por Carol Ito

Perifacon celebra a cena periférica de quadrinhos, games, cosplay e audiovisual, no Capão Redondo, extremo sul paulistano

“Tem gente pra caramba que consome e produz cultura nerd na quebrada”, conta Andreza Delgado, 23 anos, uma das organizadoras da primeira edição do Perifacon, evento apelidado de “a Comic Con da favela”, que rola no próximo domingo, 24 de março, em São Paulo. O evento terá conteúdos ligados a quadrinhos, cosplay, games e audiovisual, com formato próximo ao do megaevento Comic Con Experience (CCXP), que ocorre anualmente em São Paulo e, em 2018, reuniu mais de 260 mil pessoas em seus quatro dias de programação.

Na contramão da CCXP, cujos ingressos chegam a custar até R$ 160 por dia, toda a programação da Perifacon será gratuita e realizada durante um dia no Capão Redondo, bairro da periferia de São Paulo. “Os eventos de cultura pop, em geral, costumam rolar em lugares centrais da cidade, o que dificulta nosso acesso, sem contar a questão financeira”, explica Igor Nogueira, 24, o mais velho da equipe de sete pessoas que organiza o Perifacon. “É muito doido pensar que o Capão, que é o berço do rap e dos Racionais MC's, vai receber um evento de cultura nerd. A gente rompe a ideia de que a periferia só produz rap, funk e sarau”, observa Andreza, que mora na região. Além de quebrar estereótipos, outro objetivo do evento é conectar a cena periférica com marcas, editoras, produtoras e profissionais já consolidados no mercado.

Para a primeira edição, os organizadores esperam entre mil e dois mil visitantes. A programação inclui bate-papos com Marcelo D’Salete (quadrinista vencedor do prêmio Eisner, em 2018), Rafael Calça e Jefferson Costa (criadores da HQ Jeremias - Pele, uma releitura envolvendo o primeiro personagem negro da Turma da Mônica), Adriana Melo (ilustradora da Marvel), KL Jay (DJ dos Racionais MC's), e Rashid (rapper paulistano). Os visitantes também poderão ver a réplica oficial do Trono de Ferro, que aparece na série Game of Thrones, assistir a um concurso de cosplay e conhecer games com temáticas ligadas à cultura indígena. Outro destaque é a exposição Rap em quadrinhos, resultado de um projeto criado pelo ilustrador Wagner Loud e o youtuber LØAD, que retrata rappers brasileiros como super-heróis.

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Fora do eixo
Tudo aconteceu muito rápido desde dezembro de 2018, quando os amigos Matheus Polito e Mateus Ramos decidiram juntar uma galera para fazer uma feira de HQs, que seria viabilizada por campanha de financiamento coletivo. O interesse foi tanto que eles bateram a meta em apenas uma semana e receberam centenas de comentários positivos sobre a iniciativa nas redes sociais, o que motivou a ampliar o projeto. A ideia atraiu patrocinadores e uma agência de publicidade tentou comprar o evento, mas a equipe declinou. “Somos sete jovens oriundos de periferia e queremos produzir nosso próprio sonho. Ia perder um pouco o sentido”, conta Andreza. “Estamos virando noites, eu perdi meu emprego [como designer, por conta da produção do evento], mas tá valendo a pena”, relata Igor.

O motivo de tanto interesse, na visão dos idealizadores, é simples: havia uma demanda que não estava sendo atendida. “As pessoas estão produzindo um universo dentro das periferias, publicando HQs por crowdfunding ou por leis de incentivo. Mas sair da quebrada para expor num evento sai caro”, diz Igor. Na CCXP, por exemplo, uma pessoa que queira vender trabalhos no Artists’ Alley (área onde ficam as mesas para venda de HQs, ilustrações e outras produções gráficas) desembolsa, no mínimo, R$ 450 para expor durante os quatro dias do evento, fora os custos de impressão com os quais deve arcar. 

A Perifacon vai abrir espaço para artistas que costumam abordar o cotidiano das periferias em seus trabalhos, como é o caso do roteirista e editor Daniel Esteves, 36, que tem uma pequena escola de quadrinhos na zona leste de São Paulo. Durante o evento, ele vai lançar a HQ de ficção Último assalto (com desenhos de Alex Rodrigues), que narra a história de um morador de periferia que sonha em ser um grande lutador de boxe. “Os quadrinhos estão presentes na periferia há algum tempo, em pequenas iniciativas, mas uma empreitada do tipo da Perifacon ainda não era uma realidade em São Paulo. Falta investimento público e interesse comercial de organizadores de eventos”, avalia.

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Os quadrinhos criados e protagonizados por negros também terão destaque. “A cultura pop nos apresenta a maioria de personagens brancos. Então, o jeito da gente se ver é produzir nossa própria história”, diz a quadrinista paulistana Marília Marz, 27, que vai participar de um debate sobre representatividade negra nos quadrinhos durante o evento. O paulistano Robson Moura, 40, que também fará parte da mesa, acredita que a universo dos quadrinhos ainda é dominado por narrativas brancas e por isso é importante discutir o assunto. “Hoje vemos mais autores negros e protagonistas negros nas HQs, mas estamos apenas no começo. Quanto autores conhecemos que possuem vínculo com alguma editora?”, questiona.

A seguir, sete perfis de quadrinistas negros que estarão no Perifacon e também no Instagram.

Marcelo D’Salete (@marcelo.dsalete)

Um dos grandes nomes do quadrinho nacional, o paulistano é autor da graphic novel Angola Janga – Uma história de Palmares (2017), que narra a história do maior quilombo brasileiro, vencedora dos prêmios Jabuti e HQMIX, em 2018. Com a HQ Cumbe (2014) venceu o Eisner Awards, em 2018, na categoria melhor edição americana de material estrangeiro.

Lila Cruz (@colorlilas)

A quadrinista possui uma editora independente, a Quadrada, pela qual publica zines e compartilha cartuns e tirinhas nas redes sociais. Os quadrinhos trazem um tom autobiográfico e refletem sobre temas como os perrengues de se trabalhar como freelancer.

Robson Moura (@robs_moura)

Autor da HQ Black Friday, que discute o racismo a partir de notícias do cotidiano, além de Pérolas brancas – 30 coisas que todx negrx escuta de brancxs. No livro, ela ilustra situações vividas por pessoas negras quando ouvem frases e piadas como “você é um negão tipo exportação” ou “você é um preto de alma branca”.

Marília Marz (@mariliamarz)

A arquiteta usou a linguagem dos quadrinhos em seu trabalho de conclusão de curso e o resultado é a HQ Indivisível, que discute a cultura negra e oriental presentes no bairro da Liberdade, em São Paulo.

Johnatan Marques (@meusolhossaocastanhos)

Autor da série Oséias, que discute sobre a representatividade das minorias a partir de situações do cotidiano.

Flávia Borges (@breezespacegirl)

Em sua HQ Maré Alta, ela discute representatividade, empoderamento feminino, diversidade sexual e ansiedade.

Gustavo Nascimento (@gstnsc)

Faz quadrinhos autobiográficos que refletem sobre sua experiência como homem negro, percorrendo temas como racismo e sexualidade.

Créditos

Imagem principal: Divulgação

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