por Gabriela Borges

Ainda é difícil ver personagens lésbicas nos quadrinhos mainstream e muitas vezes a temática é confundida com pornografia (sim, 2015 e isso ainda acontece)

Dia 29 de agosto é comemorado o Dia da Visibilidade Lésbica. A data existe desde 1996, quando, quando aconteceu o primeiro SENALE (Seminário Nacional de Lésbicas) no Rio de Janeiro. Por conta deste evento, há 16 anos mulheres de todo o Brasil se unem neste dia para ocupar as ruas, debater a lesbiandade e lutar contra o machismo, o racismo, a lesbofobia e a transfobia. 

Em comemoração à data, fiz um post especial no Mina de HQ com algumas tirinhas que tratam da temática lésbica. E fiquei pensando que, se as mulheres de maneira geral lutam por mais espaço nos quadrinhos, fica ainda muito difícil ver personagens lésbicas nas HQs mainstream. Elas acabam ficando restritas a uma interpretação muitas vezes masculina em histórias de autores consagrados (como nas tiras de Luke e Tantra, do cartunista Angeli) ou à produção underground.

Em uma busca rápida pelo termo "quadrinhos lésbicos", por exemplo, o Google entrega uma maioria esmagadora de links para pornografias que nada tem a ver com HQs, salvas algumas excessões em textos teóricos, como esse aqui na Tpm.  

No exterior, alguns livros alcançaram um enorme sucesso, até mesmo entre quem não é leitor assíduo de gibis, como as graphic novels "Azul é a cor mais quente", de Julie Maroh, história francesa que foi adaptada ao cinema, e a premiada "Fun Home", autobiografia de Alison Bechdel, que ganhou uma adaptação na Broadway. A autora, inclusive, assina as tiras de "Dykes to Watch Out For" (algo como ‘sapatas para ficar de olho’) desde 1983, onde citou pela primeira vez um teste que avalia a presença e representação das mulheres não só nas HQs, mas em qualquer produção cultural de ficção, seja um filme, um livro, uma série ou até mesmo um game, que ficou conhecido como "Teste de Bechdel". Há também os mangás Shoujo-ai, voltados para o público feminino, que têm como temática a homossexualidade. Os mangás, de certa forma, valem uma análise futura paralela, já que são produzidos e segmentadas diferentemente do que fazemos no ocidente, com títulos para públicos específicos de jovens, adultos, meninas, meninos, hetero, homosexuais. 

No Brasil, há HQs que tratam especificamente da lesbiandade, como Katita, criada pela paulistana Anita Costa Prado. Seu livro foi publicado pela editora Marca de Fantasia, do paraibano Henrique Magalhães, que tem entre seus títulos diversos livros de temática homosexual - um espaço difícil de se encontrar em outras editoras maiores. Henrique é autor de "Maria", outra personagem lésbica publicada em jornais paraibanos desde 1975. As duas são mulheres gays que protagonizam histórias que representam a milititância, mas também uma vida normal e de aventuras que envolvem relacionamentos, sexo, amizade e trabalho.

Há algumas publicações independentes muito interessantes que também buscam focar em trabalhos de mulheres, cis ou trans, como a argentina Revista Clítoris, que teve quatro edições publicadas e virou livro em 2014. 

No Brasil, destaque para os fanzines colaborativos brasileiros Sapatoons Queerdrinhos, de Lin Arruda, ativista lésbica transgênero, e Zine XXX, criado pela carioca Beatriz Lopes.

 

Talvez quem esteja interessado em quadrinhos que saiam do lugar comum heteronormativo tenha que recorrer às editoras independentes ou ir além das primeiras páginas de busca do Google. Mas, a verdade é que tem, sim, um monte de trabalhos bacanas por aí que abordam a homossexualidade e divertem quem gosta de quadrinhos, independente da orientação sexual. 

Em tempo: esse mês, participo de dois debates sobre histórias em quadrinhos, em São Paulo. O primeiro acontece dia 14/09, na Social Media Week SP, edição brasileira de uma das maiores conferências de redes sociais do mundo. Junto com Daniela Karasawa, editora da Revista Inverna, e da cartunista Germana Viana, autora de “Lizzie Bordello e as Piratas do Espaço”, vou falar sobre mulheres que produzem quadrinhos impressos e digitais, e as vantagens da internet na divulgação desses trabalhos. Para participar, clique aqui. E no sábado, dia 19/09, vou mediar a mesa "Machismo, representação e feminismo nos quadrinhos", com a participação das cartunistas Camila TorranoLaerte Coutinho e Sirlanney, e Luciana Foraciepe, criadora do Maria Nanquin, no Ugra Zine Fest.

*Gabriela Borges é jornalista e mestre em antropologia, especializada em história em quadrinhos. Diretora de conteúdo na Agência Pulso e criadora do Mina de HQ.

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