Douglas Vieira
Carol Ito
Nathalia Zaccaro
Renan Dissenha Fagundes

por Douglas Vieira
Carol Ito
Nathalia Zaccaro
Renan Dissenha Fagundes
Trip #272

Pouco sabemos da realidade existente fora das nossas bolhas. A saída é a educação. Não está na hora da elite liderar essa transformação?

Reunimos um time de brasileiros pensantes, homens e mulheres de todas as gavetas e escaninhos da estante brasileira, membros de algumas das mais abastadas famílias do país, gente de origem muito pobre, artistas, pensadores, alguns muito novos, outros já mais velhos, para refletir sobre a educação brasileira a partir de suas próprias perspectivas. Em comum a todos, o fato de que não se deixaram lobotomizar por competição, consumo, necessidade desesperada de aprovação social e, em última análise, de fama e de dinheiro. Gente que mantém e exercita (ou está buscando exercitar) o olhar para o outro e a tal empatia.

As perguntas variaram, mas fundamentalmente queríamos saber: é possível reeducar nossas elites? Aliás, o que é exatamente elite? É possível sonhar com gente um pouco mais razoável e humanizada nos postos de liderança de governos, empresas, partidos, religiões, entidades esportivas, nas artes, na cultura? Nossa elite, afinal, tem jeito?

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Participaram Ana Júlia Ribeiro, ativista que ganhou destaque no movimento secundarista em 2016; Ana Moser, ex-jogadora de vôlei e presidente do Instituto Esporte & Educação; Camila Pitanga, atriz; Christian Dunker, psicanalista; Eduardo Lyra, empreendedor social; Elisa Lucinda, atriz; Flávio Canto, ex-judoca e fundador do Instituto Reação; Francisco Bosco, filósofo; Marcello Dantas, curador de arte e documentarista; Marcio Black, cientista social; Marina Person, apresentadora e cineasta; Marisa Moreira Salles, fundadora dos projetos Por quê? e Arq.Futuro; Neca Setubal, cientista social e presidente da fundação Tide Setubal; Sidarta Ribeiro, neurocientista; Tábata Amaral de Pontes, estudante de escola pública formada em Harvard e criadora do projeto Mapa Educação; e Teresa Bracher, diretora do instituto Acaia Pantanal.

Tábata Amaral de Pontes, estudante da escola pública brasileira formada em Harvard e criadora do projeto Mapa Educação. A primeira coisa que eu penso quando a gente fala de educação voltada para elite é em educação política e cívica, que te leva a entender em que momento histórico estamos vivendo, o que está acontecendo com a política, qual é o meu papel como cidadã e como sou responsável não só pelo que eu fiz, mas também pela posição em que eu nasci.

Marisa Moreira Salles, sócia-fundadora da BEI Editora, do Por quê? e do Arq.Futuro. Há o preconceito de uma geração com a educação cívica, que ficou associada ao período militar. E não é. No fundo, é “como é que eu vivo numa cidade?”. Se eu não fizer as minhas escolhas, alguém vai fazer por mim. Então, é muito mais inteligente eu tentar entender a complexidade daquilo e ir formando opinião. Agora, a minha opinião, vazia, não é nada se ela não foi educada pelo contato, pela troca. Na hora que eu me fecho em muros e acho que estou protegida, é uma grande mentira. Porque tem alguém que pegou um transporte de três horas, saiu de um mundo completamente diferente, entrou nessa muralha... Ele conhece meu mundo. Mas quantas vezes eu saio do meu mundo e vou lá? Pouquíssimas. Você tem de fazer um esforço para isso e essa é a maior riqueza que a gente tem na vida.

Marcio Black, cientista político e produtor cultural. O nosso papel é tentar criar esses diálogos – quanto mais pra cima, melhor – e garantir que as portas estejam abertas para quem está vindo atrás da gente. Se eu abrir uma porta, preciso falar: “Galera, vem por aqui”. Aos poucos, algumas pessoas vão se desarmando, vão entendendo, se colocando no nosso lugar, a empatia rola. Mas pesquisas dizem que um homem negro, com a mesma formação de um homem branco, ainda levará 30 anos para ter a mesma renda. Para quem está lá atrás então...

