por Aline Cruz

Artistas trans usam ilustrações e quadrinhos para expor suas questões, combater o preconceito e mostrar que existem, têm voz e direitos

“Ser visto” não é uma batalha para quem já nasce com privilégios. Para homens e mulheres trans, porém, a busca pela visibilidade é uma questão de sobrevivência. Ser visto pela sociedade possibilita que o preconceito e a violência contra pessoas trans também se revele e demonstre seus resultados: a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) divulgou, na semana de Visibilidade Trans (de 25 a 29 de janeiro), que só em 2017 foram registrados 179 assassinatos de travestis ou transsexuais. Traduzindo: a cada 48 horas uma pessoa trans é assassinada no Brasil. 

“A pauta trans está mais midiática, não visível. Está nas novelas e na música, mas às vezes eu fico com a impressão de que essa abordagem mais midiática dá a sensação de que as coisas estão muito bem, só que na verdade não estão”, comenta Diana Salu, mulher trans, ilustradora e quadrinista. Diana é criadora de uma série de ilustrações no Instagram (acima e abaixo) onde apresentava, uma vez ao dia, o perfil de uma pessoa trans. “A ideia da série é mostrar que pessoas trans existem, que estão aí em vários lugares, fazendo várias coisas diferentes e são pessoas comuns.”

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Diana teve a ideia de começar o projeto a partir da foto de uma amiga, e decidiu que não só desenharia a foto, mas que faria um retrato por dia durante o mês de janeiro, em homenagem ao dia da Visibilidade Trans (29). “O que eu posso fazer, enquanto artista, é relativamente limitado. A ideia é realmente mostrar que essas pessoas fogem aos estereótipos, mas infelizmente a realidade da maior parte dessa população ainda é muito difícil e com muito pouco recurso”, explica. A série se encerrou no fim de janeiro, mas a ilustradora ainda pensa em postar novos perfis periodicamente durante o ano.

HQ para subverter

Luiza Lemos começou a fazer quadrinhos na adolescência.  Publicou a primeira HQ impressa em 2012, quando também passou a frequentar os eventos de quadrinhos. Luiza é autora da Transistorizada, HQ dedicada a contar como começou seu processo de transição e se assumiu como mulher trans, além de falar de temas como preconceito, feminismo e homossexualidade. “Comecei a transição dois anos atrás. Eu tinha uma publicação na época, mas achava que ela não me representava mais. Aí vi num programa de TV um dos apresentadores falando sobre quando era adolescente, ‘tristinho e encolhido dentro do armário’. Pensei ‘pô, isso dá um quadrinho’.” A quadrinista decidiu, a partir dessa ideia, contar como foi a sua própria saída do armário. “A partir daí comecei a fazer tiras sobre o meu cotidiano e as dificuldades de ser uma mulher trans, mas numa pegada de humor.”

Luiza acredita que o humor é muito importante para falar de assuntos polêmicos, mas faz uma ressalva: “O humor precisa ser uma voz do oprimido contra o opressor. Uma coisa que critico muito é um discurso de liberdade de expressão que é feito em várias áreas do humor que reforça estereótipos negativos. Esse tipo de humor só funciona para sacanear quem já está por baixo”.

A quadrinista acredita que o papel do quadrinho que produz é o mesmo das artistas trans da música e de outras artes: o de ampliar a representatividade das pessoas trans na sociedade. “É o meu papel não só como artista, mas como bancária também e como professora de quadrinhos. É de alguém chegar no banco e me ver lá trabalhando, mulher trans, travesti. A importância da Transistorizada como veículo de quadrinhos é a mesma importância que cada pessoa trans tem quando assume lugares dentro da sociedade que não são os historicamente destinados a elas.” A quadrinista deu uma pausa nas HQs da página no fim de 2017, mas pretende voltar a publicar suas tiras e trabalha em planos de publicar a Transistorizada em versão impressa.

 Vai lá: Diana Salu e Luiza Lemos

Créditos

Imagem principal: Luiza Lemos / Divulgação

Ilustrações de Diana Salu e Luiza Lemos

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