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Ailton Krenak: O fim de um mundo desastrado

por Nathalia Cariatti

Para o líder indígena, a pandemia do coronavírus escancara um problema que estava latente: ”Considerar que uma tragédia como essa nos anuncia alguma novidade revela o quanto já estávamos perdidos”

A ação silenciosa do coronavírus colocou boa parte do mundo em suspensão, interrompendo temporariamente atividades que nos aproximavam pouco a pouco de um tão anunciado colapso do planeta. Desde a década de 80 lutando em defesa do meio ambiente, a voz de Ailton Krenak se soma a de ativistas e cientistas que têm há anos alertado sobre as consequências da ação humana no esgotamento do planeta. Para o ambientalista, a pandemia evidencia como os humanos não têm tanto controle do planeta como acreditam e podem ter sua existência ameaçada: "O mundo estava se desmanchando, mas muitos seguiam tocando a vida como se não fosse com a gente".

Ailton está em isolamento na aldeia Krenak, junto de outras 130 famílias. No território do médio rio Doce, o povo Krenak teve sua vida transformada há 4 anos, quando o rompimento da barragem do Fundão, em Mariana, contaminou o curso do rio que servia como sua principal fonte de água. "A Covid-19 é mais uma restrição à nossa autonomia", diz. Através de uma videochamada, Ailton conversou com a Trip sobre a necessidade de repensarmos o nosso modo de vida a partir da pandemia e o possível fim do mundo que nós conhecemos.

Trip. Parece que, embora vivendo normalmente, a nossa sociedade reconhece e se preocupa com o caminho que estamos seguindo e nosso futuro no planeta. Já estamos vivendo o fim do mundo?

Ailton Krenak. Não é um sentimento que pode ser observado, desses que nós fomos bombardeados, com tsunamis e de invasões de ETs, aquela coisa de Hollywood. Parece que a ideia de fim de mundo evoca um evento muito trágico, e ninguém percebia que o mundo está na verdade se desmanchando. A mudança climática parece um assunto de cientista, mas na verdade ela nos afeta, pois toca a nossa pele, o nosso corpo, o ar que a gente respira e os nossos poros. E mesmo afetados dessa forma, muitos seguiam tocando a vida como se isso não fosse com a gente: "É um mundo paralelo que está indo para o brejo, mas nós vamos passar". Um autoconvencimento de que nós, os humanos, estamos aqui para dominar, e mesmo que não sejamos todos vitoriosos, que metade morra, sempre vai ter alguém que acha que vai ficar vivo. Uma ideia relacionada ao mérito, de que alguns humanos são mais elegíveis do que os outros. 

A pandemia de Covid-19 nos aproxima desse fim? A Terra está mostrando para nós que não somos autossuficientes. Assim como todos os outros organismos que compartilham a vida conosco no planeta, nós somos parte. E, no caso dos humanos, nós somos uma parte muito barulhenta. As pessoas olham aquela lista crescente das espécies em extinção desde os anos 60 e não se tocam que em algum momento nós podemos aparecer ali. Acho que agora as pessoas estão prestando atenção na foto e realizando: "Epa! Aquela espécie que está agora em risco parece comigo".

Você acha que as outras espécies do planeta estão melhores agora que os humanos foram forçados a parar para se preservar? Visivelmente melhores. Nós chegamos ao ponto de ameaçar os ursos, as baleias. Ameaçamos os organismos invisíveis e os grandes organismos que compartilham a vida com a gente aqui na Terra, como se não devêssemos nada a nenhum outro ser e pudéssemos marchar sobre eles impavidamente. Essa parada está fazendo mesmo os céticos, mesmo as pessoas que se achavam super-humanos, baixarem a bola um pouquinho, olharem em volta de si, e pensarem: "Peraí, eu posso sofrer o contágio". Por mais que você tenha grana, e que você possa ter uma unidade particular de socorro, você sabe que está correndo perigo. 

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Muitas pessoas aguardam ansiosas o fim da pandemia para retomarem suas atividades, voltar à "vida normal". Será possível voltar para o que entendemos como normalidade? Mesmo quando tudo aparentemente tiver voltado, vai ter quem perceba que não é econômico pegar quilômetros de engarrafamento para chegar ao escritório, e fazer ali o que você podia fazer de outro lugar mais agradável, sem sofrer e causar tanto dano. Nós continuamos fazendo muita coisa que não precisamos e não questionamos que esse modo de viver já está ultrapassado. A gente podia fazer o mesmo com mais economia de tempo, de energia e aproveitando mais a vida. Se uma parte de nós reconhecer isso, que seja um terço do planeta, já seria um passo no caminho do que aqueles adolescentes lá na Europa estavam estavam pedindo quando não iam mais à aula na sexta-feira [em 2018, adolescentes na Suécia, entre eles a ativista Gretha Thunberg, fizeram uma greve pelo clima que teve atenção global] e queriam mobilizar uma opinião pública sobre o erro que é continuar fazendo o que a gente já viu que é errado. Que está aquecendo o planeta e botando em risco muitas outras vidas além dessas preciosas vidas humanas. A vida de todos os outros organismos parece que não vale nada, mas uma alga não existe sem o ambiente dela. E nós não existimos sem uma alga. Quando a alga não puder mais existir, nós também vamos começar a nossa trilha para lugar nenhum. 