Neca Setubal, cientista social, acionista do Itaú e presidente da fundação Tide Setubal. Temos um desafio cultural a ser cumprido, que é a igualdade dos direitos. Os países na Europa têm isso muito forte. Mais do que políticas universais, iguais para todos, nós temos que ter uma universalização dos direitos. Para isso, é preciso que as escolas que tenham alunos mais vulneráveis, mais pobres, tenham os melhores professores, os melhores materiais, inverter, dar mais para quem tem menos.

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Elisa Lucinda, atriz. A gente precisa ter um olhar crítico e ao mesmo tempo conhecedor das nossas raízes; nós não temos. O que está posto nos cânones da nossa história é uma história mentirosa. A história foi escrita pelos caçadores, pelos domadores, e não pelo ponto de vista dos leões. Precisa haver uma educação sincera brasileira.

Ana Júlia Ribeiro, ativista que ganhou destaque no movimento secundarista em 2016. A educação que a elite precisa é a que toda população precisa. Tanto a elite quanto a periferia precisam da mesma educação. Essa educação da qual os dois setores estão com carência (só que um lado é muito mais afetado) é uma educação emancipadora, de qualidade, que desenvolve o cidadão em sua integralidade. Não uma educação voltada só para o mercado de trabalho. A educação hoje, na maior parte, é voltada para o mercado de trabalho. A diferença é que a elite tem acesso à cultura, ao lazer, a um milhão de coisas que nós, estudantes da escola pública, não temos. É por isso que ela consegue se sobressair.

Neca Setubal. Roberto DaMatta, sociólogo, fala que as elites no Brasil, não só as financeiras, mas as elites intelectuais, artísticas, esportivas, políticas, não querem se igualar, elas querem ter o seu destaque, não abrem mão do privilégio. Ele fala: “Você sabe com quem você tá falando?”. Isso acontece com muitas dessas elites. Ela não quer ficar na fila.

Christian Dunker, psicanalista, professor livre-docente do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). As elites são convidadas a se perceberem parte de uma paisagem muito maior do que elas estão acostumadas. Então, isso cria uma espécie de crise narcísica, em que o capital financeiro não consegue mais transformar o capital cultural em capital social. Estudar na USP não garante mais que você pertencerá à elite, mas, sim, o capital social gerado desde a infância, nas escolas ricas, em que se assegura o networking para manter o status até a vida adulta.

Teresa Bracher, diretora do instituto Acaia Pantanal. A elite brasileira precisa, em seu processo de educação, ter contato com outras classes sociais. Esse fosso que a gente tem hoje é criado por essa distância. As pessoas não se conectam, não se conhecem. É muito importante, desde criança, você ter contato, conviver com famílias de classes mais baixas, com outro mundo. Não é só a escola que é responsável por isso, as famílias também. A gente vive num país onde os mundos estão separados, e isso é ruim para todo mundo. Eu acho muito importante que as escolas de elite insiram no seu currículo trabalho voluntário e experiências com outras realidades. Tem que fazer parte da formação conhecer o Brasil.

Marcello Dantas, curador de arte e documentarista. Tem uma coisa muito simples da qual as pessoas se esquecem: elite, especificamente, não é uma coisa ruim. Toda sociedade precisa de alguma espécie de elite, seja intelectual, política, financeira... Mesmo as sociedades socialistas, quando tentaram fazer o socialismo se implantar, a primeira coisa que eles criaram foi uma elite. Mesmo dentro de um sistema operário se criou um líder sindical, um líder trabalhista, e por aí vai. É difícil olhar isso. O que a gente pode olhar no Brasil não é a palavra elite, porque quando você pensa em elite, assim, você não quer uma elite intelectual no país? Você não quer uma elite de liderança no país? Você não quer uma elite criativa no país? Claro que você quer.

Marina Person, apresentadora e cineasta. A elite não tem contato com a realidade brasileira. Não estuda com pessoas de classe social diferente da dela, e quando ela chega no momento da universidade, tem para si uma universidade pública que tampouco contempla quem não tem acesso à educação particular.

