por Roberto Saraiva

Tasura Zennat Mily trocou o trabalho de dona de casa por um posto como voluntária para distribuir apitos, absorventes de pano, chinelos e respeito para as refugiadas rohingya em Bangladesh

Os olhos de 40 mulheres de rostos cobertos por véus e sentadas no chão da grande tenda colorida observam atentamente cada movimento, assentindo em silêncio. Tasura Zennat Mily encadeia rápido e em bom som as frases de seu texto decorado. De uma das mãos pende um apito, desses bem barulhentos, e sua mensagem é clara: em caso de perigo, assopre. A apresentação toda não dura nem cinco minutos, e a jovem de 23 anos mal para de falar enquanto outro grupo lota o espaço, substituindo o primeiro. Olhares curiosos em faces inescrutáveis se sucederão sem intervalo até que cerca de 2 mil mulheres rohingya do acampamento de Balukhali, no sul de Bangladesh, tenham recebido um balde laranja onde lê-se “Kit Dignidade”, e orientações de como usar cada um dos seus dez itens.

Elas cruzaram a fronteira de Myanmar para Bangladesh com outros 655 mil membros da minoria muçulmana desde agosto de 2017, fugindo do exército e de budistas nacionalistas que queimaram 354 vilas e mataram ao menos 7 mil pessoas. É normal ouvir de quem escapou histórias de estupros sistemáticos, infanticídio e fuzilamento. Para o governo do país vizinho, nada disso aconteceu. Sem cidadania há décadas, os muçulmanos teriam queimado suas próprias casas para chamar a atenção da comunidade internacional. Oficialmente, a investida foi uma resposta a ataques do grupo militante rohingya ARSA que deixaram 12 soldados mianmarenses mortos.

Do dia pra noite, 215 mil refugiados em Bangladesh de outros episódios de violência em Mianmar tornaram-se quase um milhão. Mas nessa época Tasura já havia tomado a decisão profissional da sua vida. Sete meses antes, trocou o trabalho de dona de casa em Cox's Bazar, cidade mais próxima dos dez acampamentos, pelo de voluntária da UNFPA, braço da ONU responsável pelo suporte a mulheres em situação de risco. O marido, que é funcionário do serviço de atendimento ao consumidor da Nokia, aplaudiu a iniciativa da esposa. Uma ONG parceira paga uma ajuda de custo, mas os gastos de casa não são grandes – apesar da família extensa dela (sua mãe teve seis filhos), o casal tem apenas um menino de seis anos.

Tasura agora encara no mínimo três horas de estrada para ir e voltar de onde vivem as mulheres que não conhece, mas a quem dedica seu tempo. “Eu amo o trabalho humanitário, vim para ajudar as rohingya. Eu me sinto segura de falar com elas, de trabalhar com elas, entender como elas vivem”, conta entusiasmada. Ela não se veste de maneira tão diferente das refugiadas que ajuda todos os dias, com exceção do rosto à mostra em público. A monotonia da roupa preta e do hijab cobrindo pescoço e cabelos só é quebrada por um broche colorido e pelo tic-tac azul e agulhas vermelhas que prendem o lenço no lugar. O buço proeminente move-se num sorriso simpático de dentes separados desarmante e útil no trabalho de ganhar a confiança das outras mulheres.

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“Quando vou pros acampamentos, peço permissão pra entrar nas casas, faço perguntas familiares, falo sobre o Kit Dignidade, mostro fotos e explico como usar.” As refugiadas recebem um cartão para trocar pelo balde nos centros de distribuição na data marcada. Lá, ela e outras voluntárias dão mais uma reforçada na mensagem, registram as mulheres e entregam os kits. Por ter nascido em Cox's Bazar, Tasura fala um dialeto local muito parecido com a língua dos rohingya. É suficiente para se comunicar, mas não para superar barreiras culturais mais complexas. “Elas perguntam muito por que eu estou lá e o que estou levando. Às vezes são um pouco resistentes e a maneira de pensar é um pouco diferente. Quando comecei aqui foi um pouco difícil, agora já entendo um pouco mais”, reflete.

INFORMAÇÃO, PROTEÇÃO E LIBERDADE
O Kit Dignidade ajuda as refugiadas a não sucumbir aos perigos da vida em acampamentos: de doenças causadas pela falta de higiene ao risco de violência sexual, que incrivelmente (ou não) ainda existe mesmo depois do inferno vivido por muitas delas nas mãos dos soldados de Mianmar. Cerca de 85 mil unidades já foram entregues e outras 30 mil devem chegar às mulheres a partir de fevereiro.