Que mundo você imagina após a pandemia? É uma situação extrema a gente considerar que uma tragédia como essa, que está matando milhares de pessoas, nos anuncia alguma novidade. Mas isso revela o quanto a gente já estava perdido. Se tivéssemos governança global poderíamos imaginar que, depois dessa grave colisão, os sobreviventes mudariam sua perspectiva com relação à própria vida e buscariam outras maneiras de estar no planeta. A minha dúvida é se tem gente com capacidade e coragem para promover essa retomada em outros termos. Tem muita gente que está só esperando a pandemia passar para que tudo volte a ser da mesma maneira. Com as desigualdades, ignorando totalmente o dano socioambiental global. Aquela crise climática vai continuar sendo negada. 

Estamos negando há muito tempo essa crise?Recentemente, se tornou uma leitura quase obrigatória para mim o livro Terra inabitável, do David Wallace-Wells. Eu tive a oportunidade de conhecer esse jornalista, que se dedicou a esmiuçar relatórios e informes desde o final do século XIX, da Revolução Industrial, até agora, mostrando como avançamos no mesmo sentido predatório do planeta sem nenhuma pausa. E que, mesmo quando revelado que nós estávamos no rumo errado, não houve mudança. As conferências do clima desde a ECO-92 foram sendo feitas como se fossem um simulacro. Paris, Nagoya, as outras convenções: elas são como uma coreografia que esses governos, esses sujeitos super poderosos fazem. Vão para Davos, ofendem uns aos outros, falam besteiras, negam a ciência e seguem marchando sobre a vida alheia. Então se a vida não vale nada desse jeito, se é nesses termos, a Terra vai ficar inabitável. Se é muito difícil entender que a Terra é um organismo vivo, que pelo menos entendessem que é um recurso que vai se esgotar. Isso é científico: nossa ação sobre o planeta já passou do limite. Se tivesse um tribunal, a gente já estaria condenado.

As grandes metrópoles são vistas como conquistas da humanidade, ao mesmo tempo em que são os lugares onde mais nos distanciamos da natureza. Nesse momento, quem vive em cidades como São Paulo, Nova Iorque ou Tóquio são as pessoas que enfrentam o maior risco de contágio pelo novo coronavírus, além de permanecerem privadas de todas as comodidades da vida urbana, isoladas em seus apartamentos. Será que essa forma de viver passará por uma reavaliação? As cidades eram percebidas como uma vitória da civilização sobre a barbárie. Elas foram uma ampliação das fortalezas medievais que protegiam grupos de pessoas contra a natureza, contra a floresta, nas situações de guerra. Aquele lugar é o embrião da cidade. Depois ela foi ficando cada vez mais sofisticada, mais acessível, mais agradável. Foi virando uma verdadeira promessa de felicidade, embalada pela ideia do progresso. Parece que 70% por cento da população do planeta hoje está nesses lugares que chamamos de metrópoles, sejam elas Londres, Paris, Hong Kong ou Nova York, mas sejam elas também Piracicaba, Belo Horizonte ou Goiânia, porque são micro partículas dessa ideia de uma super metrópole, e que na verdade é um organismo monstruoso. Porque ele consome energia. A cidade precisa da energia de todo mundo para existir, ela na verdade é um sumidouro. Nós estamos vivendo um conflito essencial entre a nossa disposição para estar vivo aqui na Terra e o nosso desejo de dominar a Terra. A gente tinha que se render à ela e dizer: "Ah, terra maravilhosa, você que dá tudo para nós, fez até a gente existir dessa forma, dirija a vida e me desculpe a sujeira, a bagunça e tudo." 

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Embora a população se sinta pega de surpresa, pesquisadores e cientistas já alertavam para os riscos de uma epidemia mundial e há os que afirmam que o desmatamento pode trazer uma nova pandemia ainda na próxima década. A Covid-19 está colocando em cheque nossa confiança no controle que temos no planeta? Nós fomos convertidos à ideia de que nos distinguimos de outros seres porque a gente pensa, acumula história e organiza nossas intervenções a partir do que a gente pensa. Isso sugere que o que fizemos com o planeta foi movido por uma ganância ou por alguma intenção. Vamos considerar essa hipótese: a gente não dominou os outros seres porque pensamos, mas sim por sermos desastrados. Se não nossa crítica acaba sendo um elogio, como se nós estivéssemos sendo punidos por sermos muito sabidões. Não, nós estamos sendo punidos porque somos desastrados. A radicalização da ação dos desastrados é um desastre global. 

