por Kamille Viola

Formato em alta no rap, cyphers são importante ferramenta de lançamento de novos nomes e de aumento da representatividade

Uma busca rápida no YouTube não deixa dúvidas: as cyphers dominaram o rap brasileiro. Mania entre os artistas do estilo musical, o formato — que reúne diversos rappers cantando, um após o outro, numa mesma faixa — vem se mostrando um importante recurso para a divulgação de novos nomes da cena e o aumento da representatividade de grupos que historicamente têm pouco destaque dentro do hip hop. Há cyphers só de mulheres, de mulheres negras e de nordestinos, por exemplo, e, em junho, foi lançada a primeira cypher LGBT do país, possivelmente da América Latina. Juntos, esses artistas têm mais força para brigar por espaço. O negócio deu tão certo que até nomes do funk já andaram se arriscando no estilo.

Se só recentemente o formato ganhou impulso por aqui, nos Estados Unidos, berço do movimento hip hop, ele não é novidade. A origem do termo está na Five-Percent Nation, uma dissidência de outra famosa crença político-religiosa, a Nação do Islã (que teve seguidores como Malcolm X e Muhammad Ali). Fundada em 1964 no Harlem, em Nova York, por Clarence Smith, o Clarence 13X, teve seu nome baseado na nova interpretação que 13X fez para a doutrina da Nação do Islã. Segundo o pregador, a humanidade se divide em três grupos: 85% estariam cegos para o conhecimento sobre si próprios e deus; 10% saberiam a verdade, mas ensinariam mentiras para benefício próprio; e 5% seriam os Poor Righteous Teachers (algo como “Professores Corretos e Pobres”, em inglês), os quais não concordariam com o que fosse dito pelos 10% que mentem, pois saberiam eles próprios a verdade: que o homem negro é deus. Eles são 0s 5%ers. 

A influência dos 5%ers no hip hop foi grande, e termos típicos da doutrina foram absorvidos pelo movimento. Cypher é um deles, e vem de como é chamado o número zero na Matemática Suprema (“zero” em árabe é “sifr”), uma espécie de numerologia (comparada à Gematria, da Kabbalah) que entende os algarismos como ferramentas para desvendar os segredos da realidade e do universo, e atribui significados a cada um deles. O do zero seria união, sabedoria e entendimento.

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Quando surgiram, as cyphers eram rodas (o formato também remetia ao algarismo) em que artistas compartilhavam seu conhecimento em sequência, fossem b-boys, MCs ou DJs, e podiam ser freestyle, ou seja, algo criado na hora, ou não. Na música, se tornaram sinônimo de um artista cantando após o outro, improvisando ou não, sobre uma mesma base.

Antropofagia

Os vídeos do gênero começaram a surgir no Brasil em 2016, mas foi no ano seguinte que ele se popularizou. Nome promissor da cena do Rio de Janeiro, o rapper Choice, 19 anos, era conhecido nas batalhas de rap (venceu várias) e ganhou um impulso e tanto em sua popularidade depois de aparecer na cypher Poesia Acústica 3, do canal Pinneapple StormTV, em novembro de 2017: só essa edição contabiliza 109 milhões de visualizações. “Cypher é como um outdoor: se tem um mano que é mais conhecido, tem uma galera que vai lá ver e acaba conhecendo os outros. É importante o pessoal se juntar, fazer uma força. Além de dar uma quantidade grande de visualizações, pode gerar curiosidade em quem vê de procurar o trabalho de todo mundo ali”, analisa ele.

Choice percebe que muita gente ainda confunde cyphers com grupos, principalmente quando são os mesmos participantes em várias edições. “É bom deixar claro que não funciona como banda, cada um tem seu projeto, sua carreira. Tem gente que acha que 1Kilo e Poesia Acústica são grupos, mas não são”, exemplifica o rapper, que tem um EP, “Ruby King 7102”, com mais de 45 milhões de visualizações, e se prepara para lançar um álbum, World Wide Rockstar Tour Album. Cria do Morro do Atalaia, em Niterói (RJ), ele aposta em uma nova tendência dentro do hip hop nacional na sequência: a conexão com o trap. “Tenho visto como um próximo passo. A gente já tem uma galera forte na cena fazendo essa mistura, tem uma cena de trap de favela, e meu disco vai vir bem trap”, adianta. 