Marisa Moreira Salles. Não foi dada a base para eles [camadas mais pobres] competirem de igual para igual nas escolas públicas, que é onde deveria haver essa igualdade de oportunidade. E é o oposto. Eles pagam caro. Qualquer educação é melhor do que nenhuma, mas é aquela educação de base, a saúde de base, que vai te dar oportunidade de competir pela universidade pública gratuita, que é melhor. Não que não existam universidades privadas muito boas também, mas houve uma inversão de tudo. Devia ser a primeira exigência nossa como povo. É educação. É saneamento. É saúde. Para mim, é esse o ponto que mais incomoda o tempo todo. Quando a gente teve a oportunidade de vender os valores reais da vida, a gente vendeu consumo.

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Sidarta Ribeiro, neurocientista. A única maneira de o Estado brasileiro dar certo é se as pessoas enriquecerem de baixo pra cima; isso gera consumo, circulação de mercadorias, cobrança de impostos, o sistema se realimenta. Mas aqui a elite não tem essa responsabilidade com o futuro, com o que vai acontecer daqui a dez, 20, 30 anos. Isso começa lá na escola, quando a gente aprende sobre a história da Europa, e não sobre a história da América Latina ou da África.

Marina Person. O mundo ideal seria aquele em que a gente tivesse uma educação pública de qualidade no ensino fundamental, onde ricos e pobres se misturassem. Isso seria o grande passo para que as elites tomassem contato com o que é a maior parte da realidade brasileira.

Teresa Bracher. Infelizmente, muitas famílias só viajam pra fora. É engraçado que quando as escolas propõem isso [conhecer outras realidades brasileiras] os pais têm medo. Tem escola que leva os alunos para a Serra da Capivara, no Piauí, mas, quando propôs isso, os pais ficaram apavorados, ninguém queria, tinham medo. Mas depois passou. As escolas têm que abrir essa porta e as famílias também. Senão a criança não conhece a realidade do país, ela acha que a realidade é aquela bolha em que ela vive. Viver nessa bolha é uma coisa muito desinteressante, é empobrecedor demais, como experiência de vida, como compromisso para você contribuir com um Brasil melhor.

Neca Setubal. A elite financeira é uma elite cosmopolita que conversa com escolas cosmopolitas globais. Eu vejo com muita preocupação, eu fico triste, para dizer a verdade. O problema não é a escola, é a desconexão com a realidade brasileira. Talvez a escola reforce essa desconexão, você se conecta cada vez mais com o mundo.

Marina Person. Em São Paulo tem duas novas escolas que estão sendo inauguradas com mensalidades de R$ 8 a R$ 10 mil. Escolas bilíngues, que têm base muito forte de inglês, educando pessoas que não vão fazer universidade no Brasil e que concorrem nessa fatia da ultraelitização da nossa juventude, de novos líderes. Tem um individualismo em um sistema como o nosso, capitalista. As pessoas querem só se salvar. Você tem que cuidar pra que você se salve nesse meio todo. É falta de noção de pertencimento a essa sociedade

Teresa Bracher. Tem que internacionalizar mesmo, o mundo hoje é conectado. Mas também tem que lidar com a realidade imediata. Porque do lado da sua casa tem uma favela. E aí, esse mundo não existe para você?

Flávio Canto, ex-judoca e fundador do Instituto Reação. Tudo é muito injusto. Nos primeiros dois anos de Reação, na primeira vez que subi numa favela do Rio de Janeiro, eu tinha 25 anos. Era um mundo novo que me era apresentado ali e que estava do meu lado o tempo inteiro e no qual eu nunca tinha entrado. A gente não fala de inclusão social, a gente fala em integração, porque parece que quem está embaixo precisa conhecer quem está em cima na pirâmide social, mas quem está em cima não precisa ir para baixo, porque lá não presta.

Sidarta Ribeiro. Seria muito importante que a gente federalizasse a educação, subisse o nível, transformasse a educação em uma atividade de alta prioridade do Estado. E que os ricos pudessem participar da educação pública. Se o filho do rico estuda na mesma escola do filho do pobre, começa a existir a possibilidade da empatia.

Eduardo Lyra, empreendedor social e fundador da ONG Gerando Falcões. A discussão de classes afasta as pessoas, a gente precisa de exemplos de pessoas que unam as classes. OK, você nasceu rico e não tem culpa, como não tenho culpa de ser pobre, mas e aí? Como podemos juntos tornar o país menos desigual e mais justo?

