por Sonia Guajajara

Em artigo exclusivo, líder indígena Sonia Guajajara expõe o seu ponto de vista em meio a uma discussão sobre a ocupação da Amazônia

O Movimento indígena e a Mobilização Nacional Indígena, articulados com as campanhas 342 Amazônia e Todos pela Amazônia, mostraram força na defesa dos direitos dos povos originários brasileiros. Pressionado, o governo Temer não teve outra saída a não ser revogar o Decreto 1.942, que extinguia a Reserva Nacional do Cobre e seus Associados (Renca). O ato, mais uma investida genocida do governo e de seus aliados das bancadas ruralista e evangélica, entre várias ilegalidades, também feria o direito constitucional à consulta prévia. Como diria o Barão de Itararé, de onde menos se espera é de onde não vem nada mesmo.

Aviltar e desrespeitar direitos é a marca registrada do grupo que usurpou o poder em nosso País. A reforma trabalhista, a reforma da previdência social, a entrega de terras para estrangeiros, a redução dos limites das unidades de conservação, a flexibilização da legislação ambiental, o enfraquecimento e o sucateamento da Funai, do Ibama e do Incra, a criminalização de organizações da sociedade civil que nos apoiam na defesa de nossos direitos, a criminalização de lideranças indígenas, a privatização de empresas públicas, o avanço e o financiamento do agronegócio que ilegalmente invade os territórios dos quilombolas, dos ciganos, das quebradeiras de coco babaçu, assim como os territórios de muitas outras comunidades tradicionais. O mesmo agronegócio que, indiscriminadamente, avança sobre a biodiversidade brasileira no Cerrado, na Caatinga, no Pantanal, nos Pampas, na Amazônia: tudo isso é parte do pagamento da dívida para consolidar o golpe instalado no Brasil.

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Há mais de 180 medidas anti-indígenas tramitando no Congresso Nacional, afrontando a Constituição Federal e promovendo o retrocesso de direitos conquistados pelos povos indígenas. E o que querem aqueles que as defendem? Minerar as nossas terras e reservas indígenas, arrendar, diminuir limites, inviabilizar as demarcações de terra, criminalizar lideranças. Querem nos negar, nos colonizar novamente. Eles não passarão. Afirmo e reafirmo: juntos somos muitos mais. 

O pagamento da conta das alianças políticas e econômicas que sustentam um governo corrompido tem saído muito caro para cada cidadão e cidadã brasileira, para cada uma e cada um de nós que, de sol a sol, derramamos nosso suor. E para quê? Para dar cabimento a um Congresso Nacional moralmente falido, completamente corroído, insensível às minorias? Enquanto tantos se fartam com recursos dos cofres públicos, desviados dos investimentos em educação, saúde e de tantos outros direitos, a justiça se mostra inoperante.

Precisamos reconstruir a democracia plena nesse lindo país. Que o Brasil seja plural, laico, mega-biodiverso! Que aqui não caiba mais o racismo: contra negros, contra os povos indígenas, contra os gays. Que racistas e homofóbicos não tenham mais assento parlamentar. Que nosso voto, nosso precioso voto, seja o instrumento de construção de uma sociedade mais livre, justa e solidária.

Nós não vamos apenas sobreviver, vamos mostrar a todos os demais brasileiros que estão sendo lesados pelo descumprimento da Constituição Federal que essa Luta não é de um só, que essa luta não é de um movimento só: essa luta é de todos e por todos nós. 

Nossa força vem da nossa determinação de lutar contra as injustiças. Já havíamos mostrado isso em abril, quando mais de 4.000 lideranças indígenas se reuniram no Acampamento Terra Livre em Brasília para denunciar a mais grave ofensiva aos direitos dos povos indígenas desde a Constituição Federal de 1988, orquestrada pelos três poderes da república em conluio com as oligarquias econômicas nacionais e internacionais.

Continuamos denunciando abusos, a exemplo da tese do marco temporal, um argumento racista para justificar massacres e expropriar territórios ancestrais de indígenas e quilombolas. Querem acabar com a nossa cultura, querem acabar com a nossa língua, querem acabar com o modo de ser indígena. Mas nosso povo resiste há mais de 500 anos. Estamos na luta e não vamos desistir.

Nossa força é muito maior. Nossa vontade não se dobra diante das ameaças e dos ataques sucessivos. Pelo contrário, a cada agressão ficamos mais fortes. Juntos podemos avançar ainda mais em defesa de nossos direitos. Juntos, articulados e agindo estrategicamente, seremos capazes de reverter o contexto atual. Juntos, mobilizados e articulados. Juntos, nossa força é muito maior!

* Sonia Guajajara. Acadêmica graduada em Letras e pós-graduada em Educação Especial pela Universidade Estadual do Maranhão, traduz o espírito de resistência dos índios Guajajara/Tentehar e é hoje uma das lideranças mais expressivas do movimento indígena brasileiro.


As fotos que ilustram este artigo são de Claudia Andujar. A fotógrafa, artista visual e ativista cresceu na Suíça e na Hungria e chegou ao Brasil em 1955. Viajou o país como freelancer, publicando imagens nas revistas Life, Look e Realidade. Na Amazônia, conheceu os Yanomami e trocou o jornalismo pela luta indígena. Ajudou a fundar, em 1978, a Comissão pela Criação do Parque Yanomami, terra que foi demarcada 13 anos depois. Leia a entrevista que fizemos com Claudia para as Páginas Negras da edição 263 da Trip.

Créditos

Imagem principal: Claudia Andujar - da série Marcados, 1981/1983 (cortesia Galeria Vermelho)

Claudia Andujar (cortesia Galeria Vermelho)

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