Não deixe o seu
pinto sujo

por Alexandre Makhlouf

Câncer, amputação e masculinidade frágil: todo ano, 1.500 perdem o pênis por… falta de higiene

Nesta virada de ano, coloque na sua lista de metas para 2020 lavar melhor o pinto. Eu sei, parece brincadeira, mas é assunto sério: mais de mil homens têm o membro amputado todos os anos por má higiene. O dado alarmante foi obtido em estudos da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), que atribui aos tumores malignos o principal motivo das cirurgias de remoção do pênis – e a principal causa de câncer peniano é, sim, a falta de higiene. “Grosseiramente, a expectativa é de mil a 1.500 amputações por ano. E eu ainda acho que é uma estimativa muito por baixo”, explica o Dr. José de Ribamar Rodrigues Calixto, coordenador da área de câncer de pênis e testículo da SBU. Grosseiramente porque o último dado nacional do Data SUS sobre câncer de pênis é do ano 2000 e, de acordo com Dr. Calixto, é uma estatística subestimada, porque muitos hospitais não estavam no sistema de informação e os casos nem sempre são notificados.

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Fazer a higiene não é nenhum bicho de sete cabeças. Os homens que não fizeram cirurgia de fimose ou passaram por circuncisão devem puxar o prepúcio (pele do pênis) em direção à base, lavar com água e sabão, enxaguar e secar bem todas as vezes que tomarem banho. Não fazer a higiene correta, principalmente no caso dos não-circuncisados, pode contribuir para o acúmulo de bactérias na região, o que poderia causar uma vermelhidão na glande (cabeça do pênis), que pode se tornar uma ferida e, assim, se não tratada, transformar-se em tumor. “Até hoje, não há uma droga eficaz, tipo quimioterapia, para tratar câncer de pênis. A eficácia das que já existem não chega a 30%. Só usamos para tumores muito iniciais, quando tentamos preservar o máximo possível do pênis, e o resultado do tratamento é com cicatriz, edema e ferimentos. O que funciona é tirar a lesão,  amputando parcialmente ou totalmente: só a cabeça, um terço, metade ou tudo”, detalha Dr. Calixto.

Além explicar fisiologicamente esse fenômeno, é preciso entendê-lo social e culturalmente. “Fizemos um trabalho em São Luís pela Universidade Federal do Maranhão que, por meio de três estudos estatísticos, mostrou que o estado tem a maior incidência per capita de câncer de pênis no mundo”, ressalta o urologista. O ranking das cidades com menor IDH do país ajuda: das dez com o índice mais baixo, duas estão no Maranhão. “É falta de educação sociocultural, não te digo nem economia. Já tive paciente, executivo de uma grande empresa brasileira, que fez uma consulta comigo aqui e descobriu um câncer de pênis. Não é porque é pobre que não tem a cultura da higiene”, completa Dr. Calixto.

A condição social, no entanto, agrava o quadro de falta de conhecimento. Os dados do estudo conduzido pela UFMA mostram que a maioria dos pacientes, homens entre 45 e 65 anos, quase 70% deles pertencentes às classes D e E, chegam ao consultório ou hospital pedindo pela cirurgia, pois, além de não aguentarem mais a dor das feridas e nódulos inflamados, precisam estar bem para continuar trabalhando na lavoura e sustentando a família. “A gente trata a ferida que sangra, mas o problema é muito maior, mesmo depois que conseguimos tratar o paciente.”

Vida pós-cirurgia

Em uma sociedade machista, que se construiu com uma definição de masculinidade tóxica – em que a afirmação dos homens se dá quase sempre pela violência e na qual os homens precisam se mostrar fortes o tempo todo –, faz todo sentido que pós-operatório seja uma jornada muito mais longa para esse tipo paciente.

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O psicólogo Alex Sousa se dedicou durante mais de um ano para elaborar o estudo Depressão, desesperança e processo de enfrentamento em pacientes com câncer de pênis, defendido como tese de mestrado na Universidade Federal do Ceará. Nele, Alex ouviu 21 homens penectomizados para investigar o impacto que a cirurgia teve em suas vidas. Além de resultados já esperados como baixa auto-estima e problemas de autoimagem, ideação suicida e dificuldade de reinserção social foram outros problemas que ele detectou. 

“Perder o pênis é extremamente impactante do ponto de vista emocional, mas também social. Isso demanda um acompanhamento psicológico desde o momento do diagnóstico, passando pelo tratamento, pós-cirurgia e alguns anos pós-cirurgia, coisa que os hospitais da rede pública não oferecem”, pontua Alex. 

Além disso, família, amigos e até o círculo religioso, que deveriam cumprir a função de apoiar e acolher esses homens, acabam agindo com preconceito e até fazendo piadas com a amputação, o que dificulta a recuperação e, diversas vezes, faz com que os pacientes faltem às consultas pós-cirurgia. “Não é à toa que a região Nordeste, onde ainda impera uma cultura mais machista, seja a com maior incidência desse tipo de caso. Cuidar do corpo, de si, da saúde, são valores atribuídos ao feminino.”

Combate

A boa notícia em todo esse cenário é que a solução para combater o problema não depende de nenhuma descoberta científica, e, sim, de conscientização dos homens. Por isso, a SBU organiza mutirões e campanhas para ensinar a população masculina, principalmente a mais pobre, como fazer essa higiene. Em 2007, por exemplo, um motorhome da associação, em parceria com o governo do estado, percorreu 213 municípios no Maranhão levando a escolas um gibi explicativo. Na história, o personagem principal interagia com o bumba-meu-boi, figura folclórica maranhense, e uma criança para explicar como lavar o pênis e prevenir doenças. “ Foi colocado em linguagem bem simples, falando sobre puxar a pele, identificar a coceira, falar de possíveis ferimentos. Isso é importante porque, além de aprender, a criança também leva para casa, vira uma multiplicadora nessa educação com os pais”, explica Dr. Calixto. 

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No momento, a SBU do Maranhão está em negociação com governo para implementar novas ações do tipo. “É o único câncer que você pode prevenir. Você não pode evitar o próstata, apenas fazer o diagnóstico precoce. O câncer de pênis é o único que o paciente pode de fato fazer alguma coisa para impedir. Basta ter boa higiene”, o médico, lembrando também que o HPV pode causar esse tipo de câncer e, por isso, é imprescindível usar proteção em todas as relações sexuais.

Créditos

Imagem principal: Creative commons

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