Tábata Amaral de Pontes. Eu não acho que o ponto seja arrogância, acho que é ignorância e medo. Tenho muitos amigos próximos que, quando eu chamava para ir para minha casa, os pais deles morriam de medo, tinham que ir de motorista. As pessoas têm um receio muito grande, que não é fundamentado. São Paulo, por exemplo, é uma cidade perigosa. Se você não conhece, não recomendo que vá sozinho para a periferia ou para a favela. Mas precisamos entender que, se a gente não quebrar as barreiras de alguma maneira, a sensação de insegurança, o crime e a desigualdade só aumentam. As pessoas têm receio porque não têm ideia do que vão encontrar lá. Você vê no noticiário dizendo que o bairro é perigoso, por que você vai se relacionar com essas pessoas? Isso aumenta o preconceito, a desigualdade e tudo o que a gente tem de ruim.

Marisa Moreira Salles. O medo ocupou o espaço do convívio. A gente está vivendo uma crise de confiança absurda. Aí, se a gente olhar politicamente, o que a gente tem é uma crise de confiança. Como vencer isso? Na verdade, você tem políticos que uma hora falam uma coisa e outra hora falam outra. Não são eles. Eles são um retrato da gente. Somos nós, né, que temos essa atitude em relação a tudo. E temos medo do outro. A gente está com medo de sair na rua. O espaço que era da educação cívica, do respeito, do espaço de todos, do espaço público, foi se perdendo. E a gente foi se trancando, se fechando, e foi criando esse abismo, que eu não acho que é só um abismo de classes sociais. A educação é grande parte disso.

Elisa Lucinda. Eu creio que a elite brasileira precisa de uma educação com princípios de cooperação para além da família, algo que você só conhece entre os povos mais pobres. A vida coletiva, além de ser uma lição dos povos primitivos, é também uma necessidade da vida em comunidade. Grosso modo, o que quero dizer é que meninos pobres dividem o brinquedo entre irmãos, vizinhos, criam juntos estratégias que supram a falta, enquanto meninos ricos se isolam em seus quartos com o seu brinquedo que vai ter mais valor, de preferência, se for melhor do que o do irmão. Isso é muito grave. O ensino brasileiro de elite trata da mesma maneira o seu conteúdo e o objetivo de estudar: competir, vencer o outro, ser o melhor, derrotar. Quando colégios caros são especialistas no ranking que eu acabei de listar, temos um diagnóstico de uma educação egocêntrica, excludente e, por isso mesmo, para produzir e manter a injustiça e a guerra. O menino branco é criado em seu condomínio branco, servido por empregados pretos, para que ele e seus descendentes sejam sempre os patrões dos outros, os melhores.

Christian Dunker. Isso gera demandas como escolas condominiais, escolas que vão vender a ideia de que, no fundo, essa elite não pertence ao Brasil, ela já é uma elite que precisa ser reconhecida por outras linguagens. Tem que falar inglês, morar em Miami, estudar nas escolas das princesas, que vão internacionalizar nossas elites. Esse sonho é antigo, é anacrônico e, no fundo, bastante vergonhoso porque é provinciano. A elite precisa sair do país movida pela vergonha, pela incapacidade de se deixar reconhecer, por limitar e ampliar o acesso aos bens simbólicos, por lutar por uma educação qualitativamente mais justa e diversificada.

Flávio Canto. Existe uma apatia que já é histórica do brasileiro em relação à política. A gente tem uma visão assistencialista, esperando um Estado-mãe que tem que fazer tudo, mas não vai fazer nunca, a gente tem uma epidemia de corrupção. Falta para a sociedade, e para a elite brasileira, matar a bola no peito e falar “pô, tem que ser com a gente”.

Marina Person. Isso melhorou um pouco com as cotas, mas ainda assim há um abismo muito grande entre a elite financeira e a maioria do país.

Marcello Dantas: Sabe o que o Brasil perdeu? Meritocracia. É isso o que a gente perdeu. Ou seja, tá tudo certo em ter elite, se você tiver meritocracia. Se a pessoa chegou ali por mérito, não porque é filho do César Maia, ou porque é filho do fulano de tal, ou porque é filha do deputado. Neto do Antônio Carlos Magalhães. Abençoado pelo Lula. Toda essa putaria, que eu acho que é a coisa que a política brasileira virou. É hereditária, e não é por mérito. Se chegasse lá por mérito, estava tudo certo.

