por Camila Eiroa

Para Stephanie Ribeiro, aproveitar os espaços de convivência masculina para desnaturalizar abusos é o primeiro passo antes de levantar qualquer bandeira

Precisamos falar com os homens? A pergunta é recorrente no movimento feminista e divide opiniões. Durante o Festival Path, que reuniu diversas atrações no final de semana dos dias 14 e 15 de maio, a escritora e estudante Stephanie Ribeiro, de 22 anos, aproveitou para discutir o tema em mesa mediada por Guilherme Valadares, do Papo de homem.

Ao lado de seu namorado, Túlio Custódio, e Amanda Lemos, da ONU Mulheres, Stephanie disse acreditar que o machismo cria um papel de conforto nos homens e identificar isso seria um primeiro passo para desnaturalizar comportamentos típicos. "É vazio um homem dizer que é feminista enquanto existem padrões que não são quebrados", diz. 

As mulheres negras, por exemplo, são menos valorizadas do que homens brancos em alguns espaços feministas. E mesmo os homens negros, que também são mais oprimidos que os brancos, podem entender que a violência contra a mulher é uma forma de proteção, desencadeando relacionamentos abusivos. "Existe uma cadeia a ser destruída antes de se dizer feminista", acredita. 

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Tpm. Como amenizar os sintomas da sociedade patriarcal nos espaços de fala das mulheres?
Stephanie Ribeiro. Existem espaços onde os homens se reúnem, seja no bar ou assistindo futebol e são essas as horas que eles deveriam aproveitar para trocar ideias sobre comportamentos típicos. As mulheres estão escrevendo sobre masculinidade já faz um tempo, existem muitos artigos sobre isso, mas a gente não vê os homens fazendo o mesmo. Para mim, esse é o primeiro passo a ser dado. Eu sinto uma dificuldade muito grande de troca em espaços mistos, é importante eles pararem para ouvir as mulheres. Por isso existem espaços fechados em alguns coletivos.

“Não necessariamente você tem que dizer que é um homem feminista pra discutir a masculinidade”
Stephanie Ribeiro

Os homens têm medo de perder seu protagonismo? Acho que sim. Eles ficam meio confusos, porque entendem que são protagonistas na discussão das mulheres e não na entre os próprios homens. Eles têm que entender o que as mulheres dizem, mas no sentido de absorver e destruir o conceito de masculinidade, entendendo que isso muitas vezes é nocivo para as mulheres. Os homens questionam muito o que as mulheres pensam, mesmo que seja uma opinião. Mesmos os homens que se dizem abertos à discussão.

Um homem pode se dizer feminista? Não necessariamente você tem que dizer que é um homem feminista pra discutir a masculinidade. Ele não se coloca nesse papel de feminista, a afirmação desse papel é para a mulher. Nesse sentido, os homens têm que se cobrar de algo, que é discutir a masculinidade. E isso não é se dizer feminista. Ao mesmo tempo, não vejo a necessidade de discutir sobre isso ou brigar pra dizer que é feminista. A gente tem inúmeros problemas, que vão desde a violência até relacionamentos abusivos e salários diferentes. O que precisamos é buscar destruir determinados conceitos enraizados na nossa cultura.

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Você acha que o feminismo é levantado hoje como uma mera bandeira? Com certeza. É mais profundo que um rótulo, sabe? No fundo é até vazio um homem dizer que é feminista. Até porque, muitos que participam de movimentos com mulheres são extremamente machistas com as próprias companheiras. Até que ponto os homens não estão usando isso como status, levantando uma bandeira descolada? Na verdade, tem que ir na raiz do problema.

E como ir na raiz? O que eu vejo é uma naturalização de coisas extremamente absurdas. Quando meu pai foi embora e deixou minha mãe grávida e comigo pequena, nenhum amigo dele o cobrou sobre isso, sobre pagar a pensão ou ser participativo na vida dos filhos. Cabe os amigos a cobrarem isso, entende? E não naturalizar esse tipo de atitude. Quando avançarmos nesses pontos, a gente avança nos outros. Mas é complexo, é muito difícil de isso acontecer, independente do grau de estudo, de intelectualidade e de vivência. A discussão de masculinidade no Brasil precisa quebrar padrões vistos como naturais.

Créditos

Imagem principal: Bruna Marques

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