As travessias de Naruna

por Dandara Fonseca

Com seu teatro engajado, Naruna Costa aproxima a arte da periferia. À Tpm, a artista fala sobre a experiência de viver a protagonista de ”Irmandade”, nova série da Netflix

Atriz, diretora, cantora e compositora, Naruna Costa experimenta a arte em seu sentido mais amplo. Aos 36 anos, a paulista de Taboão da Serra, cidade da região metropolitana de São Paulo, tem conquistado cada vez mais espaço na cultura brasileira. Além de trabalhos importantes no teatro e no cinema, ela foi a primeira mulher negra a receber o troféu de melhor direção teatral da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) este ano. Agora, a artista embarca em uma nova jornada: ao lado de Seu Jorge, ela protagoniza a série Irmandade, que estreia Netflix nesta sexta. 

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Dirigida por Pedro Morelli, a série conta a história de uma facção criminosa dos anos 90, a Irmandade. Na trama, Naruna vive Cristina, uma promotora do Ministério Público que, ao tentar ajudar o irmão, preso por ser o líder da facção, é obrigada pela polícia a trabalhar como informante. "Foi uma experiência muito forte e intensa para mim, o sistema carcerário, essa tática de encarceramento em massa, é muito cruel. Mas também é honroso poder fazer parte disso, ser livre e contar essa história." 

Descoberta 

Nascida na parte mais pobre de uma cidade considerada periferia da grande São Paulo, o teatro só apareceu na vida de Naruna na adolescência, aos 14 para 15 anos. "Sempre gostei de cantar, de dançar, fazer cenas em casa para os meus pais, mas eu não sabia que existia o teatro. Essa não era uma realidade de profissão para as pessoas da periferia", conta. Foi quando um grupo de teatro foi à sua escola que ela descobriu essa possibilidade. "Todo aquele universo me encantou, porque eu entendi que o teatro era a casa de todas aquelas artes que eu gostava de fazer", lembra. 

A partir daí, nem as duas horas de caminhada que separavam sua casa das oficinas a fizeram desistir. Após ingressar na faculdade de arte dramática da USP, em 2006, ela foi uma das fundadoras do espaço e do grupo de teatro Clariô, que tem como objetivo movimentar a cultura periférica e produzir uma dramaturgia que contemple essas histórias. "A cultura infelizmente é vendida de uma forma a não ser democrática, as pessoas não têm acesso e não entendem que ela é um direito", explica. "O Clariô é a minha vida. Eu saio para estudar, fazer novelas, séries, mas, quando faço a travessia de volta, resgato todo o entendimento do que eu escolhi como artista."

A seguir, ela conta sobre a infância na periferia, a descoberta no teatro, a experiência de protagonizar a "Irmandade" e reflete sobre o sistema prisional brasileiro e a bipolaridade que se encontra o país. 

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Tpm. Você nasceu na periferia do Taboão. Como era seu contato com a arte e com a cultura na infância?

Naruna Costa. Minha infância, que aconteceu no final dos anos 80 e nos anos 90, foi uma mescla de uma relação do rural com essa periferia que ia surgindo e que eu vi nascer naquele ambiente. Infelizmente, a cultura é vendida de uma forma a não ser democrática, a população desaprendeu que a cultura e a arte são um direito do cidadão, uma possibilidade de formação de pensamento. Achamos que não é para a gente, que é elitizada demais. Hoje, todo debate que diz respeito da cultura gira em torno disso. 

“Quero que Irmandade faça sentido em 2019 para alguma discussão possível a respeito dessa tragédia que é o Brasil”
Naruna Costa

Foi fácil encontrar lugares para fazer teatro nessa época? Já adolescente, quando tinha 14 para 15 anos, um grupo de teatro foi até a minha escola e fui assistir uma peça. Aquele universo todo me encantou. Esse mesmo grupo dava oficinas no centro de Taboão. Só que eu morava na periferia da cidade, que já era considerada periferia da metrópole de São Paulo. Os cursos eram aos finais de semana e, para chegar lá, como não tínhamos grana nenhuma, fazíamos uma caminhada de duas horas a pé.  

E como surge em você a visão de uma arte mais engajada? Quando fui para USP estudar teatro na EAD (Escola de Arte Dramática), consegui olhar com uma certa distância a realidade do lugar onde eu vivia. Até então, toda essa relação com a periferia e com a violência dos anos 90 nas quebradas, que temos falado hoje em dia, era muito naturalizada, inclusive por mim. Mas, quando saio de lá e observo outros ambientes, como a USP, uma universidade onde eu não via pessoas negras ou que tinham a mesma origem social que eu, fui descobrindo o privilégio, outras relações, outras possibilidades. É aí que surge esse meu lugar, conhecido como um teatro engajado. Foi fundamental atravessar a ponte, como a gente fala, para voltar com bagagem, com informação, com um olhar crítico sobre a comunidade que eu vivia e a que estava conhecendo. 

