Crônica do fracasso

por Fabricio Pamplona

O farmacologista Fabrício Pamplona conversou com Box Brown, autor de ”Cannabis - A história da ilegalização da maconha nos Estados Unidos”

A convite da Trip, recebi da Editora Mino um exemplar da graphic novel Cannabis - A história da ilegalização da maconha nos Estados Unidos, uma publicação densa, ácida e instigante. O autor, Box Brown, fez um ótimo trabalho em destrinchar as entranhas do processo de proibição desta planta no planeta, cujo epicentro político ocorreu nos Estados Unidos. Ou pelo menos é assim que a história nos conta. Lembra muito alguns capítulos do clássico The Emperor Wear no Clothes, de Jack Herrer, embora ele seja mais divertido e leve de ler, afinal as ilustras dos quadrinhos conseguem amenizar um pouco da raiva que a gente sente com as tramóias e maracutaias que são contadas.

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Ele tem um arco narrativo bem interessante, conectando o uso ritual ancestral na Índia, com as grandes navegações espanholas que exportaram o cânhamo para as Américas, a aceitação da maconha na cultura mexicana, já familiarizada com a psicoatividade do cactus peiote e dos cogumelos psilocibes, a migração mexicana para os Estados Unidos, e lá finalmente o embate com a cultura branca racista americana, que foi o estopim para a perseguição desta planta, cujo hábito de fumar era alegadamente "coisa de chicano". É uma história de mil anos contada em 250 páginas bem ilustradas. E por tudo que sei, é uma descrição acurada de como as coisas aconteceram, com alguns detalhes que eu não conhecia. 

Por exemplo, a participação dos mórmons, que rumaram ao México como exilados e na volta trouxeram conhecimento do poder inebriante da Cannabis (e nefasto, pelas suas percepções) influenciando fortemente a legislação no estado de Utah em 1915. Para todos os efeitos, até onde eu sabia, o principal estado em que  esse "embate cultural" tinha acontecido era o Texas, justamente por ser rota migratória dos mexicanos, e onde a maioria deles se instalaram. Depois, houve uma forte relação da planta com os artistas livres de New Orleans, e diz-se que o nascimento do jazz e a improvisação têm uma forte intimidade com a cultura da maconha. "Só podia ser, som de maluco, coisa de maconheiro" - não sei se exatamente com essas palavras, mas certamente essa frase já foi dita. Emendando na sequência com um provável "manda prender". 

Parece brincadeira, mas é praticamente nesses termos que se deu o início de tudo. Não tem a ver com ciência, não tem a ver com farmacologia, não tem a ver com risco à saúde, nem nada disso que a gente houve falar —  e que realmente deveria pautar esse debate. Tem a ver com conservadorismo, discriminação racial, perseguição aos imigrantes, choque cultural, crise de emprego, aspectos religiosos e o contexto geral de repressão e a mentalidade policialesca do início do século 20 nos EUA. Isso se dá, por exemplo, no contexto em que houve a promulgação da Lei Seca, proibição da venda de bebidas alcoólica entre 1920 e 1933.

Há quem diga que a repressão também teve uma participação importante do lobby da indústria de tecidos de algodão, e da indústria química, que, com o advento dos tecidos sintéticos, também via a fibra de cânhamo como um grande competidor. No livro de Jack Herrer, por exemplo, ele enfatiza que as primeiras calças da famosa marca Levi's eram na verdade feitas de cânhamo, e que só depois o jeans (feito de algodão) virou o carro-chefe da marca. Além disso, a DuPont acabava de lançar o nylon...

Mas diria que o ponto principal a ser enfatizado é a vida e obra de um personagem muito polêmico: Harry Anslinger. Primeiro comissário do serviço de narcóticos dos Estados Unidos, manteve-se no cargo por 32 anos, período em que se tornou o "inimigo número 1 da maconha". É relevante para a história mencionar que Anslinger foi nomeado a pedido do tio de sua esposa (Andrew Mellon, político e diplomata), dono da petroleira Gulf Oil e um dos maiores acionistas da inovadora empresa química DuPont. Por isso, os motivos iniciais da cruzada de Anslinger eram econômicos: o cânhamo batia de frente com a indústria petroleira e química, seja com o óleo das sementes e com o papel, seja pelos tecidos feitos a partir de suas fibras. A abordagem do comissário ficou mais rígida mais tarde, uma vez que o primeiro argumento, econômico, "não colou". A narrativa derivou para algo muito mais forte e convincente: "A maconha deixa louco, transforma os jovens em assassinos estupradores. Cuidado com suas filhas". As falácias eram muitas: "Há rumores de que dá superforça aos mexicanos, e é por isso que eles estão roubando os trabalhos dos americanos. Mas cuidado, sob efeito dessa erva, eles são muito perigosos", dizia-se à época. 

