Marielle não será
interrompida

por Milly Lacombe

Um ano após a morte de Marielle Franco, Milly Lacombe escreve sobre seu legado ”É de fato muito poder: sair de cena e ficar ainda maior”

Existem apenas três substâncias que têm luz própria: o sol, os raios, o fogo. Mas, vez ou outra, somos brindados com a presença de um ser humano que, como o fogo, é capaz de se multiplicar ao se dividir. Marielle Franco foi muitas coisas em vida, e para algumas delas não há reposições. Para a dor de uma mãe que perde o “boa noite” da filha, para a dor de uma filha que perde o beijo de todos os dias da mãe, para a dor da mulher que perde um jeito de escutar “eu te amo” da companheira, para a dor da irmã que perde o abraço daquela que era sua melhor ligação com o passado que compartilhou de uma mesma família, sentada em volta de uma mesma mesa de jantar. Não há como calar, aplacar, restituir essas dores.

Mas a Marielle ativista, ao sair de cena, se multiplicou. A Marielle feminista, ao sair de cena, deixou em cada uma de nós faíscas para que encontremos nossas melhores versões, aquelas capazes de se movimentar empaticamente, aquelas capazes de, quem sabe, criar em cada uma de nós um fogo eterno e a competência para sermos o combustível de um incêndio sem fim, que não permitirá que nada permaneça no mesmo lugar.

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Marielle, arrancada covarde e violentamente daqui, virou mito, virou heroína, virou transformação. Seu sorriso, hoje conhecido no mundo inteiro, é a imagem da vitória. Sua pele é a imagem da luta. Seu cabelo é a imagem do poder. Sua sexualidade é a representação do orgulho. Isso não é consolo para a ausência de alguém que não está mais entre a gente e com quem não se pode mais sentar à mesa e tomar um café, ou abraçar e escutar a risada, mas ícones passam a ser a representação da luta, passam a ser nossa dose diária de coragem e de inspiração. Malcom X, Martin Luther King, Nelson Mandela, Pagu, Marielle.

Suas palavras agora ecoam pelo mundo, chegam a corpos que nem sabiam ser suficientemente fortes para seguir essa luta, mas que descobrirão ser. “Não serei interrompida”, ela disse na Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro. “Não calarão a voz de uma mulher eleita.” E, de fato, os assassinos de Marielle não estavam habilitados para calá-la, o que deve ser tremendamente perturbador. Sua voz, ainda mais forte e poderosa, saiu do centro do Rio e bateu asas pelo planeta.

Recados que falam de justiça social, de igualdade racial, de igualdade de gênero e de feminismo explodem para além de nossas fronteiras. A voz de Marielle alcança outras nações elaborando sobre os afetos que existem para além do medo, vibrando sons a respeito de coragem, de respeito, de solidariedade e de transformação. Sua voz, agora traduzida para mais línguas, fala da importância de encontramos outras maneiras de nos relacionarmos uns com os outros e com o planeta e cutuca cada uma de nós para que, em nome do amor e em nosso dia a dia, encontremos uma alternativa a essa sociedade capitalista, racista, lgbtfóbica, machista, misógina.

Que tremendo erro de cálculo esses facínoras cometeram ao achar que rajadas de metralhadora seriam capazes de calar Marielle. Não sabiam, pobres almas imundas e ignorantes, que mulheres são poderosas e perigosas, como disse Audre Lorde. Ao acreditar que modernas armas tirariam Marielle do jogo, ignoraram um outro imperativo categórico que vive na mulher negra e que vai chacoalhar todas as estruturas; nas palavras da filósofa e ativista Djamila Ribeiro: “Nossa elaboração de mundo vai incomodar sim. Não se faz transformação no conforto. A gente compartilha histórias de dor, mas também de luta e de poder”.

É de fato muito poder sair de cena e ficar ainda maior. Quantas de nós teremos essa capacidade? Não muitas. Não a maioria. Marielle voou, para desespero daqueles que contrataram assassinos profissionais para eliminá-la.

Nossas dores são triviais, ensinou James Baldwin, a menos que encontremos um canal para nos comunicar com a dor do outro. Marielle foi canal para a dor do outro e estava movida pela força da ancestralidade, uma força que não podemos jamais desprezar. Movida por Rosa Parks, por Audre Lorde, bel hooks, por sua mãe, por suas avós e por suas bisavós.

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Que a força de Marielle possa existir dentro de cada uma de nós. Que possamos nos mover com empatia, como ela tão encantadoramente fez. Que encontremos em cada uma de nós a incrível coragem de amar uns aos outros, como Marielle foi capaz de amar a mãe do policial que perdeu seu filho e a mãe do morador da comunidade que também perdeu seu filho.

“Estou escutando o que me diz meu medo”, escreveu Lorde. “Eu jamais irei embora. Eu sou uma cicatriz, sou um relato da linha de frente, um talismã, uma ressureição.”

Onde quer que você esteja, Marielle — cicatriz, talismã, ressureição — deixo aqui um muito obrigada. Nada foi em vão. Nunca é porque toda tristeza constrói pontes para algum lugar maior e de mais significado. E, a despeito do que possa parecer, é para lá que estamos indo. Agora, com a imagem ícônica de seu rosto sorrindo. Sempre sorrindo.

Créditos

Imagem principal: Mary Cagnin

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