play

Se as cyphers ajudam a divulgar o trabalho dos homens, para quem tem menos espaço no universo do rap, elas podem fazer ainda mais diferença. Não à toa são várias as que reúnem mulheres. A rapper Drik Barbosa, 26, que em maio deste ano lançou o EP “Espelho” pelo selo Laboratório Fantasma, de Emicida, comemora o sucesso do recurso por aqui. “É uma parada que existe há muito tempo, desde que o rap é rap, mas aqui bombou do ano passado para cá. O movimento hip hop preza por essa união. Não dá para só formar grupo e fazer cyphers, cada um tem o seu corre, mas é um momento que é legal para todo mundo se reunir e se lembrar por que a gente faz rap. A ideia principal é juntar pessoas que amam o rap e gostam de fazer músicas”, explica ela.

Drik não foi revelada para o grande público em uma cypher, mas em um 'feat' que é praticamente o precursor da cypher no Brasil: uma participação especial na música “Mandume”, de Emicida, que também conta com Amiri, Rico Dalasam, Muzzike e Raphão Alaafin, gravada em 2015 e com clipe lançado em 2016.

No ano passado, ela integrou a cypher Poetas no Topo 3.1 (também da Pinneaple StormTV) e sentiu falta de representatividade feminina. “Tinha sete caras, eu e uma menina [Clara Lima]. Foi um espaço bem legal, mas você pensa: 'Por que não tem metade mulher e metade homem?'. Mas a gente sabe que na sociedade onde a gente vive não é assim tão fácil... No mesmo canal, eu enchi o saco para fazer uma cypher só de mulher, tem muita mulher fazendo rima, e não tem por que elas não estarem. Fizeram [risos]”, lembra ela, referindo-se à cypher Poetisas no Topo, da qual também participou. “É importante que as minorias se juntem para mostrar que estão fazendo rap também. Uma pessoa X que cai num vídeo desses que tem cinco mulheres rimando tem a chance de conhecer cinco artistas numa faixa só”, resume.

Foi o que motivou a formação da Quebrada Queer, autointitulada primeira cypher LGBT da América Latina, que reúne os MCs Murillo Zyess, 23 anos; Guigo, 26; Tchelo Gomez, 26; Harlley, 20; e Lucas Boombeat, 24, e conta com a DJ Apuke fazendo a base. O primeiro clipe do projeto, batizado com o nome da cypher, foi publicado em 4 de junho no canal Rap Box e já tem mais de um milhão de views. Com versos como “Vai ter bicha no rap, sim, e eu nem sou pioneiro” e “Não há rola nesse mundo que nos proíba de ocupar”, eles vêm conseguindo quebrar barreiras em um meio conhecido pelo machismo e a homofobia.

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“É muito legal a gente poder ver a repercussão dessa cypher, ainda mais dentro de espaços que a gente não imaginava, que são de rappers héteros e do público em geral que acompanha o rap nacional em si, e não da música de artistas LGBT”, analisa Harlley. “A gente conseguiu colocar ela no Rap Box, que é um canal majoritariamente hétero, onde pouquíssimos homossexuais ou trans conseguiram entrar antes.

O público recebeu muito bem a Quebrada Queer porque ela saiu num espaço que é importante, mas o meio underground de artistas LGBT no hip hop é muito grande, muito diversificado. Acho que falta esse abraço ainda para outras pessoas. Falta a busca. Porque nós cinco não fomos as primeiras pessoas a fazer isso, inclusive tem gente que faz isso há muito tempo e não tem visibilidade, principalmente travestis”, frisa.

Tem pra todo mundo

E até o funk já se rendeu ao apelo do formato. O MC Menor do Chapa, 36, que ficou famoso com o hit “Salgueiro é o Caldeirão” (2008), participou de cyphers como Funk Não é Crime e Relíquias do Funk. Agora, se prepara para dividir o microfone com rappers na cypher Favela Vive 3, ao lado de nomes como MV Bill e Choice, e sonha ver outros artistas de seu estilo musical aderindo ao formato.