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A verdade é que todo e qualquer aspecto percebido como negativo da cultura mexicana passou a ser atribuído à maconha, lógica que, lentamente, passou a valer para qualquer "inimigo" da cultura conservadora branca americana, em especial, os artistas. Os cientistas tiveram um papel totalmente secundário, mas foram atuantes em estudar e relatar que não havia qualquer motivo médico que validasse a proibição. Mas isso foi sumariamente ignorado por Anslinger, afinal, não era conveniente (já falei sobre o conhecido "Relatório Schaffer" em minha página no Medium). E vamos à conclusão do relatório: “Considerando o número de preocupações sociais na América contemporânea, concluo que a maconha não representa, em nossa cuidadosa avaliação, um grande perigo. Sua repressão não é recomendada”. Ao invés dessa informação, a narrativa que se destacou envolvia histórias fantasiosas contadas nos periódicos da rede de comunicação do milionário conservador William Randolph Hearst. A maconha virou figurinha carimbada nas folhas policiais e criminais, tendo virado até "artista de cinema" com o Reefer Madness (1936), produto de exportação da indústria cinematográfica americana da época, que retratava a maconha como a "erva do demônio", que incitava a libido das jovens americanas e as faziam praticar libertinagens, muitas vezes com jovens de “famílias de bem” que se tornavam loucos sanguinários ao fumar um baseado. 

 

Mas pera aí! Se tudo isso supostamente foi construído com base em mentiras e interesses pessoais, não teve ninguém que se levantou publicamente contra? Ô, se teve. O primeiro contraponto foi dado pelo prefeito de Nova York Fiorello La Guardia, que, cético que era em relação aos argumentos de Anslinger, encomendou uma nova pesquisa independente. Importante enfatizar: foi uma pesquisa com avaliação psicológica de indivíduos sob efeito da maconha, em diversas doses diferentes. Esse trabalho mostrou que a maconha não tinha qualquer influência sobre a moral dos indivíduos, embora, conforme retratado nos quadrinhos, os deixasse mais tolerantes com os problemas, menos ambiciosos e, em alguns casos, desinteressados. Eu entendo como isso possa ser interpretado como um efeito negativo por cidadãos conservadores, mas, como farmacologista, não consigo enxergar aí algum efeito ou risco de tal monta que justifique a proibição do consumo, e a erradicação dessa planta da face da terra. Ao contrário, há quem se identifique e entendo que essa seja uma decisão de cunho individual. Apesar disso, o estudo foi basicamente ignorado e não teve qualquer influência sobre a legislação.

Ao contrário, a resposta foi endurecer as leis foram e intensificar a perseguição. Na lei assinada pelo então presidente Harry S. Truman, a Cannabis era igualada à heroína. Maior distorção farmacológica não há. A justificativa foi uma pretensa “Epidemia de Drogas” no país. Iniciou-se uma perseguição ferrenha aos artistas e defensores, particularmente aos músicos de jazz, cuja cultura era associada à maconha. Para "dar o exemplo", foram presas algumas celebridades, como o baterista Gene Krupa, o trompetista Louis Armstrong e a cantora Billie  Holiday - ela se tornou uma espécie de obsessão de Anslinger. Artistas, negros, mulheres, era uma verdadeira caça às bruxas, com prisões midiáticas que davam repercussão imediata e apoio à causa na parte branca (e poderosa) dos Estados Unidos. 

Foi também ele, Anslinger, que criou uma das mentiras mais repetidas sobre a maconha em todos os tempos: a “teoria da porta de entrada”. É uma ideia simplista, que faz uma associação direta entre drogas cujos padrões de uso e perfis de usuário são extremamente diferentes, como a maconha e a cocaína). O mais provável é que os usuários migrem de uma substância para outra por uma questão de disponibilidade nos locais de uso ("na biqueira"), assim como os americanos migraram do álcool para a maconha quando ambas eram substâncias proibidas usadas em bares clandestinos.

Dando um fast forward, porque, afinal, você ainda vai ler os quadrinhos de Box Brown, a história termina com a convenção mundial de narcóticos de 1961, que, sob forte influência americana, impõe o ambicioso objetivo de erradicar as drogas ilícitas em 50 anos —  o que deveria, portanto, ter virado realidade há exatos 8 anos. Não tenho notícia de que tenha funcionado. Essa convenção estabeleceu diferentes classificações para as drogas e, curiosamente (ou convenientemente, para a indústria farmacêutica), os sintéticos foram classificados como menos perigosos do que seus análogos naturais (exemplo: codeína e extrato do ópio), enquanto a Cannabis foi equivocadamente equiparada à heroína. O álcool e o tabaco foram sequer classificados. Na canetada, sem qualquer rigor científico. Uma decisão completamente arbitrária e política.

