por Juliana Sayuri
Trip #284

Avó prostituta, mãe operária, filha escritora. As várias facetas de uma família e os desafios da luta feminina no país

Era uma noite quente de junho de 1989. Desde abril, estudantes ocupavam a Praça da Paz Celestial, em Pequim. De repente, as luzes se apagaram: tanques militares invadiram o local e atropelaram e alvejaram os jovens que reivindicavam liberdade, justiça e democracia.

O ano de 1989 mudou o mundo – e a vida de Lijia Zhang, 55 anos. Eram os momentos finais da antiga União Soviética e da Guerra Fria. Mas para Lijia, uma jovem operária de 26 anos à época, era só o começo.

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Dias antes do massacre, ela e amigos da juventude comunista lideraram um dos maiores atos de apoio aos manifestantes, em Nanquim, cidade onde cresceu. Lijia foi interrogada pela polícia, mas acabou solta. Meses depois, em 1990, foi para Londres estudar jornalismo, contrariando previsões e estatísticas. Naquela época, uma em cada 600 crianças chinesas chegavam ao ensino superior. “Entrar na universidade é como subir ao céu”, disse sua mãe.

“Escrever se tornou uma maneira de dar sentido à minha vida e de me expressar”
Lijia Zhang

Boa aluna, Lijia foi obrigada por ela a deixar a escola aos 16 anos anos para substituí-la como operária na fábrica militar de Nanquim, que contava com quase 10 mil empregados. A vida de um funcionário estatal trazia  segurança e alguns benefícios bastante valorizados em uma realidade humilde, como creches para as crianças e cortes de cabelo subsidiados. Sua mãe, que também tinha sido obrigada a abandonar os estudos para se tornar operária, temia os rumores sobre o fim da política que permitia aos filhos sucederem os pais em seus empregos. Por conta disso, aposentou-se 20 anos mais cedo (alegando problema de saúde) para garantir um futuro estável à filha.

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Essa não foi a primeira vez que Lijia pareceu perder a chance de perseguir um futuro melhor. Anos antes, sua professora, ciente de seu potencial, recomendou que ela estudasse em um colégio de línguas estrangeiras de Nanquim, onde os alunos seguiam para universidades e eram preparados para serem diplomatas ou intérpretes de líderes chineses. Lijia, porém, acabou barrada por causa dos “problemas políticos” do pai.

Apesar das duas renúncias, a chinesa levou adiante seu sonho juvenil de se tornar jornalista. Aprendeu inglês sozinha e economizou dinheiro durante a década em que trabalhou como operária para estudar jornalismo na Inglaterra.

“Admiro dissidentes, mas não sou um deles. Meu papel é fazer uma ponte cultural entre a China e o outro lado do mundo”
Lijia Zhang

De volta à China,  em 1993, escreveu A garota da fábrica de mísseis: Memórias de uma operária da nova China, em que relata sua experiência na indústria de armamentos entre 1980 e 1989, quando o país estava se abrindo ao capitalismo. “Comecei meu diário durante os longos anos em que estive na fábrica. Escrever se tornou uma maneira de dar sentido à minha vida e de me expressar”, disse, em 2015.

Publicado em inglês em 2008, o livro foi traduzido para diversos idiomas – mandarim não é um deles. O governo chinês não gostou do que ela escreveu.

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A carreira como jornalista também ganhou força em sua volta ao país, quando ajudava correspondentes internacionais de diferentes partes do mundo. Ela passou a publicar seus textos em veículos como Newsweek, The New York Times, The Guardian, além de siglas famosas de TV americanas como ABC e CNN. “Admiro dissidentes, mas não sou um deles. Meu papel é fazer uma ponte cultural entre a China e o outro lado do mundo”, diz à Trip, em entrevista por e-mail.

Três tempos

Depois de A garota da fábrica de mísseis (2017), Lijia lançou Lotus, que conta a trajetória de uma prostituta em Shenzhen e é inspirado na vida de sua avó materna.

