasil por decisão do STF, devido à ausência de representação legal da empresa no país, o que dificulta sua responsabilização por danos causados a usuários brasileiros. Como as redes sociais são parte importante da divulgação do meu trabalho, eu já havia me preparado para ficar sem acesso à plataforma por um tempo: avisei meus seguidores, foquei em outras redes, criei uma newsletter e segui tranquila, achando que seria apenas uma fase passageira.
Um usuário do X usou fotos minhas para alimentar uma IA que “removeu” minhas roupas e ironizou: ‘Vai abrir um OnlyFans? Vai ficar rica!’
O que eu não considerei foi uma falha grave de segurança: minha conta permaneceu aberta, com acesso livre a qualquer pessoa. Quando o X passou a ser acessado majoritariamente via VPN, a plataforma se transformou, na prática, em uma terra sem lei, tomada por conteúdos de ódio, misoginia, racismo, nazismo, pedofilia e ataques coordenados a perfis de esquerda, como o meu.
Foi nesse contexto que um desses usuários acessou fotos antigas minhas; fotos banais, em viagens, eventos de trabalho, até uma participação no programa Roda Viva. Esta pessoa as usou para alimentar uma IA que “removeu” minhas roupas. O resultado foram imagens falsas em que apareço nua em situações absurdas, além de nudes falsas, mas extremamente convincentes. O usuário ainda ironizava: “Vai abrir um OnlyFans? Vai ficar rica!”.
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Só soube do ocorrido porque uma seguidora que mora fora do Brasil me enviou prints. Eu não conseguia sequer acessar o link para denunciar. Chorando de raiva, recorri a amigos fora do país para tentar denunciar o conteúdo, o que foi extremamente difícil, pois não há um caminho direto para denunciar conteúdos deste tipo na plataforma. E, mesmo após conseguirmos fazer as denúncias, a plataforma respondeu que os posts não violavam suas regras.
Fui de uma delegacia a outra e encontrei apenas despreparo: ninguém sabia o que eram deepfakes. Mas meu caso não era exceção, era um dos primeiros
Procurei então as autoridades. Fui de uma delegacia a outra, começando pela delegacia da mulher, passando pela delegacia de crimes cibernéticos até a delegacia “comum”, e encontrei apenas despreparo: ninguém sabia o que eram deepfakes, confundiram o termo com deepweb, depois acharam que eram fotos reais e perguntaram se eu as havia enviado a alguém que poderia tê-las vazado. O despreparo foi assustador. Eu sabia que meu caso não era exceção: era apenas um dos primeiros.
Consegui registrar um boletim de ocorrência na delegacia de pedofilia da Polícia Civil, a única minimamente familiarizada com essa tecnologia. Ainda assim, fui informada de que dificilmente o caso seria investigado, devido ao volume de ocorrências. Sugeriram que eu procurasse a imprensa, mas recusei: as imagens ainda estavam no ar e poderiam ser usadas por qualquer pessoa, para qualquer fim.
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Dias depois, decidi processar a plataforma X. Com o apoio do meu advogado, Douglas Freitas, entrei com uma ação exigindo a retirada imediata das imagens, a identificação do usuário responsável e a responsabilização da empresa. As imagens permaneceram no ar por meses, mesmo após o início do processo. Ainda assim, vencemos em primeira instância: o X foi condenado a pagar cerca de 60 mil reais de indenização.
A tecnologia deveria amplificar nossas vozes, não nos humilhar ou nos calar. Que sejam os agressores, e não as vítimas, a sentir medo das consequências
A plataforma recorreu. O próximo julgamento deve ocorrer em fevereiro de 2026. Seguiremos firmes, porque esse tipo de violência precisa ter consequências tanto para os agressores quanto para as plataformas que a permitem.
É importante dizer que tudo isso começou antes da estreia do Grok, a IA do próprio X, que hoje cria e edita imagens quase instantaneamente. O acesso irrestrito a esse tipo de tecnologia tem gerado uma explosão de imagens pornográficas falsas não consentidas, além de outras violências, como pedofilia, muitas vezes consideradas “não infratoras” pela plataforma.
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O Grok e o que eu passei são só exemplos de por que a regulamentação dessas tecnologias é urgente. Trata-se de proteger reputações, evitar crimes, impedir o silenciamento político e frear violências que atingem, sobretudo, mulheres que se posicionam publicamente contra o conservadorismo e a extrema direita.
A tecnologia deveria amplificar nossas vozes, não nos humilhar, ameaçar ou nos calar. Espero que o que vivi ajude a criar precedentes legais para que outras vítimas não passem pelo mesmo. Que sejam os agressores, e não nós, as vítimas, a sentir medo das consequências.
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