Neca Setubal. Dentro das condições que eu estou colocando de igualdade, as cotas fazem parte disso. Vou falar um pouco de meritocracia, que é um conceito extremamente liberal, não é do Brasil, vem do século 19, mas, sem radicalizar a questão, eu vou defender a meritocracia. Num país como o Brasil, o que não é meritocracia é nepotismo, é interesse político, interesse dos meus amigos. Obviamente não se trata disso. É importante a meritocracia, mas ela é importante desde que as pessoas estejam no mesmo ponto de partida. Como isso não acontece e estamos longe disso, a meritocracia tem que olhar e perceber onde eu tenho que tratar diferente para que consiga a igualdade. Tratar diferente os desiguais. Tem uma frase naquele filme Nunca me sonharam, que o Instituto Unibanco produziu, que o menino fala que acha legal a meritocracia, mas enquanto uns estão no primeiro andar, ele está no segundo subsolo.

Marcio Black. Se a meritocracia fosse aplicada num sistema racional e objetivo, e devolvesse para as pessoas conforme o esforço que elas colocaram, quantas horas você não dormiu, quantas horas você trabalhou, quanto do seu fim de semana você comprometeu para estudar, uma pessoa como o [sociólogo negro] Túlio Custódio seria imperador do mundo.

Sidarta Ribeiro. No Brasil, o rico tem o discurso de que é roubado, injustiçado... um discurso de underdog, que permite que ele venda o país. Por que não vender o óleo da Petrobras para os outros, já que a gente é incompetente? Esse discurso de perdedor é o discurso da elite brasileira. Quem tem discurso de liderança na elite brasileira hoje? O discurso de vencedor, que diz que o povo é capaz e vamos crescer juntos… A gente não vê isso. A elite está se escondendo das coisas erradas que eles historicamente fazem. A elite fica mal-educada quando ela é criada por uma babá que faz tudo por ela e por quem ela não tem nenhum respeito. Quando você cria pessoas em condomínios fechados e em escolas cheias de serviçais, elas vivem em uma bolha que acha o Brasil cafona e que não vai dar certo. E não interessa para a sociedade essa pessoa rica que não sabe o que fazer com esse dinheiro.

Francisco Bosco, filósofo e poeta. É uma elite hipocritamente identificada com o que ela considera primeiro mundo. Essa identificação acaba quando se discute as mesmas medidas políticas que fazem desses países democracias mais robustas, com mais igualdade. Quando se tenta abrir qualquer discussão sobre essas medidas no Brasil, as elites são as mesmas a sabotar essa discussão com argumentos terroristas, do tipo, se você faz uma reforma tributária profunda, no sentido progressista, assusta o investidor. Se o governo taxar grandes fortunas, vão tirar o dinheiro do país, vai ter consequências ruins. Existe um terrorismo.

Christian Dunker. Como membro de uma elite cultural, acadêmica e intelectual, percebo que passamos muito tempo sem nos responsabilizarmos pela nossa posição social. O ódio que a gente percebe, o antiacademicismo, um ressentimento contra as universidades, contra os professores, têm em grande medida alguma razão de ser. A universidade teve que se proteger atrás dos muros e dar continuidade para sua função de ser babá de certa elite, não se responsabilizando muito pela intervenção na sociedade civil que, no fundo, é quem paga a conta.

Marcio Black. Quantos colunistas negros você tem hoje em grandes veículos? Quantos diretores de empresas? Quantos professores universitários? E aí quando você olha para o corpo docente da universidade, quantos desses professores ocupam cargos de direção ou coordenação de curso? Eu fiz doutorado na USP e não tem, apenas os quadros históricos, não renova. A gente não consegue multiplicar essas vozes.

Eduardo Lyra. Quando a gente vai discutir elite, favela, classe média, branco, preto, o que é importante considerar, para início de discussão, é que ninguém tem culpa de onde nasceu, de nascer rico ou pobre. As pessoas simplesmente vêm ao mundo e ganham CEP, RG, sobrenome, cor de pele, conta bancária. A gente precisa ter generosidade quando pensa em relação à favela e também quando pensa em relação à elite. Ninguém escolheu onde nasceu. O que a gente tem que fazer é uma reflexão que é: qual resposta eu vou dar para a minha realidade social, para a cor da minha pele, para o meu sobrenome, para a escola onde estudei, para a minha conta bancária e para as oportunidades que eu tive ou não tive na vida?

