por Bruna Bittencourt
Trip #282

Um ano depois do assassinato de sua companheira Marielle Franco, Monica Benicio reflete sobre a mulher que era enquanto começa a descobrir em quem se transformou

É domingo. Monica Benicio está em Kiev, na Ucrânia, e se acomoda no quarto do hotel para falar com a Trip por Skype. Arquiteta, ativista – e viúva de Marielle Franco, como ficou nacionalmente conhecida – ela está ali para a Convenção Europeia das Lésbicas, uma das causas que resolveu tomar para si. Mas não é esse o motivo da nossa conversa. Queremos entender quem é a mulher que está por trás da ativista, aquela que existia antes de ter sua companheira assassinada e que continua existindo, ainda que completamente transformada, em algum lugar. “Tenho uma vaga lembrança de quem eu era”, diz. 

Monica, 33 anos, cresceu com muita liberdade no Complexo da Maré, zona norte do Rio de Janeiro. Naquela época, a realidade da favela era outra. As facções criminosas não viviam em guerra, o Estado não comandava operações policiais truculentas no horário de entrada e saída das escolas e a violência não estava tão presente no dia a dia dos moradores como está agora. “Passava as tardes na rua, brincando com os meus primos. Meu pai dizia que eu morava no mundo e passeava em casa”, lembra.

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Marielle apareceu em sua vida logo que terminou a escola, durante uma viagem de Carnaval organizada por amigos em comum. A afinidade entre as duas foi imediata. “Nos gostamos tanto que ela precisou voltar antes para o Rio e fui levá-la à rodoviária aos prantos, como se nunca mais fosse encontrá-la novamente”, conta.

Não só se encontraram, como construíram uma amizade marcada por muitas trocas. Foi Marielle, na época secretária de um curso pré-vestibular, que a incentivou a batalhar por uma bolsa para estudar arquitetura e urbanismo na PUC-RJ e a continuar a faculdade, mesmo sem grana para comprar o material. Durante esse período, Monica trabalhou em uma barraca de praia no Leblon, a Varanda da Regina – “meu lugar favorito no planeta” –, e conseguiu seu primeiro estágio em arquitetura, participando do projeto de um residencial de luxo. “Ajudava a fazer casas milionárias e depois voltava para a desigualdade da favela. Acho que minha preocupação política vem muito da indignação que comecei a sentir ali”, diz.

Turbulências

Anos depois, quando quis tentar a carreira acadêmica, foi novamente Marielle que a incentivou a entrar no mestrado. A militância da amiga, que sempre foi sua também, inspirou Monica a estudar como a violência influencia a vivência do espaço urbano. “Historicamente, a Maré é a única favela ocupada por todas as facções criminosas que atuam no Rio, incluindo a milícia. Minha tese discute como barreiras invisíveis criadas nesse contexto podem ser desconstruídas por meio do urbanismo”, conta.

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Embora sempre presentes na vida uma da outra, Monica e Marielle não embarcaram em um relacionamento amoroso logo de cara. “A gente encarava quase como uma ofensa quando os outros questionavam nossa amizade”, lembra. Demorou até rolar o primeiro beijo, acidental, seguido por outros vários nem tão acidentais assim. O processo até assumirem um relacionamento também foi longo e complicado. “Fomos criadas em ambientes muito machistas, muito LGBTfóbicos. Tinha o nosso próprio preconceito a ser superado.”

Monica enfrentou a família, brigou definitivamente com seu irmão mais velho, mas lembra que a conta de todo esse desgaste pesava sempre que as duas enfrentavam alguma crise. Durante muitos anos, as duas terminaram e voltaram várias vezes e chegaram a se casar com outras pessoas: Marielle com um homem, Monica com uma mulher. “Só encontramos uma maneira de dar certo juntas tempos mais tarde, mas sempre fomos apaixonadas e nunca deixamos de nos falar”, afirma.

Nesse novo momento, Monica não só estava mais segura da própria sexualidade, como questionava coisas como: “Por que hétero pode andar de mão dada e eu não?”. Ironicamente, era Marielle que chamava atenção para as reações inflamadas da mulher. “Ela dizia que eu era muito insolente. E eu era mesmo, sempre fui. Nunca temi pela minha segurança, nem deixei de fazer algo porque corria algum risco. Pelo contrário, aí é que eu fazia mesmo.”

Quando Marielle foi assassinada, as duas estavam morando juntas e vivendo um momento feliz do relacionamento. Como era de se esperar, Monica perdeu o chão e, por alguns meses, só conseguiu tomar banho e pagar as contas da casa porque os amigos se organizaram em uma “liga das babás” para ajudá-la. “Nem sei direito o que aconteceu durante esse tempo”, diz.

A arquiteta emagre­ceu 11 quilos nos 30 primeiros dias e 
recebeu um ultimato: seria internada se perdesse mais um quilo. Ela passou a aceitar suplementos alimentares do seu nutricionista esportivo (antes da morte da companheira, corria 5 quilômetros diariamente e era extremamente cuidadosa com a alimentação), mas se recusava a ingerir qualquer coisa que pudesse estar relacionada ao prazer. “Não tomava os suplementos com leite, porque era algo de que gostava, tinha que ser com água”, conta sobre o processo que costumava envolver crises de vômito e choro. “Era uma autossabotagem muito grande.”

Monica também precisou encontrar forças para, em meio ao pior momento de sua vida, vencer o pânico de falar para uma câmera e conversar com a imprensa sobre o assassinato da companheira. “Lembro que, nas primeiras vezes, meu corpo tremia inteiro e eu entregava o microfone sem saber o que tinha acabado de dizer.”

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Se por dentro era só desespero, por fora Monica exibia uma serenidade que passou a render elogios nas ruas. “As pessoas vinham me parabenizar pela minha força e eu achava que estavam me confundindo. A imagem que tinha da minha vida não tinha nada a ver com a Monica que estava se tornando figura pública: eu era a pessoa que não estava comendo, que precisava de um monte de gente para fazer um monte de coisas”, diz.

Sua determinação em vencer a dor e tomar para si a luta de Marielle rendeu um convite do PSOL para se mudar para Brasília e trabalhar com a equipe da liderança do partido no Congresso. Ela aceitou mais esse desafio. Ganhou um cachorro, “na esperança de trazer de volta alguma coisa de família, de afetividade” e hoje divide um apartamento com uma amiga na nova cidade.

A vida tomou caminhos tão inesperados que Monica não sabe dizer ao certo quem é, do que gosta e o que planeja para o futuro. Sua única certeza é o que precisa para seguir em frente: “Quero responder quem foi que mandou matar a Marielle. O resto resolvo depois”.

Créditos

Imagem principal: Pablo Saborido

Pablo Saborido

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