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A economista que abandonou o banco para mudar as prisões

Da infância no Carandiru ao Instituto Ação Pela Paz, Solange Senese conta como deixou uma carreira no Banespa para transformar o presídio em espaço de educação, trabalho e possibilidade de recomeço

Solange Senese, cofundadora do Instituto Ação Pela Paz

Solange Senese, cofundadora do Instituto Ação Pela Paz / Créditos: Lucas Claudiano / TJSP


Por Redação

em 28 de novembro de 2025

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“Sempre tive a inquietação de saber o que pode fazer com que presos não voltem ao crime”, diz Solange Senese. Economista, especialista em sociopsicologia e cofundadora do Instituto Ação Pela Paz, ela dedica a vida a uma pergunta que o Brasil costuma evitar: o que realmente funciona para ressocializar quem passou pelo sistema prisional?

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Solange abriu mão de uma carreira estável no antigo banco Banespa para atuar no sistema penitenciário do estado de São Paulo, criando programas de educação, cultura e qualificação para pessoas privadas de liberdade e egressos. “Não sou de chororô. Vejo o que posso fazer. Se você alimenta a dor, fica nela. Se vai na possibilidade, pode até errar, mas cria um caminho”, afirma.

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Em 2015, ao lado do empresário Jayme Brasil Garfinkel, fundou o Instituto Ação Pela Paz, que completa 10 anos apoiando o poder público e a sociedade civil em iniciativas para reduzir a reincidência criminal. Segundo dados da organização, mais de 80% dos participantes de suas iniciativas em São Paulo não retornam ao sistema prisional. “A música recupera em torno de 95% das pessoas, a leitura também tem um índice bom. Diminui as rebeliões, os conflitos e o uso de calmante.”

Na conversa com o Trip FM, ela joga luz sobre um incômodo coletivo: “Será que todo mundo quer mesmo que detentos se recuperem? Quando você não quer que alguém se recupere, talvez esteja sendo tão ruim quanto a pessoa que cometeu um crime. É um pouco de arrogância achar que você é melhor”.

Você pode ouvir o programa no play nesta página, no SpotifyDeezer e no YouTube da Trip, ou ler a entrevista a seguir.

Solange Senese, cofundadora do Instituto Ação Pela Paz
Solange Senese, cofundadora do Instituto Ação Pela Paz / Créditos: Foto: Marcos Ferreira/Ação Pela Paz

Você trabalha há muitos anos com o sistema prisional. De onde vem sua relação com esse universo?
Solange Senese. Vem da infância. Cresci na Zona Norte, perto do presídio, e meu pai trabalhava ensinando tipografia dentro do Carandiru, quando a Imprensa Oficial funcionava lá. Nos fins de semana, ele nos levava — eu e meus irmãos — e eu brincava com os filhos dos presos, sem entender muito. Mas me marcava ver as famílias entrarem animadas e saírem tristes. Depois trabalhei no Banespa, e muitos clientes eram agentes penitenciários. Vivi de perto o massacre e aquilo me tocou profundamente. Quando saiu o primeiro concurso da fundação pública que atua no sistema, me inscrevi e entrei. A transição foi difícil: no banco tudo começa e termina no mesmo dia; no desenvolvimento humano, nada se encerra rapidamente. Precisei me humanizar para trabalhar nisso, porque gosto de resultado.

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E como foi enfrentar um ambiente tão tenso, ainda mais sendo mulher e mãe? Na minha família, sempre respeitamos as decisões de cada um. Eu já era casada, tinha três filhos, o caçula com quatro anos. Meu marido sempre me apoiou. Teve uma época em que eu trabalhava em Campinas e dormia lá alguns dias da semana. Às vezes pensava se estava sendo ausente demais, mas a família entendia. Meus colegas do banco não entendiam. Diziam que eu poderia prestar outros concursos “melhores”. Mas eu queria fazer isso. Pedi exoneração para ganhar menos. Foi uma escolha minha.

Por que você acha que a sociedade ignora ou esconde o tema da pessoa presa? Talvez por insuficiência humana. Falta humildade para reconhecer que todos estamos em construção e todos erramos. Apontar o erro do outro é mais fácil. Também existe essa tendência de comparação — que só separa. E, para ser preso no Brasil, a pessoa precisa fazer muita coisa errada. O país é flexível com muitas regras, o certo e o errado ficam borrados. Quando alguém acha que “a culpa é só do preso”, ignora tudo o que veio antes: família, escola, ausência do Estado. Se não olhar o conjunto, a visão fica limitada. Acho que muita gente ainda precisa se sentir “melhor” do que o outro. Isso distancia.

Você conviveu com pessoas muito marcantes nesse trabalho, como o Luiz Mendes. Quem ele foi para você? Conheci o Luiz quando ele era monitor da Funap, remunerado pela Lei de Execução Penal. Ele questionava tudo, só fazia algo quando entendia — mas era muito inteligente. A literatura transformou a vida dele. A virada dele foi quando decidiu se responsabilizar pela própria vida. Ele fez muita coisa errada, mas quis fazer diferente dali em diante.

Outro personagem importante foi o Jayme Garfinkel. Como surgiu essa parceria? Eu estava organizando uma grande reunião para mobilizar empresários a contratar egressos. O Jayme estava lá. No final, fui até ele e disse: “A distância entre o que o senhor fala e o que a sua empresa faz é grande, porque vocês não contratam ninguém.” Hoje eu não diria isso (risos). Ele pediu que eu procurasse a diretora de Responsabilidade Social da Porto. Levei a equipe ao presídio e ele topou investir numa unidade produtiva de mobiliário infantil. Dois anos depois, me ligou dizendo que aquilo o tinha tocado e queria fazer algo no sistema. Quando ele falou em “melhorar presídios”, eu disse: “Não é construir presídios, é recuperar pessoas.” E ele respondeu: “Então você precisa fazer isso comigo.” Pedi exoneração do Estado e começamos a trabalhar juntos. O Jayme não quer caridade; quer filantropia de impacto. Ele pensa, constrói e acompanha.

Como você vê a representação do sistema prisional na ficção? A ficção tem potencial enorme, mas muitas vezes é mal calibrada. Ou mostra a pessoa presa como vítima absoluta da sociedade, ou como alguém irrecuperável. Nenhum dos extremos ajuda. A transformação não está no crime — está na virada da pessoa. O cinema poderia inspirar mostrando isso, mas nem sempre a sociedade quer. Às vezes querem ver o “circo pegar fogo” para se sentirem melhores. A ficção precisa evoluir para mostrar complexidade, sem lados pré-definidos.

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