Sabe como essa situação começou a mudar? Em 1976, Bob Randall alegou uso medicinal para glaucoma para escapar da prisão. Ele foi o “paciente zero" e gerou o início do programa de cultivo para uso medicinal da Universidade do Mississippi.

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Mesmo no contexto da fraquíssima campanha de intolerância "Just say no", encabeçada pelo presidente Ronald Reagan, a ideia do uso medicinal ganhou força e prosperou. Os pacientes HIV positivo, na década de 1980, usavam a erva mexicana para aliviar seus sintomas e, com isso, foram criados os clubes de Cannabis Medicinal dos EUA. Ilegais, porém mais seguros do que cruzar a fronteira texana com drogas, do ponto de vista do paciente. Culminou na proposição 215 que permitia prescrição médica e retirava a posse de Cannabis para uso medicinal como ofensa criminal... enfim, o começo do fim da guerra às drogas.

Qualquer semelhança com a realidade que estamos vivendo neste exato momento não é mera coincidência. Com o intuito de me proteger, vou me abster de mencionar nomes, mas temos os mesmos personagens aqui, o nosso Anslinger apoiado pelo presidente conservador, o pesquisador mentiroso mal intencionado, a indústria interesseira de produto sintético fazendo lobby, a nossa paciente zero, a universidade que quer plantar... Está tudo aí. O Brasil está apenas, como sempre, atrasado, neste caso, pouco mais de 30 anos.

E, assim, ainda estamos discutindo "se o canabidiol é medicinal para epilepsia", coisa que um ilustre pesquisador brasileiro já publicou há 35 anos atrás. Estamos discutindo o futuro com um olho atento no retrovisor. Curiosamente, estamos vendo o desenrolar de uma história que já se sabe como termina. É inevitável, apenas questão de tempo para que a nossa sociedade desperte. Vale a leitura para uma forma prazerosa de se entender como chegamos até aqui. Agora é daqui pra frente: que tal pularmos direto pro final feliz? 

Trip. A "campanha" de proibição da maconha é ilustrada como um fraude científica que dá vazão à perseguição racial e cultural. Você considera que os "maconheiros" ainda sofrem preconceito hoje em dia? Quão "cool" é fumar maconha em 2019?
Box Brown. Com certeza. Ainda vemos pessoas sendo demitidas ou sendo perseguidas no trabalho por admitirem o uso de maconha e coisas assim. Mas eu particularmente gosto de perguntar pras pessoas se, quando elas usam seu iPhone, elas se lembram que o Steve Jobs era maconheiro. Pelo menos nos EUA, as pessoas ainda são presas diariamente pelo uso de maconha. Mesmo nas áreas em que o uso medicinal é legalizado, por exemplo em New Jersey, onde moro. Nós ainda estamos presenciando cerca de 30 mil pessoas sendo presas por ano somente no estado de New Jersey por porte de maconha. 

Os EUA lideraram a proibição da maconha no mundo (inclusive nas Nações Unidas). Agora, estamos vendo o Canadá como o grande promotor da legalização e re-classificação da planta ao redor do mundo. Qual é a diferença entre estes países vizinhos em relação à política de drogas? O Canadá parece estar um passo à frente dos EUA, mas, ao mesmo tempo, estou ouvindo sobre vários problemas com o sistema adotado lá, porque ele ainda permite a existência do mercado negro. Eu acho que nós ainda precisamos encontrar uma forma do consumidor se certificar de que está tendo acesso a uma maconha de qualidade, mas sem regular isso a tal ponto que o consumidor se torne refém de um cartel ou controle total do fornecimento pelo governo. Quanto mais eu penso a respeito desse tema, mais me parece desejável que tenhamos um sistema mais livre, em que cada um possa cultivar, comprar ou vender sua maconha da forma que quiser. Ouço muita gente falando da natureza autorregulatória do mercado e de como esse fator resolve todos os problemas, mas sou cético quanto a isso em relação ao comércio de  maconha.

Você acha que fumar maconha traz algum benefício? A maconha tem um grande valor medicinal para diversas doenças e é evidente que ela também pode ser uma substância recreacional bastante segura. E, de verdade, quem é que diz que o uso recreativo não é medicinal também? Afinal, as pessoas sofrem bastante com o estresse no seu cotidiano e precisam ter alguma forma de relaxar. Há diversas formas de se atingir esse objetivo e, para várias pessoas, essa forma é usando maconha. Comparada a outras substâncias recreativas, eu considero a maconha bastante segura.

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