”Fico triste ao ver
V de Vingança ainda
tão atual”

por Carol Ito

David Lloyd, criador do personagem que marca manifestações ao redor do mundo, fala sobre o autoritarismo e a política em tempos de internet

Máscaras que lembram personagens dos quadrinhos se tornaram comuns em manifestações políticas e, em geral, não são os super-heróis que inspiram quem vai às ruas. São figuras sem habilidades sobrenaturais que decidem confrontar o poder, como é o caso do Coringa (vilão do Batman, que ganhou um dos filmes mais comentados de 2019) e do mascarado V (protagonista de V de Vingança), que foram lembrados nas manifestações pró-democracia em Hong Kong (China), ao longo deste ano.

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O enredo da série de quadrinhos V de Vingança, que foi publicada entre 1982 e 1989, se passa no Reino Unido em um futuro distópico, em que um governo totalitário passa a oprimir as minorias e a controlar a mídia. “Eu fico triste ao ver V de Vingança ainda tão atual”, diz David Lloyd, 69, o desenhista da HQ, que esteve no Brasil em novembro. Ele participou da feira Inventum, em Pato Branco (PR), evento focado em tecnologia que, pela primeira vez, abriu espaço para os quadrinhos, com organização da Bienal de Quadrinhos de Curitiba.

Ao lado do britânico Alan Moore, que assinou o roteiro de V de Vingança, Lloyd foi responsável pelos desenhos e pela ideia de cobrir o rosto do protagonista com uma máscara inspirada nas feições do soldado Guy Fawkes, figura lendária que foi condenada à morte por tentar explodir a sede do Parlamento Britânico durante a chamada “Conspiração da Pólvora”, no início do século 17. “Foi um personagem revolucionário da história, que queria mudar o governo e a sociedade. Achamos que seria um boa ideia”, explica Lloyd.

A HQ ganhou projeção mundial com o lançamento do filme homônimo, em 2006, dirigido por James McTeigue e estrelado por Hugo Weaving e Natalie Portman. “Quando fiz a HQ, eu tinha algo a dizer, tinha um ponto de vista e isso foi mantido”, explica o quadrinista, que se declara um fã do longa. O sorriso enigmático do personagem V ganhou as ruas com o movimento Ocuppy Wall Street, em 2011, nos Estados Unidos, e, no Brasil, com as jornadas de junho de 2013.

Aproveitamos a passagem de David Lloyd pelo Brasil para bater um papo sobre a atualidade de V de Vingança, política em tempos de internet e suas impressões sobre o país.

Trip. Como foi a parceria com Alan Moore, em V de Vingança?

David LloydAlan escreveu o esboço com uma ideia muito simples: contar a história de um personagem que quer se vingar do governo e das pessoas que o colocaram em um campo de concentração. A gente não sabia muito bem como seria a aparência, quando tive a ideia louca de resgatar o Guy Fawkes, um personagem revolucionário da história que queria mudar o governo e a sociedade. Achamos que seria um boa ideia e passamos a discutir os capítulos. Gosto mais do início da série, quando tínhamos mais tempo para debater. Depois que vendemos para a DC Comics [em 1988], tínhamos que fazer tudo muito rápido.

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Você considera que a obra pertence ao universo mainstream dos quadrinhos? No começo, pensamos que não iria alcançar muitas pessoas, porque não se parece com uma HQ mainstream, tem uma mensagem cultural e política forte. Mas, no fim, alcançou um público amplo, inclusive de pessoas que não eram leitoras de quadrinhos. Então, chegou ao mainstream e foi além.

Por que isso aconteceu? Por que a história foi contada de uma forma simples. Eu evitei usar muitos balões de fala e não coloquei efeitos sonoros [ou onomatopeias], porque muitas pessoas que não leem quadrinhos acham isso estúpido ou associam ao público infantil. Os textos do narrador foram colocados dentro de retângulos, um recurso comum utilizado na linguagem da TV e dos videogames. Nos quadrinhos, muitos artistas optam por layouts irregulares, cheios de elementos decorativos. Pessoas habituadas a ler quadrinhos gostam disso, mas, se você quer atrair outro tipo de audiência, pode não funcionar bem.