Tábata Amaral de Pontes. Uma coisa que escutei em uma conferência da fundação Obama, em Chicago, e que achei muito bacana é que se algo não é sua culpa, não significa que não é de sua responsabilidade. Quando a gente olha pros filhos da elite brasileira, não é culpa deles que, por causa da condição financeira dos pais, tenham saído tantos quilômetros à frente da linha de partida e estejam em uma condição privilegiada. Mas é responsabilidade dessas pessoas, já que tiveram tantas oportunidades, e aí eu me incluo porque tive muitas oportunidades, usar como instrumento tudo que recebeu para lutar por um país inclusivo, justo, desenvolvido e ético.

Sidarta Ribeiro. As pessoas hoje não têm constrangimento em ganhar mais dinheiro enquanto tem gente morrendo de fome. Juízes que não têm constrangimento em ganhar acima do teto constitucional. O mais incrível é que não tem empatia, não está nem aí se o outro está sofrendo e não percebe que, em um país que não cuida das suas crianças, vai se agravar o conflito social. Em vez de darmos alguma chance de equalização de oportunidades, melhorando as escolas, não, a gente faz muros altos, mais polícia, mais segurança, mais repressão. É uma corrida armamentista. É triste. A gente precisa sair disso, precisamos de uma elite que diga: “Depende de nós mudar isso, nós temos os meios, vamos parar de explorar o povo e investir no povo”.

Eduardo Lyra. A questão pra mim não é se a pessoa é de elite ou de favela, é o que ela decide fazer com a vida dela. Com as oportunidades que ela teve ou não teve. Essa é a resposta. Agora, se parte considerável da elite não está dando a resposta certa, isso é um problema pro país. Os ricos da nossa geração e os grandes herdeiros precisam dar uma resposta à altura do desafio do seu tempo. Por que essa resposta às vezes não é dada? O grande problema é de consciência e de como ela é formada.
A gente vive em uma sociedade dividida por muros que colocam brancos de um lado e negros de outro, ricos de um lado e pobres de outro, direita de um lado e esquerda de outro. Eles são divididos e decidem conversar com quem é igual e tem as mesmas opiniões.

Teresa Bracher. Eu acho que a gente [a elite] tem que ter esse compromisso, sim, o país é nosso e as oportunidades têm que existir para todo mundo. A desigualdade social é uma violência tremenda e a gente tem que trabalhar para mudar isso. Afeta todo mundo. É muito empobrecedor, é violento, não conectar com as pessoas que não têm o tanto de dinheiro que você tem. As pessoas que têm outra condição de vida você não conhece, não tem contato, não sabe de nada. Por quê?

Camila Pitanga, atriz. Estamos falando de uma elite que só vive o seu feudo, o seu espaço protegido. Carece de conhecer outra realidade que não a sua, de sensibilizar o seu olhar para o outro, para fora. Melhorar a educação brasileira necessita de um compromisso de Estado e da elite, sem dúvida. A questão é como sensibilizar essa elite a pensar no coletivo, a sair do seu conforto, a sair da esfera individualista e competitiva e abrir mão de privilégios? Não tenho essa resposta.

Marcio Black. Eu nasci na favela, consegui superar todas as barreiras que foram colocadas para mim, tanto sociais como raciais. Eu poderia estar confortável no meu lugar, eu tenho minha renda, moro em Perdizes [bairro de São Paulo], estou nesse lugar da classe média. O que me bota pra me movimentar todos os dias pra diminuir a desigualdade é que eu acordo envergonhado com isso. Eu acordo com vergonha disso. E me assusta ver que a elite, que nasce em condições muito mais privilegiadas, não sinta essa mesma vergonha e não tenha como meta diminuir essa desigualdade. E se você se colocar nesse lugar, você vai construir essas pontes pra conversar e chegar nesses lugares.

Camila Pitanga. A crise da educação no Brasil não é uma crise, é projeto, já disse Darcy Ribeiro.

