por Bruna Bopp
Tpm #129

O ator prefere ver a vida passar no Vidigal “Gosto de ficar descalço, sem camisa, comendo churrasco na porta de casa”

Marcello Melo Jr., ator formado no Nós do Morro, prefere ver a vida passar no Vidigal, “sem camisa, comendo churrasco na porta de casa”

Marcello Melo Jr. ainda não se acostumou a morar em apartamento. Sente falta do quintal da antiga casa e das conversas com os vizinhos, mesmo estando a poucos metros de onde vivia, na favela do Vidigal, no Rio de Janeiro. “Outro dia entrou uma moça comigo [no prédio], e eu nem sabia que ela era minha vizinha de frente. Não acho isso normal”, confessa.

Ali na comunidade, onde mora desde menino, não há quem não o cumprimente como Marcellinho, apelido que ganhou por causa do pai, também Marcello. Foi para lá que a família se mudou 18 anos atrás, vinda de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Dois anos depois, seus pais se separaram e a mãe e o caçula dos irmãos voltaram para a cidade de origem. Na época com 9 anos, Marcello preferiu ficar. “Sempre fui muito parecido com o meu pai. Ele fazia faculdade de fotografia e ainda trabalhava como ator. Cresci num universo de estudo e correria. Isso foi me preparando para a vida”, conta.

Foi o pai, então, que o levou para o Nós do Morro (grupo idealizado pelo diretor Guti Fraga que forma atores e outros profissionais no Vidigal). “Desde o dia que conheci ele, com 7 anos, vi que era um menino com foco e motivação. O resultado que se vê hoje é fruto de muita responsabilidade e entrega”, descreve Guti.

"Gosto de ficar descalço, sem camisa, comendo churrasco na porta de casa. E no Vidigal é onde mais consigo ser dessa maneira"

Futebol e lambaeróbica

A entrevista acontece no terraço do casarão do Nós do Morro, e Marcello fala de cada trabalho com orgulho, mas sem deslumbre. Encena as histórias que conta imitando vozes e gesticulando. Aos 25 anos, ele lembra que foi ali que aprendeu os primeiros movimentos de capoeira: “Sinto que tudo que fiz até hoje, por mais que não tivesse um objetivo na época, me ajuda na profissão.”

Ele se refere às aulas de circo, de vôlei, de futebol e até de lambaeróbica, que praticou ao longo dos anos. Foi também por causa dessas atividades que ganhou um corpo definido e bom preparo físico. “Mas não cuido do corpo por vaidade, é porque gosto de fazer esporte mesmo.” O que o incomoda é a sua altura. “Com 1,87 metro fica difícil achar par romântico. Se a atriz é muito baixinha, tenho que atuar com as pernas abertas, para diminuir de tamanho”, conta, rindo.

E é quando sorri que Marcello te ganha. É um sorriso largo, impossível de passar despercebido. João Ximenes Braga, autor de Lado a lado, concorda. “Sugeri o Marcello a partir de um único close em que estava sorrindo. Ele nem falava em cena. Pensei: ‘Esse aí ilumina a tela, nem precisa ser bom ator’. E, como era, aí formou”, conta. E decreta: “É o homem mais bonito da televisão brasileira no momento”.

De cabelo molhado, camiseta regata azul royal do mesmo tom da bermuda e Havaianas brancas, o ator se vê distante da figura de galã. “Gosto de ficar descalço, sem camisa, comendo churrasco na porta de casa. E aqui no Vidigal é onde mais consigo ser dessa maneira”, revela.

É por causa dessa liberdade que nunca pensou em sair de lá. Para ele, até as mulheres são mais livres no morro. “Elas têm muito mais autonomia de botar um short curto do que uma pessoa lá de baixo, que acha que alguém vai comentar. Para elas, não existe essa preocupação. Aliás, se falarem, melhor ainda”, brinca.

Namorando a distância há um ano, Marcello não dorme sem falar com a jornalista Caroline, que mora em Porto Alegre. Quando ela passa um tempo no Rio, Marcello faz questão de preparar surpresas. A última foi um café da manhã na cama. “Cortei maçã em formato de coração, fiz suco e um bilhetinho. A mesa era improvisada: um varal de ferro, desses de estender roupa dentro de casa, com uma toalha em cima. Mas ela adorou”, jura.

"Elas [as mulheres do morro] têm muito mais autonomia de botar um short curto"

“Nunca gostei de ser solteiro”

Os dois se conheceram durante uma viagem da gaúcha pelo Rio. Por causa de amigos em comum, Marcello conseguiu o contato dela e marcou um encontro. Daquele dia em diante, passaram a se falar com frequência e logo engataram o namoro. Recémsaído de um relacionamento de seis anos, ele conta que, nesse meio-tempo, quando perguntavam a ele se estava comprometido, mentia. “Nunca gostei de ser solteiro, então falava que estava com uma ‘menina bem legal há seis meses’ [risos]. Melhor agora, que não preciso inventar mil coisas”, entrega.

Segundo o pai, o filho sempre foi assim. “Durante a infância, a palavra ‘amor’ não era corriqueira. A criação deles foi mais dura, talvez por serem três homens dentro de casa [na adolescência, o irmão caçula, Marvio, voltou a morar com o pai]. Mas o Marcello sempre foi sensível. E continua sendo”, solta.

O cineasta Bruno Barreto, que dirigiu o ator no longa Última parada 174 – primeiro trabalho para o grande público –, faz coro. “Por trás desse homem forte, alto e bonito, existe uma pessoa extremamente sensível, que conhece muito bem seu lado emocional”, revela. Na filmagem da cena em que seu personagem esfaqueava um homem, Marcello teve um ataque de choro. “Tivemos que parar por uma meia hora, para que ele conseguisse separar a realidade da ficção”, lembra Bruno.

Entre o filme de Barreto e a estreia na Globo, na novela Viver a vida, em 2009, se passou mais de um ano. O pai conta que foi uma época difícil, mas que o filho sempre manteve o bom humor. “Quando precisavam de alguém para entregar folhetos divulgando as peças do Nós [do Morro], ele ia, amarradão. O que para qualquer um podia parecer demérito – entregar panfleto no shopping depois de um filme que quase foi para o Oscar –, para o Marcello era tranquilo”, lembra.

Nesse tempo, seguiu com as aulas, fez uns grafites pelo Vidigal – muitos ainda por ali – e começou a compor músicas. Hoje, algumas de suas letras fazem parte do repertório do grupo Melanina Carioca, que mistura suingue, hip-hop e samba. O grupo é formado por ele e seus amigos do Nós do Morro, como os atores Roberta Rodrigues, Jonathan Haagensen e Micael Borges.

Com a banda se apresentando pelo país, uma peça de sua autoria para sair do papel e em sua quarta novela global, Marcello faz questão de lembrar de um verso do rapper Sabotage que serve como ditado, que ele chegou a tatuar no braço esquerdo: “‘Vai na fé e não na sorte.’ E eu fui”.

Assistente de foto Manuela Galindo Produção Ana Luiza Toscano Agradecimento Oztel www.oztel.com.br / www.facebook.com/oztelrio

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