A volta de Rafael
Grampá e do
Cavaleiro das Trevas

por Carol Ito

Depois de um tempo afastado da cena de HQs, o gaúcho volta aos quadrinhos em parceria com o lendário Frank Miller, com quem vai dividir o palco na CCXP 2019

 Além de desenhista, Rafael Grampá, 41, é em essência um contador de histórias. Durante a entrevista, que dura cerca de uma hora, cria suspense, destaca os pontos de virada e não deixa furos de roteiro ao narrar sua trajetória no mundo dos quadrinhos. Depois de dar um tempo da cena de HQs, ele retoma com uma obra feita em parceria com ninguém menos do que o quadrinista norte-americano Frank Miller, autor de clássicos como a série Sin City (1991) e Batman: O Cavaleiro das Trevas (1986), sendo esta última uma HQ que marcou a entrada dos quadrinhos – até então, tachados como "coisa de criança" – no universo adulto.

Com 48 páginas, The dark knight returns: The Golden Child é a continuação da série Batman: O Cavaleiro das Trevas, que traz personagens da nova geração de super-heróis da editora DC Comics. A história, protagonizada pelos filhos da Mulher Maravilha com o Super-Homem, Jonathan e Lara Kent, se passa em uma Gotham City tomada por protestos contra líderes políticos. “É uma HQ que conversa muito com esse ‘acordar’ dos últimos tempos. Não é só política, é muito política”, adianta Grampá. Quem assina o roteiro é Frank Miller, enquanto Grampá foi responsável pelos desenhos. O encontro dos dois é uma das atrações mais esperadas da Comic Con Experience 2019 e vai rolar no domingo (08). 

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A HQ será lançada mundialmente pela DC Comics no dia 11 de dezembro (ainda sem previsão de chegada da edição brasileira), mas já vem causando polêmica. Em novembro, a editora norte-americana publicou uma arte de divulgação de The Golden Child no Instagram, que traz a imagem do protagonista vestido de Batman arremessando um coquetel molotov. A imagem começou a ser replicada fazendo referência aos protestos pró-democracia em Hong Kong, que tiveram início em março deste ano. Poucas horas depois da postagem, a DC retirou a imagem do ar sem dar justificativas, gerando mais comentários. 

“É uma HQ que conversa muito com esse ‘acordar’ dos últimos tempos. Não é só política, é muito política”
Rafael Grampá, quadrinista

Antes mesmo de lançar seu primeiro trabalho com quadrinhos, Grampá levou o prêmio Eisner, considerado o Oscar das HQs, por sua participação em uma antologia organizada por Fábio Moon e Gabriel Bá, em 2009. Com os holofotes voltados para seu trabalho, ele também publicou Mesmo Delivery, graphic novel que acaba de ser relançada pela editora Mino. A obra ajudou a impulsionar a cena de quadrinhos autorais no Brasil, que hoje conta com eventos e editoras especializadas. 

Em um papo reto com a Trip, Rafael Grampá fala sobre seu inusitado início de carreira, dá detalhes sobre The Golden Child, fala da relação com Frank Miller, política, machismo nos quadrinhos e indica artistas brasileiros para conhecer.  

Trip. Como começou sua relação com o desenho?

Rafael Grampá. Desenhar era minha brincadeira favorita. Enquanto as outras crianças brincavam, eu me afastava e ficava desenhando. No Natal passado, minha mãe revelou para mim que ela achava que eu era autista [risos], mas nunca me levou ao médico. No começo, eu curtia muito personagens de desenho da TV. Os quadrinhos vieram quando comecei a ir à banca com meus pais, que sempre compravam gibis da Mônica, da Disney, eu gostava de copiar os desenhos.

“É ridículo isso de quadrinhos sem política”
Rafael Grampá, quadrinista

Sua primeira experiência profissional foi na publicidade? Eu tinha dificuldade de arrumar emprego, apesar da minha mãe ficar me cobrando, também não fiz faculdade. Queria ficar em casa desenhando. O jeito era procurar trabalhos que envolvessem desenho, então, comecei a produzir estampa de camiseta, logotipos para os amigos. Com uns 15 anos, cheguei a trabalhar fazendo emblemas para uma empresa de bandeiras. Entrei na publicidade, de fato, quando fui trabalhar com animação, fazendo vinhetas de programas de TV na sucursal da Globo em Pelotas [RS]. Nesse meio tempo, dirigi um clipe de animação para uma banda chamada Bidê ou Balde, o que fez com que a Lobo, uma empresa de publicidade, me convidasse para trabalhar em São Paulo. Me mudei em 2004.

