Uber Black (Mirror)

por Camila Eiroa

Parece assustador avaliar as pessoas na vida real por estrelas virtuais? Parece. Mas o Uber está aí para provar que não estamos fazendo muito diferente dos seriados

Uma realidade em que pessoas se avaliam pelas redes sociais parece bizarra? É assim que o primeiro episódio da terceira temporada de Black Mirror, série da Netflix, retrata gerações nem tão futuras assim. Foi simpático no elevador? Cinco estrelas. Deu um fora no seu colega de trabalho? Uma estrela pelo comportamento e perda irreparável de mérito na roda de amigos. A obra de ficção causou burburinho nas redes sociais e o adjetivo usado pelos internautas foi "espantoso". No entanto, o cenário futurista está bem próximo da nossa realidade high tech e, talvez por isso, cause tanto desconforto. No episódio em questão, a personagem Lacie tem uma boa avaliação, mas não o bastante para conseguir certos privilégios, tal como alugar um imóvel em um residencial bacaninha com descontos exclusivos.

Em uma escala de 1 a 5, fazem parte do grupo privilegiado e invejado os que estão acima de 4,8. É tudo como uma conta de Instagram: exposição da própria vida em busca de likes, estrelas, pontos. Sorriso, gentileza e pequenas falsidades dão cor ao episódio onde todo mundo avalia todo mundo. Por lá, isso não diz apenas sobre popularidade, mas é decisivo na hora de dar ou tirar direitos e privilégios. É inevitável uma sensação de paranoia e seria engraçado se não fosse real. Por aqui, do lado de fora da Netflix, a Uber é um bom exemplo de como já funcionamos na base da avaliação virtual. No aplicativo, assim como no seriado, a pontuação vai de zero a 5. A publicitária Laura Amaral, de 35 anos, confessa que prefere pegar corridas com motoristas que tenham a avaliação a partir de 4,8 (qualquer semelhança é mera coincidência). E se o motorista tiver uma pontuação menor? "Cancelo", diz. Acostumada a usar o serviço todos os dias para voltar do trabalho, Laura explica a decisão: "Já peguei um cara ouvindo contos eróticos, que continuou mesmo comigo dentro do carro. Me sinto mais segura pegando motorista melhor avaliado. Claro, também já aconteceu de ser bem avaliado e mega escroto. Obviamente dei zero e a pontuação dele deve ter caído". Black Mirror feelings.

Para Ronaldo Lemos, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro e colunista da Trip, a metodologia é positiva. "O sistema de reputação da Uber e de outras empresas da economia do compartilhamento, como Airbnb, é na verdade um grande avanço. É uma evolução na forma como confiamos em outras pessoas. Claro que o episódio de Black Mirror é uma extrapolação, mas não deixa de ser interessante."

Flávio, de 37 anos, é motorista de Uber há um ano. Para ele, as "avaliações geram ansiedade pra caralho", mas mesmo assim avalia o sistema como positivo. "Mantém a qualidade do serviço", diz. O critério para a pontuação é pessoal, mas Flávio tem um palpite sobre sua evolução. "Mesmo fumando só quando não tinha passageiro no carro, acho que ficava cheiro. Quando parei, meus pontos aumentaram." A assessoria da Uber esclarece que os motoristas precisam ter média de 4,6 para continuarem utilizando a plataforma. "Lembrando que o usuário também pode ser desconectado se tiver uma média baixa. Por serem avaliações anônimas, isso garante que o serviço se mantenha saudável tanto para motoristas quanto para usuários."

“A avaliação traz benefícios inegáveis em alguns campos da vida, especialmente em países onde há déficit de confiança no outro como o Brasil”
Ronaldo Lemos

O também motorista da plataforma há 5 meses, Lucas, de 21 anos, questiona a forma como são avaliados. Ele é um dos que teve o aplicativo bloqueado por 48h e não sabe se isso foi por uma queda rápida nos pontos ou porque bateu 4,5. "Seria melhor se tivessem um canal pro motorista se defender, é estranho esse tipo de avaliação", conta. Dos dois, Flávio é o único que assiste à Black Mirror, e questiona: "É animal. Imagina se fosse daquele jeito com todo mundo?" 

No serviço, os passageiros também são avaliados, mas a pontuação fica um pouco escondida. Enquanto fechava essa reportagem, aprendi onde poderia ver quantas estrelas tinha e, confesso, me senti frustrada ao saber que minha média é 4,75 (num total de 5). Somos todos Lacie. Estamos viciados em uma boa avaliação? Até que ponto isso mede, de fato, nossa reputação? Ronaldo Lemos contemporiza que, em vez de basear essa confiança em impressões pessoais, passamos a avaliar a pessoa com base no seu histórico. E, para ele, isso é bom. "Em outras palavras, é um sistema de confiança objetivo, não baseado em impressões subjetivas. É claro que não dá para aplicar isso em todos os campos da vida, mas em alguns ele traz benefícios que são inegáveis, especialmente em países onde há um déficit de confiança no outro, como é o caso do Brasil", afirma.

De ficção, Black Mirror tem pouco. De espelho, muito.

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Não sabe como ver a sua pontuação de usuário no aplicativo da Uber? Trip ensina:

  • Abra o app e, no menu à esquerda, selecione a opção "Ajuda"
  • Em seguida, no menu "Relatar um problema",  selecione "Conta e pagamento"
  • Vamos lá, já está quase conseguindo saber sua pontuação. Agora é só clicar em "Configurações da conta e avaliações"
  • Por último, selecione "Como as avaliações funcionam?" e clique em "Enviar"
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Imagem principal: Reprodução

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