Sidarta Ribeiro. A carência da nossa elite é assumir uma responsabilidade em vez de querer continuar a sugar e extrair. Estou falando isso tanto para os empresários que sonegam impostos e têm trabalho escravo, pagam mal os empregados e foram a favor da reforma trabalhista, quanto para quem está no Estado, como juízes que ganham acima do teto porque é legal, mas é imoral. Um Estado no qual as pessoas tiram R$ 100 mil por mês e não querem pagar a aposentadoria de quem ganha mil?

Neca Setubal. A equidade tem que estar na ponta, eu tenho que atuar pela igualdade de oportunidades, que é um discurso liberal, de direita, de esquerda, de todo mundo. Mas fazer isso acontecer de verdade. As dicotomias de direita e esquerda podem se encontrar na igualdade de oportunidades de partida. Eu tenho que criar uma maior igualdade das condições para que eu possa garantir uma maior qualidade de educação para todos. É nessa questão da política pública, onde o território importa; temos que pensar em diferentes estratégias, diferentes formas de atuar com conteúdos básicos e alguns específicos. Eu tenho que ter clareza de olhar um território, as condições dos valores, as necessidades, quem são aquelas pessoas, para poder dar o máximo possível para criar igualdade de condições.

Camila Pitanga. Há uma dívida que nasce na aceitação de sermos uma sociedade escravocrata. Essa naturalização se dá porque não enfrentamos de verdade o racismo como uma doença viva em nossa sociedade. Enquanto o branco de classe abastada não se enxergar como parte do problema, tudo se mantém como está. 

Teresa Bracher. Há duas coisas com as quais a elite precisa se envolver: com a política e com o terceiro setor, a cultura de compromisso com o público. Doando seu tempo, seu dinheiro, seja para entidades que fazem trabalhos em saúde, educação, meio ambiente etc., seja na própria atuação política. Porque o país vai ser construído pelos brasileiros, tanto da elite econômica, quanto da intelectual. Pessoas que tenham o desejo de contribuir para o bem comum. Como essas pessoas se afastaram da política, quem a ocupou foram pessoas que defendem os próprios interesses. O Estado foi capturado por pessoas que defendem seus interesses individuais ou de grupos. Tanto que você vê a quantidade de parente que tem lá, é o filho, o neto. Política virou negócio.

Flávio Canto. A minha maneira de fazer política nos últimos 17 anos tem sido no terceiro setor. É frustrante porque às vezes você se sente enxugando gelo. Um caso fácil de entender é: tenho 1.500 alunos e só 70 deles têm bolsa de estudos [em escolas privadas]. Então você tem uma limitação muito grande. Talvez o lugar onde você consiga promover mudanças mais significativas não seja no terceiro setor. Quando vejo gente decente, estadistas – porque a gente não tem né, tem só oportunista –, então, quando vejo gente assim entrando para a política, me dá um conforto de saber que vai ter gente remando junto.

Neca Setubal. Hoje eu sou presidente do conselho do Gife [Grupo de Institutos Fundações e Empresas], que tem como associados as fundações familiares e empresariais. Eu pego o censo que saiu ano passado e 80% das fundações atuam na área de educação.

Teresa Bracher. No Brasil existe uma cultura muito baixa de doação, tanto de dinheiro, como de tempo. Uma cultura fraca de compromisso com o público. Isso precisa melhorar muito.

Ana Moser, ex-jogadora de vôlei e presidente do Instituto Esporte & Educação. A gente é financiado, na maior parte, pelo setor privado. Quem toma a decisão nessas empresas são representantes da elite. Está crescendo cada vez mais a consciência das limitações que a gente tem na nossa sociedade e da responsabilidade de todos para superar essas limitações. Há alguns anos, era muito mais comum você lidar com projetos de marketing para dar visibilidade a marcas, produtos, isso tem evoluído. O próprio envolvimento com o projeto é o marketing social. As métricas das empresas têm mudado bastante, com o desenvolvimento da noção de responsabilidade social e do reconhecimento dessa responsabilidade na prática, não só no discurso. As empresas são feitas de pessoas e eu tenho encontrado cada vez mais lideranças sensíveis a isso.

Flávio Canto. Vejo um movimento interessante, com essa coisa do “good is the new cool”.  A gente está em um momento de busca por propósito, das empresas, das pessoas.