Apito; lanterna; três calcinhas; três absorventes de pano; camisola para lactantes; toalha; sabão para lavar as roupas; chinelo; um grande lenço para o corpo, pescoço e rosto; e o próprio balde são uma combinação padrão de produtos usada em situações parecidas no mundo inteiro. Segundo Tasura, até objetos aparentemente de pouca importância, como as roupas e o chinelo, também auxiliam na recuperação do amor e do respeito próprios, necessários para a sobrevivência nessas condições.

Mas nada disso é eficaz sem boas doses de informação. “Pergunto se elas sabem usar os objetos. Umas sabem, outras não. A maioria não sabe o propósito de nada disso”, lamenta Tasura. Nigar Sultana, coordenadora das ações de distribuição do Kit, emenda: “Algumas ONGs entregam fraldas ou sabão líquido, mas não explicam como usar. Elas comem ou usam como óleo de cozinha”. O tabu sexual comum em sociedades conservadoras e rurais como a dos rohingya também não ajuda. “Elas não usam calcinha ou absorvente quando estão menstruadas. Não falam sobre isso e usam panos velhos nesses dias. Isso, além de não ser higiênico, é perigoso”, alerta Nigar.

E são justamente esses itens os grandes hits do pacote. Notiaza Begum, 25, mãe de quatro, descansa à sombra com o seu kit. Muito desconfiada a princípio, descreve como pretende usar cada um dos produtos e dá uma risada tímida ao falar da calcinha e do absorvente, seus preferidos: “Nunca usei e nem vi nada disso na vida”. “É muito útil porque pode ajudá-las a sobreviver saudáveis, limpas e protegidas da falta de higiene dentro e fora de casa”, ensina Tasura, usando um dos argumentos que repete no convencimento das outras mulheres.

Em meio ao rio de grandes baldes laranjas que deságua no árido acampamento de Balukhali, Raizoma Khatun, 30, admite só ter vindo pra pegar um deles. “Eu não tinha como carregar água”, justifica, séria. Mas, uma vez em posse do kit, ficou interessada pelos objetos de higiene íntima, e pela lanterna e pelo apito para andar com as cinco filhas à noite. Perto dela, outras mulheres de rostos cobertos se dizem felizes, mas… preferiam ter recebido panelas.

Tasura tem toda a atenção das rohingya quando demonstra a lanterna recarregável e o apito no centro de distribuição da UNFPA. A ausência de banheiros dentro de casa e a falta de eletricidade nos acampamentos são uma combinação potencialmente explosiva para mulheres e meninas refugiadas. A ideia é devolver parte da autonomia perdida. Segundo Nigar, muitas relatam que o movimento facilitado faz com que se sintam empoderadas. Também é uma mão na roda para mulheres grávidas em regiões mais ermas dos campos. A dificuldade de locomoção é parcialmente responsável pelas complicações obstétricas causadas pela falta de acompanhamento pré-natal.

Homem não entra onde os kits são entregues, a não ser poucos voluntários para organizar a fila e os baldes. Tasura nem registra o sorriso debochado deles quando muda de função e deixa de explicar a utilidade dos itens para ajudar as refugiadas a assinar o recebimento com o polegar. Do lado de fora, um grupo de meninos espia curioso a enorme movimentação. De fora também ficam mulheres com menos de 14 e com mais de 45 anos, preteridas pela UNFPA por supostamente não estarem em idade reprodutiva. Um espaço confidencial para conversas mais privadas com a equipe e para amamentar aguarda em um canto da tenda, mais colorida e arejada que as outras de Balukhali. “Eu recebo muitas mulheres que perderam os maridos e vivem de favor em outras casas, sem dinheiro. Elas ficam especialmente felizes de receber esses produtos”, comemora a voluntária.

Tasura nunca ouviu falar em feminismo. Palavras em voga nas redes sociais como sororidade, hashtags como #metoo e até o próprio conceito de direitos iguais não existem no seu universo. Ou existem? “Todas as mulheres têm direito a respeito. Elas são refugiadas e também merecem. Se eu consigo ajudar nisso me sinto orgulhosa e feliz. E se essa história sair mais pessoas vão saber sobre os rohingya, sobre o que elas passam.”

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