Conhecer o próprio corpo é um ato revolucionário
Se tocar é fundamental para que as mulheres se apropriem do prazer, tanto consigo mesmas quanto em relações afetivas
Por Redação
em 13 de maio de 2022
Apesar de todos os avanços que conquistamos nas últimas décadas, explorar o nosso próprio corpo ainda é um estigma para muitas mulheres. Dados de pesquisa divulgada em 2020 sobre como a brasileira se relaciona com a sua região íntima mostrou que metade delas identificou erroneamente a vagina – muitas vezes confundida com a vulva, nome dado para a parte externa do aparelho genital feminino, enquanto a vagina é a cavidade dentro da vulva. O levantamento foi feito por Intimus® em parceria com a Nielsen Brasil e a Troiano Branding e ouviu quase 400 mulheres, de 16 a 45 anos pelo Brasil.
“No consultório, atendo uma enorme quantidade de meninas e mulheres que não se conhecem. Elas deixam essa parte para os médicos ou para os parceiros, mas nunca para si mesmas”, conta a ginecologista Rebeca Gerhardt, parceira da ação Curta o Ciclo, festival de curtas promovido por Intimus® com temas como saúde íntima, autocuidado, sexualidade e dignidade menstrual.

Segundo a médica, o autoconhecimento é fundamental para que as mulheres se apropriem do próprio corpo, não só pelo prazer, mas também pela saúde. “Já atendi pacientes que chegam com lesões e não sabem me dizer se elas sempre estiveram lá ou se apareceram recentemente. Tudo porque não se encaram”, relata.
Uma sugestão indicada por ela é colocar um espelho em frente à genitália e se tocar sem medo de ser feliz. Apesar de simples, muitas pacientes relutam por achar feio ou ter nojo. “Nosso corpo foi colocado historicamente num lugar reservado apenas à reprodução e qualquer outro uso dele além de servir de penetração do outro ou para a saída de um bebê é recriminado”, explica Rebeca.
Ainda de acordo com o estudo Os Estigmas da Vagina, uma em cada quatro mulheres não tem o costume de tocar a vulva, 15% não têm o costume de olhar para ela, e 68% das entrevistadas relatam ter algo de que não gostam nas partes íntimas – os pelos aparecem com 33%, seguidos da cor (18%), cheiro (18%), aparência (17%) e tamanho (15%).
Para a produtora de conteúdo Luana Carvalho, o domínio do corpo feminino é ancestral e remonta desde a Inquisição, em que as mulheres eram mortas acusadas de bruxaria. “O patriarcado não quer que a mulher tenha controle de seu corpo – principalmente as negras, indígenas e as não brancas. Uma mulher que reivindica seu prazer mexe com as estruturas sociais vigentes, como o machismo, o racismo e o capitalismo. Conhecer o próprio corpo é um ato revolucionário”, defende ela, que criou a hashtag #GordaNãoPode no Instagram, ironizando as regras inventadas para os corpos gordos.

Se o prazer já é negado para as mulheres em geral, para um corpo gordo ele se torna ainda mais proibitivo. Luana já perdeu a conta de quantas vezes foi tachada de doente e teve seu prazer deixado de lado. “As pessoas pensam: além de ser mulher, gorda, ainda quer ter prazer? Corpo gordo e liberdade são antônimos”, explica.
Sexualidade Positiva
Fundadora da Casa Prazerela, em São Paulo, espaço focado no prazer feminino, com cursos e experiências orgásticas, Mariana Stock acredita que se apropriar do corpo é fundamental para que as mulheres conquistem a autonomia, e tocar a própria vulva não deveria ser diferente de tocar a perna ou a barriga. “É conhecendo o corpo e o explorando como um verdadeiro laboratório que vamos saber do que gostamos. O corpo passa então a ser um aliado, e não objeto para o outro. O autoconhecimento é a chave para autorização do sentir. Quando a mente autoriza, o corpo ocupa”, diz.
A comunicadora e psicanalista, que recebe na Casa Prazerela desde meninas de 18 anos até senhoras com mais de 80, lembra que exploramos pouco o próprio corpo e o prazer porque há uma repressão muito forte por parte da sociedade, que não nos autoriza sentir. “Todas as mulheres carregam essas marcas de repressão e de castração com o corpo. A geração Z está inserida em um contexto um pouco melhor, o mundo finalmente vem dando sinais de mudança”, diz, sobre as meninas nascidas entre a segunda metade dos anos 90 o início do ano 2010.

Para mulheres, falar de sexo ainda é um grande estigma. Pouco se fala e, quando se fala, ele está quase sempre atrelado a uma conotação negativa, como doenças sexualmente transmissíveis e gravidez indesejada. Por isso, Mariana Stock gosta do termo sexualidade positiva, uma nova forma de ocupar nossos corpos. “A base da sexualidade feminina é doentia, castradora, está sempre no campo do medo. Mas a sexualidade é vitalidade, é potência, é vida, é saúde”, explica.
Festival
Um dos coletivos participantes do festival é o Garotas do Motion, de São Paulo, que desde 2017 reúne mulheres, pessoas trans e não binárias do universo da ilustração, do motion graphics e da animação. O curta será inspirado no universo psicodélico de Alice no País das Maravilhas. “Para a animação, pesquisamos muito a geração Z e a ideia é abordar a sexualidade não como uma coisa performática, que a gente está acostumada a ver em filmes, ela vai muito além”, conta Cristianne Ly, fundadora do grupo.

A campanha Curta o Ciclo, é uma ação da campanha da linha Intimus® Antibacteriana e Defesas Naturais e conta ainda com outros quatro coletivos femininos de audiovisual: Negritar (PA), Movielas (DF), Arco-Íris (RS) e Olhos Abertos (BA), cada um representando uma região do Brasil. Os temas serão transformados em vídeos de curta-metragem, inspirados em dúvidas e depoimentos de consumidoras.
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