Marcio Black. A Angela Davis fala que não adianta mais dizer que não é racista. A grande questão é qual o seu comprometimento com as pautas antirracistas? O quanto você trabalha pela inclusão dessas pessoas no mercado de trabalho, no seu espaço de trabalho? Qual é o esforço que você está fazendo pra romper sua bolha? O cara cresce na zona oeste, não se enxerga como racista, o corpo negro não o incomoda, mas estudou no Dante, no São Luís, vai pra PUC, pra USP… Ele pode passar a vida inteira sem conviver numa situação social de igual para igual com um negro em São Paulo. A gente está falando de um cenário em que mesmo a mão de obra negra qualificada não consegue lugar no mercado de trabalho – não estou falando de negro da periferia, que está sendo alfabetizado, estou falando de classe média, gente bem preparada. E por que não consegue? Eles querem preservar o lugar. Aí fala que é meritocracia, mas mesmo quando as pessoas correm e superam todas as barreiras, ainda não conseguem chegar.

Neca Setubal. Sempre tem o discurso “vou lá na FGV, no Insper, na USP buscar os estagiários e os trainees”, só que não há negros. As empresas dizem “não é minha culpa”. Algumas estão buscando o apoio de ONGs, de algumas agências que focam nisso para que elas possam selecionar outros grupos sociais que não estavam entrando em seus cargos. É um começo muito incipiente, mas eu acho que existe uma movimentação por pressão da sociedade, não por iniciativa das empresas. É uma resposta porque nas redes sociais se cobra, então, as empresas tentam ampliar. 

Marcello Dantas. A elite cultural estava superafastada e agora parece que está voltando a se mexer a respeito. Pra mim, o lado positivo dessa crise política é isso: as classes artísticas e intelectuais passaram a acreditar que precisam fazer parte desse jogo.

Sidarta Ribeiro. As pessoas das ciências humanas estão há mais tempo engajadas nesse debate político. Já nas ciências biomédicas e exatas, agora com essa catástrofe do governo Temer com a ciência, está havendo uma nova politização. Mas se você perguntar para qualquer cientista ou acadêmico se ele quer se candidatar a alguma coisa, ele provavelmente vai dizer que não. Isso gera uma alienação. As pessoas ficam em seus escritórios e laboratórios alheias ao processo.

Neca Setubal. Existem escolas que estão nos primeiros lugares e que têm uma visão muito mais aberta, mais progressista. Nesses casos, são escolas que buscam uma visão mais crítica, ter um olhar mais amplo da sociedade, tanto do próprio conteúdo, quanto das experiências dos alunos. Então, você vai ver escolas que fazem intercâmbio com alunos de escolas de periferias, desenvolvem trabalhos juntos. Isso está longe de ser algo que possamos dizer “ah, é por aí” ou esses alunos são formados e conhecem uma realidade outra que não o seu próprio umbigo. Mas, é um começo.

Elisa Lucinda. A gente paga um preço altíssimo por não fundamentar o nosso ensino, nosso estudo, nossa educação formal, na história real brasileira. Tem dias que são verdadeiros equívocos e vultos históricos que são verdadeiros equívocos enquanto heróis, mas eles perduram dentro dos currículos. Ninguém entende direito a Inconfidência Mineira, a Guerra do Paraguai, não tem a dimensão da nossa escravidão de 400 anos, não tem os fundamentos dos povos primitivos, indígenas e negros, a gente não tem esses fundamentos. A dominação branca extremamente pretensiosa achou que podia prescindir de tais fundamentos e de tais culturas, e isso reflete na nossa educação.

Ana Júlia Ribeiro. A preocupação que uma educação emancipadora deveria ter vai muito além de ensinar só a decorar uma fórmula de química, matemática e física. É você conseguir ver além daquilo. É quando você tá andando pela rua e consegue ligar o que vê com o que aprendeu na escola, é esse tipo de ensino que a gente procura. Mais do que isso. Um ensino em que nós, estudantes, possamos questionar, discutir, sem sermos desmoralizados porque temos 17 anos. Um ensino que emancipe a gente e nos torne cidadãos, não robôs.

Créditos

Imagem principal: Vitória Bas

Ilustrações: Vitória Bas

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