E como surgiram o grupo de teatro e o espaço Clariô? O grupo já existia, mas era só um agrupado de pessoas fazendo teatro. Quando alugamos um lugar para ser a nossa sede, começamos a pensar em criar um espaço ali para inverter a lógica, onde pessoas que costumam ter os espaços de cultura ao lado das suas casas tivessem que fazer a travessia de volta. Esse projeto, que nasceu em 2006, tem o objetivo de pensar a descentralização da cultura, proporcionar esse espaço de troca de conhecimento em uma geografia desprivilegiada. A gente não precisa ir até o centro, a periferia também tem muito material cultural e esse é o objetivo da fundação desse espaço. Tudo o que eu aprendia na universidade eu queria levar ao meu grupo de teatro na periferia, fazer esse tráfego de informações. 

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E nessa época você ainda morava em Taboão com seus pais? Sim, mas pouco tempo depois casei. Eu sou viúva, meu companheiro, na época o meu marido, foi também um dos fundadores do espaço Clariô. Ele morava no Taboão, era mais velho que eu e tinha também uma trajetória na periferia, principalmente de teatro de rua. Juntamos a minha experiência na universidade, a dele de quase 20 anos trabalhando e a dos nossos outros companheiros. Minha relação com ele, que durou 11 anos até que ele falecesse, foi fundamental para esse espaço acontecer. 

“Enquanto eu tiver fôlego, vou falar das questões sociais que me incomodam. E espero que isso faça muito sentido para outras pessoas”
Naruna Costa

Até hoje você participa da rotina do espaço? O Clariô vive até hoje. É uma batalha porque não temos patrocínio nem incentivo, mas a gente faz questão de manter, inclusive porque a cidade, enquanto estrutura e políticas públicas, não se modificou nesse tempo. E eu estou lá, o Clariô é a minha vida, é onde nascem todas as minhas criações, onde eu respiro e me entendo como artista. Eu saio para estudar, fazer novelas, séries, mas quando faço a travessia de volta eu resgato todo o meu entendimento do que eu escolhi como artista.

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Como foi ganhar o prêmio da APCA com a peça "Buraquinhos", que aborda o genocídio da população preta no país? É claro que isso gera uma felicidade em nós que estamos na batalha muito tempo e queremos que a história seja contada também por outros pontos de vista. Ainda mais eu, que não só sou negra, mas que minha história no teatro se dá na periferia. É a mulher negra, mas também é a periferia, é a favela subindo naquele palco e conquistando esse prêmio que tradicionalmente foi destinados aos homens brancos da elite desse país. Eu não me sinto envaidecida pessoalmente por inaugurar esse espaço, mas tem uma felicidade em ver a possibilidade de um avanço histórico, de um passo que a gente conquista e vai ser difícil tirar da gente.

E quando apareceram essas outras atividades, como cantora, compositora e diretora? Eu fui descobrindo, mas acho que elas sempre estiveram naturalizadas em mim. Eu não entendo a arte de uma forma tão ocidental. Quando criança, eu gostava de cantar, de dançar, e quando eu vi o teatro eu falei: "nossa, cabe tudo, posso tudo". Mas eu não senti que eu precisava virar cantora para cantar, ou precisava virar diretora para dirigir. Eu acho que essa é a grande tecnologia da quebrada, a dificuldade faz a nossa formação. A gente inventa as coisas realmente para seguir em frente. Se estamos precisando de músicos, aprendemos a tocar, a compor.  

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E o grupo musical Clarianas? O grupo surgiu com o espetáculo “O hospital da gente”, o primeiro do grupo que teve grande repercussão. Ficamos três anos apresentando por vários lugares do país. Quando fui pesquisar sobre o tema, que falava das mulheres negras, veio um monte de cantoria, poesia. Foi quando surgiu as Clarianas, que é uma das coisas que eu mais amo fazer na vida. Para mim, essas cantadeiras urbanas, que é como chamamos, são um resgate de uma memória, de uma ancestralidade que faz parte de mim. É dividir um pouco a emoção de ser uma sobrevivente nesse rolê todo, que é você viver na década de 80 e de 90 em uma periferia extremamente violenta e virar artista, comentarista e denunciadora dessa realidade. É uma obrigação deliciosa, porque a gente é um grupo que traz o feminino em uma potência muito linda. 

Como é esse sentimento de ainda estar na periferia com o Clariô, mas também ocupar esse espaço maior na mídia, em grandes produções? É dúbio, porque a gente nunca sabe para que, exatamente, estamos contribuindo. Mas eu me apego nas demandas atuais, e a questão da representatividade é uma das pautas mais urgentes. Quando não nos vemos, não existimos. Nesse sentido, sinto que eu colaboro a criar mais uma existência da população preta. No fim da linha, sei que eu posso estar garantindo a sobrevivência de alguns. Muita gente me escreve, principalmente meninas pretas, dizendo que se sentiram inspiradas a serem atrizes ou escrever porque conheceram meu trabalho. Se isso ajuda esses meninos e meninas pretas, quero estar realmente mais exposta. Mas a Naruna aqui, no quietinho, apesar de atriz, gosta do anonimato, gosta do cantinho de silêncio. Mas esse é o preço que se paga e está tranquilo em relação a tudo que poderia acontecer se eu não tivesse feito o caminho que fiz. 