“Minha avó foi uma operária que se tornou prostituta. Minha mãe, operária frustrada. Eu, operária que se transformou em autora internacional”
Lijia Zhang

Órfã e iletrada, ela conheceu o avô de Lijia, um pequeno mercador de grãos, trabalhando como prostituta. Tornou-se sua amante e, depois, sua esposa. A mãe da jornalista, por sua vez, testemunhou o desenvolvimento de diversas políticas da República Popular da China, instaurada em 1949: o fim das tradições feudais e dos casamentos arranjados, o início dos direitos de educação e emprego para mulheres. Como todos na época, foi indicada pelo governo para um trabalho braçal em uma fábrica militar em Nanquim e lá ficou por 30 anos. Era esperta e letrada, mas dedicou seus dias ao processo químico de eliminar impurezas das máquinas de metais – não tinha outra opção.

“Minha avó foi uma operária que se tornou prostituta. Minha mãe, uma operária frustrada. Eu, uma operária que se transformou em autora internacional. A história dessas três gerações de mulheres ilustra as mudanças no papel da mulher na sociedade chinesa contemporânea”, define.

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Mãe de duas meninas, frutos de seu casamento com o jornalista britânico Calum MacLeod, ela enxerga um momento diferente para as mulheres no país, marcado por altos e baixos.

Hoje, o empoderamento econômico das chinesas mais instruídas, simbolizado pela ascensão de empreendedoras bilionárias e executivas a altos cargos de empresas, já é uma realidade. Ainda assim, segundo o último relatório Global Gender Gap Report, referente a disparidade de gênero do Fórum Econômico Mundial, a China ocupa a 103ª posição (o Brasil está na 95ª posição, no ranking de 149 países). O salário das chinesas é 23% menor que o dos chineses e, segundo o último censo, apenas 44,7% delas estavam empregadas, de acordo com a Organização Internacional do Trabalho.

Sobre os ombros delas

“A desigualdade salarial está aumentando, pois a China mudou para uma economia de mercado, na qual os maiores fardos e custos caíram sobre os ombros delas. As situações variam. Há mulheres suando nas linhas de produção, especialmente nas empresas particulares, com salários baixos e condições de trabalho terríveis. E há aquelas que estão no governo, com muitos benefícios, embora seus salários não sejam altos. E existem ainda as que estão em empresas estrangeiras, com remunerações maiores, mas jornadas longas”, exemplifica Lijia, que experimentou realidades opostas ao longo da vida.

De maneira geral, ser mulher na China, o país mais populoso do mundo, é sobreviver às estatísticas. Entre 1979 e 2015, o país viveu sob a política do filho único, implantada para reduzir o crescimento populacional. Neste período, os pais acabavam por priorizar o nascimento de bebês do sexo masculino (filhos homens são considerados os únicos herdeiros da família, os que trabalham e perpetuam as linhagens). Segundo dados divulgados pelas autoridades chinesas, mais de 300 milhões de abortos legais foram realizados nessa época. Com isso, há 30 milhões a mais de homens do que mulheres na China. Este desequilíbrio demográfico traz impactos, como a ausência de políticas públicas pensadas por e para elas.

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A primeira lei federal contra violência doméstica, por exemplo, entrou em vigor em 2016, depois de 
duas décadas de campanha das ativistas. A estimativa é de que 50 mil casos são denunciados e registrados em ocorrências policiais ao ano (no Brasil, segundo a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher, entre janeiro e novembro de 2018, a imprensa noticiou 14.796 casos de violência doméstica). Em 2015, as chinesas se vestiram como noivas ensanguentadas para protestar contra violência doméstica. “Os homens ocidentais têm fantasias sobre as mulheres chinesas ou asiáticas, imaginando-as dóceis e inocentes. Mas a realidade é que elas são fortes e obstinadas”, diz.

Certa vez, o líder Mao Tsé Tung (1893-1976) acenou às camaradas: “As mulheres sustentam metade do céu”. Sob o céu chinês, Lijia e as chinesas querem que a antiga máxima 
maoísta de igualdade entre gêneros valha na terra.

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