E fazia quadrinhos em paralelo à publicidade? Sim, seguia com as minhas histórias tentando achar um traço, um estilo. Trabalhei na Lobo por quatro anos e desisti para fazer quadrinhos, com uns 27 ou 28 anos. Essa decisão teve muito a ver com os [quadrinistas] Gabriel Bá e o Fábio Moon, que ficaram meus amigos e sempre me incentivavam. Trabalhei durante um ano para juntar uma grana e ficar um tempo parado, mas não tinha certeza de que iria dar certo, só a sensação de que tinha que fazer aquilo. Pensava “nossa, vou fazer 30 anos e nunca fiz nada pra mim mesmo”.

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Logo na sequência veio um prêmio Eisner. Como foi isso? Antes de lançar minha primeira HQ [Mesmo Delivery], participei de um fanzine chamado 5, bem independente, junto com os gêmeos [Fábio Moon e Gabriel Bá]. Ficamos amigos, queríamos fazer algo juntos. Eu nem fiz quadrinhos, mandamos algumas ilustrações. Inscrevemos o trabalho para concorrer ao Eisner e, para surpresa de todo mundo, ganhamos, em 2008.

Qual o impacto da antologia e do prêmio para a cena de quadrinhos da época? A galera viu que era possível fazer HQ no Brasil e ainda ganhar o Oscar dos quadrinhos. Nosso prêmio saiu na capa da Folha de S.Paulo, começou a bombar em todo lugar, foi o primeiro Eisner do Brasil. Isso impulsionou o mercado. Virou uma pauta muito interessante porque a mídia não falava mais com frequência de quadrinhos, desde a Chiclete com Banana, acho. 

Como lidou com a fama súbita que veio junto com o prêmio e o lançamento do seu primeiro trabalho com quadrinhos? O esperado é você ralar dez anos e tentar com muito esmero lançar no seu país. Na época, não tinha algo que se pudesse chamar de mercado de quadrinhos, não tinha Instagram. Então, no começo foi gostoso, publiquei minha primeira HQ, em 2009, e rolou um hype. Lembro de fazer o lançamento em São Paulo e vender muito gibi, esgotou muito rápido. Ao mesmo tempo, foi esquisito. Do dia pra noite começam a vir as matérias, as festas, os convites para palestrar e não estava preparado para isso. Foi legal para minha carreira, mas, como autor, foi uma certa distração. Gostaria de ter focado menos na "persona" e mais no trabalho.

Você e o quadrinista Rafael Coutinho tiveram um estúdio juntos. Como foi a experiência? Tivemos um estúdio em São Paulo, entre 2009 e começo de 2011. Nessa época, fizemos um grupo de estudo de roteiro na minha casa, junto com caras que hoje estão em grandes produções, como Dennison Ramalho, diretor do longa Morto não fala [2018], Denis Cisma, que dirigiu o clipe do Criolo [Boca de Lobo, 2018], Luiz Caroni, que dirige a série Pico da Neblina [lançada este ano pelo canal HBO], Fábio Moon e Gabriel Bá. Aquela fase foi muito importante para todos nós e o Rafa é meu parceiro para tudo, até hoje.

“Eu aprendi técnicas e manhas de um cara [Frank Miller] que basicamente mudou a cultura pop”
Rafael Grampá, quadrinista

E como seu trabalho foi parar na gringa? Logo depois que lancei a Mesmo Delivery, a Marvel me convidou para fazer algumas histórias como desenhista, e acabei negando porque queria fazer trabalhos mais autorais. Meu lance é contar histórias. Depois de um tempo, me convidaram para fazer uma HQ curta do Wolverine [Dear Logan, 2010], em que me deixaram criar a história toda. Na época, também queria fazer animação, roteiro, dirigir live-action. Então, no momento em que as pessoas esperavam que eu lançasse mais quadrinhos, eu parei e fui me testar como diretor. Acabei fazendo curtas, escrevi muitos roteiros.

Como começou o contato com o Frank Miller? Eu o conheci em 2015, num jantar em São Paulo. Foi uma grande surpresa, não esperava. Trocamos uma ideia rápida e ele disse que já tinha visto meu trabalho. Em 2016, fui para Nova York e me convidaram para conhecer o estúdio dele. A CEO da Frank Miller Ink. me avisou que poderia ser estranho conversar com ele, que ele não dá intimidade para quem não conhece bem. Mas foi completamente o contrário, ficamos quase três horas conversando. Ele me mostrou os originais gigantes de Sin City, contou milhões de histórias. No final, a CEO perguntou se eu tinha interesse em morar em Nova York porque o Miller queria ser meu mentor. Acabei não indo morar na cidade, mas voltei várias vezes.

Como é esse lance de mentor? É chegar num artista mais jovem e falar “cara, não precisa passar por tudo que passei, dá uma olhada nisso e aquilo”. É encurtar caminhos. Eu aprendi técnicas e manhas de um cara que basicamente mudou a cultura pop. Muita gente foi influenciada por ele. Ele explicou como ficou mais rápido no desenho, por que ele era tão produtivo, de onde veio a ideia para fazer Sin City.