“Se isso acontecesse, o funk ia explodir ainda mais”, defende o carioca. “Se os artistas novos se unissem para fazer cyphers com os antigos, da mesma forma que o pessoal do rap faz, esquecendo que o ego existe, seria muito legal. Existem muitas pessoas no funk que já estão voando, ganhando muito dinheiro. Quem está na moda hoje tem que ajudar o MC da antiga que lutou. Para que essa árvore florescesse, teve a raiz, que veio pesada. Tomara que isso se difunda no funk também”, torce.

Conexão Brasil-Portugal

A Trip bateu um papo com Evanto Fióti, do selo Lab Fantasma, que também aposta no sucesso das cyphers

Por Carol Ito*

Rincon Sapiência, Kamau, Rashid e Drik Barbosa colaram com os MCs portugueses Papillon, Sir Scratch e Holly Hood na cypher Língua dos Campeões, lançada no dia 31 de agosto pela Laboratório Fantasma Produções e pela produtora Faded, de Portugal. Ao som das batidas de DJ Nyack e DJ BIG e produção de Nave Beatz, os rappers mandaram rimas inéditas, mostrando que Brasil e Portugal têm uma ligação que vai além da língua e das feridas deixadas pela colonização.

“Senti que faria sentido registrar essa colaboração transatlântica mostrando os sotaques, as semelhanças e as diferenças”, diz Evandro Fióti, CEO da Lab Fantasma e idealizador do cypher. Batemos um papo com Fióti para falar de “Língua dos campeões” e da febre do cypher no Brasil.

Trip. Como é o intercâmbio entre Brasil e Portugal no rap?
Evandro Fióti. 
A internet aproximou todos os públicos através dos interesses mútuos. Portugal já consumia bastante o rap feito no Brasil. Grandes artistas como Marcelo D2 e Gabriel O Pensador foram percussores nesse intercâmbio cultural, foram grandes representantes do rap brasileiro em Portugal. Entretanto, aqui consumimos bastante o que é produzido no Brasil, mas dentro do segmento hip hop existe um público ávido que acompanha todos os lançamentos do “Hip Hop Tuga” [jeito que os portugueses são chamados pelo público de rap], incluindo a produção de países africanos de língua portuguesa.

O que isso tem a ver com as cyphers? As cyphers representam uma parte do que esse público consome.  Eles acompanham quase tudo que lançamos aqui, sabem sobre nossos novos expoentes. Recentemente fizemos a primeira tour da Drik Barbosa, Kamau e Rashid por Portugal e eles já possuem uma base de fãs bem interessante por lá e são artistas que nunca haviam tocado na Europa. Isso mostra como o público português pesquisa e está por dentro dos lançamentos brasileiros e nossa intenção é retribuir, diminuindo distâncias e ampliando a troca cultural entre os países.

Cypher é uma coisa relativamente recente no Brasil. Por que se popularizou agora? Acredito que a lírica e poesia voltaram a ser importantes no rap brasileiro depois do crescimento, popularização e ascensão do estilo na última década. Chegamos a novos ouvidos, rompemos barreiras, mas não podemos nunca esquecer nossas origens e os valores importantes dentro da cultura hip hop.

Qual a vantagem para os artistas de se reunirem em cyphers? Além da vantagem de conteúdo pro público, de ver vários artistas na mesma faixa, entendo que eles se juntam torno de um único conteúdo, todos divulgando o mesmo material e de certa forma um contribuindo para o crescimento do outro. É um formato que, se bem feito, agrada tanto o público quanto os artistas. O rap brasileiro teve suas incursões no mainstream mas nunca fez parte dele. Esse público sempre se viu marginalizado e com a internet acredito que encontramos nosso espaço tanto em termos de produção quanto em consumo do que faz sentido para nós.

O rapper Choice comentou que as batidas do trap são tendência nas cyphers atuais. Você concorda? Língua dos Campeões tem muito disso, não? Sim. Trap ja é uma realidade no mundo do rap desde 2007, mas acredito que é uma onda. Em breve surgirá outro estilo de produção, isso é sempre cíclico.

*Colaboração de Carol Ito

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