O que mudou no mercado mainstream de quadrinhos desde que você começou? Não mudou muito. Quando comecei, o gênero dominante era super-herói, assim como é hoje, com o domínio de grandes editoras, como a Marvel e a DC. Existem alguns avanços em relação a como as histórias são feitas, porque incorporaram talentos da literatura, como Alan Moore e Neil Gaiman, para escrever os roteiros. E também surgiram as graphic novels [edições com melhor acabamento, que passaram a ser vendidas em livrarias e não mais em bancas]. Quadrinho é uma mídia fantástica, com muitas possibilidades, mas o público ainda consome mais super-heróis.

Você gostou da adaptação de V de Vingança para o cinema? O que mudou na sua carreira depois do filme? Eu gostei, sou fã do filme. Quando fiz a HQ, eu tinha algo a dizer, tinha um ponto de vista, e isso foi mantido. A [atriz] Natalie Portman fez um ótimo trabalho, estava muito consciente da ideia que estava representando. O que mudou na minha carreira é que passei a vender mais livros, basicamente.

Várias manifestações nos últimos anos fazem referência à obra. Por que ela segue tão atual? Por conta do crescimento do autoritarismo ao redor do mundo. A história é sobre a sociedade tentando confrontar um sistema de corrupção. As pessoas estão realmente desesperadas e precisam de alguém que as ajude a sair do caos. Tem o desemprego em massa, hiperinflação... Eu fico triste ao ver V de Vingança ainda tão atual. As estruturas de poder estão ficando cada vez mais poderosas.

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Você acha que as grandes corporações da internet fazem parte dessas estruturas de poder hoje? Não, falo sobre estruturas de poder corruptas, do governo. O Facebook, por exemplo, tem motivações políticas por trás, mas também pode ser uma ferramenta de oposição, ajuda a formar redes. Quando só tinha a televisão, por exemplo, as pessoas tinham acesso a apenas um ponto de vista.

O personagem V representa um líder popular, que inspira as pessoas a se rebelarem contra o sistema. Existem espaços para líderes como ele hoje? Líderes populares despertam paixão, têm o apoio das classes populares. O problema que temos no Brasil e na América [Estados Unidos] é que os líderes atuais têm apoio das pessoas mais ricas. Quem tem menos dinheiro tem menos poder. É a mesma situação na Inglaterra, na Itália. A situação é assustadora e triste, o autoritarismo está crescendo em todo lugar. O Lula foi um líder popular no Brasil, mas, se ele voltasse hoje ao poder, seria capaz de promover uma reviravolta em favor das pessoas mais pobres, superando os interesses pessoais? Eu não sei.

Você trabalha desde 2012 como editor da revista Aces Weekly, que publica HQs em versão digital. Como tem sido a experiência? O grande problema é que todo o conteúdo é publicado na internet, onde tem muito ruído. Tento encontrar um jeito de poder promover a editora somente on-line, mas ainda não encontrei. Por isso viajo muito, vou a eventos falar sobre isso, para atrair novos leitores.

Quantas vezes você esteve no Brasil? O que aprendeu sobre o país? Já perdi a conta. O Brasil tem muitos problemas, mas o clima é bom, as pessoas são ótimas. Sinto que são mais despreocupadas do que deveriam... Por exemplo, muita gente sai da pobreza e abraça completamente a nova condição, sem se lembrar do passado. Pobreza é como uma doença, pessoas mais ricas têm aversão às mais pobres. Isso é problemático, porque, se quem tem uma condição melhor não quer olhar para os que estão ao redor, nada muda.

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Imagem principal: Divulgação

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