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Como foi o processo de criação de The Golden Child? Em julho de 2016, o Miller pediu para eu propor uma história que envolvesse o Batman, estava me testando. Eu topei. Depois disso, li tudo dele, inclusive os roteiros, aprendi o jeito que ele escrevia. Criei uma história que antecede o Cavaleiro das Trevas, que chamei de Last days of Dark Knight. Mandei um e-mail com o roteiro e ele demorou três meses para responder. Quando, enfim, retornou, disse que estava impressionado, mas queria ir adiante e não voltar para atrás na história do Batman. Pensei: “Por que não me disse isso antes?”. Fui para Nova York e ele me mostrou ideias que tinha [para a série The dark Knight returns], todas muito boas. Criamos o roteiro de forma colaborativa e ele me deu completa liberdade para criar o visual dos personagens.

“Do dia pra noite começam a vir as matérias, as festas, os convites para palestrar e eu não tava preparado pra isso”
Rafael Grampá, quadrinista

Tem como resumir do que se trata a HQ? A história é centrada na nova geração de super-heróis da série Batman: O cavaleiro das trevas. Em Gotham City estão acontecendo protestos em relação à política, líderes com os quais as pessoas não estão felizes. A Carrie Kelley [que incorpora a Batwoman] coordena um grupo de jovens que está protegendo os protestantes pacíficos, contra protestantes que querem provocar um caos e produzir fake news como ferramenta para invalidar os protestos. É uma HQ que conversa muito com esse “acordar” dos últimos tempos, sobre um mundo em que os jovens ensinam os mais velhos a criar o futuro que querem.

É uma HQ bem política, né? Não é só política, é muito política. Vai gerar uma grande polêmica porque a gente cita nomes [de pessoas reais], mas não posso dar spoiler.

Nos últimos meses, tem rolado uma polêmica na internet com pessoas pedindo pelo fim da junção de quadrinhos com política. Afinal, existe quadrinhos sem política? Para algumas pessoas, política virou entretenimento. Elas falam que não gostam de política, mas, na verdade, gostam de ver o circo pegar fogo, contrariar. Falam isso porque não fazem parte das minorias e não sabem o quanto a política é necessária para elas. Com certeza, são homens, brancos, com mais de 40 anos. É ridículo isso de quadrinhos sem política, é tão non sense... Não tem aquela frase “você quer que eu desenhe?”, então, é isso que eu tô fazendo. Se alguém quiser entender o que penso sobre quadrinhos e política, que compre meu gibi, leia, discuta, fique aberto à discussão.

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Falando em minorias, existe um problema histórico de as personagens femininas serem hipersexualizadas, principalmente as dos quadrinhos de super-heróis. Isso é uma preocupação para você como desenhista? Me preocupo pra caramba. Fico revoltado de ter que existir uma luta para que isso acabe, a preocupação teria que ser algo natural. Como um homem que acha que a mulher não pode ser protagonista, chefe, ganhar mais que ele consegue deitar a cabeça no travesseiro e dormir em paz? Esses homens são muito inseguros e temem perder espaço.

Por que existem tão poucas artistas mulheres com projeção no cenário dos quadrinhos? Porque a menina ainda é criada para casar, cuidar do marido, brincar de boneca e casinha. Muitos pais ainda acham que desenhar é brincadeira de menino. E quando a mulher quer ser artista, eles falam que não vai dar certo. Vem de uma cultura antiga, onde mulheres não eram representadas e as mais jovens achavam que não ia rolar para elas também.

“No momento em que as pessoas mais esperavam que eu lançasse mais quadrinhos, eu parei e fui me testar como diretor”
Rafael Grampá, quadrinista

As HQs de super-heróis são infinitamente mais populares do que as autorais. O que falta para que as produções autorais conquistem mais público? Sinto que existe mais preconceito do pessoal que não faz HQ de super-herói com os que fazem, do que o contrário. Quadrinistas que fazem HQ autoral, experimental, torcem o nariz para super-herói. Mas eu nunca vi artista que faz super-herói torcer o nariz para quem faz autoral. Fica essa pergunta: quem precisa abrir a cabeça, essa união precisa surgir de qual movimento? O que estou fazendo em The Golden Child, por exemplo, é autoral e, ao mesmo tempo, tem a ver com o universo dos super-heróis. Vai me dizer que o filme do Coringa não é autoral? Tem que parar de fazer essa separação. Mas vou dizer que isso nunca vai acontecer, porque em qualquer vertente artística existem essas divisões.

Quais são os três quadrinistas brasileiros que mais te impressionaram nos últimos tempos? O Shiko está com um trabalho legal, outro artista que gosto muito é o Pedro Cobiaco, que tem muito talento e está crescendo cada vez mais. Também indico Jessica Groke, Lalo e Amanda Miranda, que estão da coletânea Tabu, lançada recentemente pela editora Mino. Acabei de descobrir o trabalho delas e é uma leitura essencial.

Créditos

Imagem principal: Rafael Grampá

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