Essa punição vai nos educar ou nos destruir? Tem algumas histórias antigas desse povo que eles chamam de "os índios", povos nativos do planeta, não só daqui, mas da África, da Ásia, de vários lugares do mundo, onde tem gente que restou agarrada na Terra. Que vivem misturados com a Terra de uma maneira tão inexplicável que não conseguem ter muita operacionalidade nesse mundo. Tem gente que vive nas ilhas do Pacífico Sul e o que importa é sair para mariscar, é pegar um caranguejo. Viver e se alimentar daqueles outros organismos. Essa parte da humanidade tem um segredo que aparece nos seus mitos, nas suas narrativas, que é a intimidade que eles têm com o organismo vivo que chamam de Mãe Terra. Na história de muitos desses povos há contos sobre eventos trágicos que resultaram no final de alguns mundos. Aconteceram muitos eventos que já deram origem a muitos mundos, e diferentes humanidades foram extintas e, depois, recriados outros mundos. Todos achamos que é uma tragédia acabar esse mundo, mas alguns povos já viveram e vivem a experiência de "camadas de mundo", e isso torna esse momento menos dramático e ameaçador. Eu acho que nós temos camadas de mundo. E esse que nós estamos acabando de destruir agora é aquele que a gente compartilhou com essa ideia de uma humanidade dominadora e egoísta. 

Você já viveu um fim de mundo antes? Se a gente passa à ontologia, eu vou te dizer que sim. Que eu compartilho memórias de outros mundos. Mas isso não me põe em vantagem nenhuma em relação às pessoas que não viveram essa experiência. Alguém na Índia, numa tradição como a de alguns gurus, vai te dizer que esse mundo material que a gente conhece é uma ilusão. Aí você vai falar: "Mas como, se é nesse mundo que a gente pisa, faz prédio, anda nele?". Ele vai te dizer: "Mas é uma ilusão". Ele vai afirmar isso de dentro de uma outra perspectiva, de uma outra compreensão de existir. Mesmo o Ocidente tem a narrativa sobre a origem desse mundo e o seu fim, que é o apocalipse, aquele bíblico. Não é nenhum escândalo falar de fim do mundo. Só não é uma ideia muito popular. Assim como não é popular a ideia de morrer. Todo mundo nasce. Todo mundo morre. Mas se você quer criar mal estar, fale sobre morrer. Dá o maior mal estar. 

Como está sendo a sua quarentena? Sua rotina e seu entorno foram afetados pelo coronavírus? Eu estou falando com você aqui de casa, da aldeia Krenak, onde estamos fazendo uma quarentena coletiva com 130 famílias. Nós estamos na bacia de um rio que foi invadida pela lama da mineração há quatro anos, quando em Mariana arrebentou uma barragem de contenção de resíduos químicos com restos de lama tóxica. Aquela coisa tava apodrecendo há 40 anos e desceu como se estivesse cauterizando a bacia do rio até o Oceano Atlântico. E ela passou aqui, 300 metros à minha esquerda. Nossa aldeia foi devastada por aquela lama e nós ficamos sem água. Tem quatro anos que somos abastecidos por caminhões pipa, para os animais e para as plantas, e containers de água mineral para as pessoas beberem. É um escândalo. Nós somos abastecidos por cesta básica e caminhão pipa. Você imagina que vida mais artificial? Não tem a mina de água aqui, nós não conseguimos extrair água do solo. Os engenheiros da Vale já vieram tentar fazer poço artesiano, mas aqui embaixo tem uma rocha e, quando eles perfuram, a broca bate na pedra. Nós estamos confinados há muito tempo. Minha quarentena é junto com outras 130 famílias e nós temos consciência de que a gente não pode ficar visitando uns aos outros. De vez em quando chega alguém ali, oi e tal, e vai embora. Eu ainda acredito que nós temos um privilégio maravilhoso de ficar aqui, sair no quintal. Hoje de manhã fui fazer uma caminhada.

Muitas pessoas têm sofrido com o medo e a ansiedade, tanto pelo que estamos vivendo como pelas incertezas quanto ao futuro. Esses sentimentos também te afetaram? Qualquer pessoa que disser que não tem medo está se escondendo atrás de alguma máscara. Porque nós, como organismos vivos, temos terminais que vão sentir o sinal que está ao nosso redor. Ter medo é próprio de nós. O que a gente não precisa ficar é ansioso, a gente deveria só ficar com medo. E receber o medo dizendo: isso é humanidade. Depois você vai experimentar um sentimento maravilhoso que é de não ficar incomodado com o medo. Ele é parte da sua experiência de estar vivo aqui na Terra e natural a todos os seres. Ele não faz mal, não é um terror. E cultiva ele, não joga fora não. Aproveite o medo, você está vivo. Se você não sentir medo, você não está vivo. E você também não é aquela ideia que nós tínhamos de ser humano. Você já virou uma coisa. Quem virou coisa não tem medo.

Créditos

Imagem principal: João Kehl/ Revista Cult

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