“É dureza olhar para todas essas questões que a série traz e pensar que não fomos capazes de ver nada daquilo e avançar em algo ”
Naruna Costa

O que você busca em seus trabalhos hoje? Para ser sincera, lá no fundinho, a gente deseja fazer milhões de coisas e não ter que falar sempre da dureza que é ser essa figura preta e que sofre todas essas demandas. Mas, infelizmente, é necessário. Enquanto eu tiver fôlego, vou falar das questões sociais que me incomodam, que me aguçam, e espero que isso faça muito sentido para as outras pessoas. Acho que esse é meu maior desejo enquanto artista. Que o novo disco das Clarianas faça sentido no debate que está acontecendo agora, que Irmandade faça sentido em 2019 para alguma discussão possível a respeito dessa tragédia que é o Brasil. E não que está o Brasil, como costumamos dizer. O Brasil é assim, ele foi fundado assim. O Brasil foi colonizado com sangue indígena e negro e a gente negou isso durante muito tempo. Contando a minha história, eu conto a história do país.  

Como foi voltar para a década de 90 em Irmandade? Foi bom e nostálgico poder relembrar esse período.  E foi muito interessante porque eu tinha conhecimento na causa. A Cristina é uma personagem muito complexa, muito difícil. Poder ter alguma coisa que eu pudesse me amparar e falar: "aqui eu me reconheço perto dela, porque eu também sou essa pessoa que, contrariando as estatísticas, conseguiu fazer essa travessia." A mulher virou uma promotora do Ministério Público da década de 90 sendo preta e periférica. E esse rolê, essa travessia que ela fez, eu não preciso inventar, porque eu sei o que é. Mas também é dureza olhar para esse momento e todas essas questões que a série traz e pensar que não fomos capazes de ver nada daquilo e avançar em alguma coisa hoje. O sistema carcerário, essa tática do encarceramento em massa, é muito cruel. Foi muito forte e intenso para mim.  

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E você trouxe outras vivências suas para essa personagem? Não, até porque seria muito dolorido para mim. Quando tratamos de questões que são muito próximas e doem muito, temos que tomar muito cuidado. Porque se virar uma questão pessoal, ela não vai interessar para ninguém, só para o terapeuta. Ela tem que ser universal, para alcançar não só a população negra, mas a branca também, a privilegiada, que acha que bandido bom é bandido morto. Todos tem que assistir a série e debater isso. Para isso, temos que ser maior do que as nossas próprias questões pessoais.  

Como foi viver esse sistema prisional brasileiro de perto? As primeiras filmagens foram na penitenciária e eu achei muito importante, já traz um impacto profundo. É a realidade que estamos contando e não podemos ser inocentes uma vez que estamos lá dentro e vemos os presos, as filas das mulheres nos dias de visita. É uma realidade impactante, pensar naquele lugar, naquele sol batendo cabeça, naquelas pessoas que não saem dali. Ter essa realidade na nossa frente, do nosso lado, no nosso corpo. Isso já garante um peso e uma veracidade fundamentais. É dolorido? Sim. Mas também é honroso poder fazer parte disso, poder ser livre e contar essa história. 

Teve um momento na série que te impactou mais? Foram dois momentos. Lá no presídio, a cena com o Seu Jorge, que é o encontro dos irmãos, foi uma cena muito preciosa para mim. Foi no começo das filmagens e no pátio do presídio, eu estava muito impactada. O outro momento foi conhecer as palafitas na casa da infância deles, que fica em Cubatão. Ver aquela comunidade feita com casas de madeira em cima do esgoto, uma precariedade, realmente me resgatou para aquele momento dos anos 90 ou até antes, só quem em 2019. 

A definição do que é o certo é muito explorada na série. Qual a importância disso para você? Eu acho esse o ponto mais interessante da série. Estamos vivendo, no Brasil e no mundo, um momento de uma bipolaridade de opiniões, onde todos achamos que estamos certos de alguma maneira. E não é possível que existam apenas duas respostas, que a gente não possa questionar todas elas. Essa ideia de relativizar o correto, a justiça, a moral, a lei, é fundamental hoje. Não é possível que o ser humano, com toda complexidade que tem, possa se resumir a um certo ou um errado, um bem e um mal, um bom e um ruim. Essa é a grande beleza da série e o grande dilema da Cristina. E a graça é que ela não vai sozinha, ela pega na mão do espectador e vai com ele até o final. Somos nós todos vivendo e nos questionando sobre esses valores. 

Créditos

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