por Carol Ito

A história do maior quilombo do Brasil ganhou versão em quadrinhos em Angola Janga – Uma história de Palmares, pelas mãos de Marcelo D’Salete

A graphic novel Angola Janga - Uma história de Palmares tem 432 páginas e foi baseada em pesquisas feitas pelo quadrinista Marcelo D'Salete durante 11 anos. Ele investigou registros sobre o quilombo, seus principais personagens e estratégias de resistência à escravidão no período colonial. O livro foi lançado em novembro pela editora Veneta e está previsto para ser lançado em Portugal e França no próximo semestre.

Ele conta que o nome escolhido para o livro vem da língua kimbundu e significa “pequena Angola”, que é como os integrantes se referiam a Palmares, formado por mais de dez mocambos, que abrigavam entre 20 e 30 mil pessoas. “Era um outro país, uma outra nação dentro do território pernambucano. Angola Janga acaba atendendo a uma necessidade que é falar de um período histórico muito rico e que as pessoas não conhecem”, acredita D`Salete.

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Em novembro deste ano, a Serra da Barriga, que abrigou o quilombo no período colonial, recebeu o título de patrimônio cultural do Mercosul, o que significa que governo e sociedade civil devem se comprometer ainda mais com a conservação e gestão da área. Em 2007, foi fundado o Parque Memorial Quilombo dos Palmares, em Alagoas, onde está localizada parte da região.

Marcelo D’Salete é professor, mestre em história da arte pela Usp e publica quadrinhos há cerca de 17 anos. É autor de Noite Luz (Via Lettera , 2008), Encruzilhada (Leya, 2011) e Risco (Cachalote, 2014), HQs que tratam dos conflitos urbanos, com olhar atento para as questões raciais. A graphic novel Cumbe (Veneta, 2014) o colocou entre os quadrinistas mais proeminentes do Brasil e foi publicada em Portugal, França, Estados Unidos, Alemanha, Austria e Itália.

Em entrevista à Trip, ele conta que o objetivo de Angola Janga é fomentar o debate sobre Palmares, destacando que esse é apenas o episódio mais conhecido da história de mais de três séculos resistência dos escravizados.

De onde veio a ideia de fazer uma HQ sobre o Quilombo de Palmares? Comecei minhas pesquisas em 2006, a partir das aulas que tive com o professor Petrônio Domingues, num curso de História do Brasil com foco na população negra. Depois trabalhei no Museu Afro Brasil, onde tive boas referências tanto de fontes históricas quanto de imagens de artistas da época, como Albert Ekhout, Frans Post e Debret. O que me chamou atenção foi a possibilidade de construir uma boa história a partir dos documentos disponíveis. 

Como foi o processo de criação? Comecei o roteiro em 2006 e levei 3 anos para finalizá-lo. No começo achei que eu seria uma história de 200 páginas, mas terminou com 430 e todas foram desenhadas em tamanho A3. Eu queria que a narrativa funcionasse enquanto ação e movimento, o foco não era fornecer dados históricos, porque o glossário e os  mapas já teriam essa função. Gosto muito de ver a página só pelas imagens, depois pensar no texto.

O que os livros didáticos não contam sobre Palmares? Palmares tinha ao todo cerca de 30 mil pessoas. Em geral pensam que era um mocambo só que abrigava algumas centenas de pessoas, mas era algo totalmente organizado e articulado. Era uma outra nação dentro do território pernambucano. É algo incrível que a gente desconhece quase por completo. A gente ouve muito falar de Zumbi e do mocambo de Palmares, que acaba em 1694, mas ele resiste até pelo menos 1710, só que com o formato de guerrilhas. A principal estratégia dos palmaristas era não ter um local fixo. Eles ficavam trafegando de um mocambo para outro trabalhando em cima do cansaço das tropas, que não conheciam o local.

Zumbi foi um figura controversa? O que a gente sabe é que Palmares era um local fortemente militarizado, até porque eles lutavam contra grupos com 100, 400 soldados praticamente todo ano. Os palmaristas atacavam os engenhos e capturavam também pessoas que poderiam não querer ir para palmares, principalmente, mulheres. No princípio, eles eram prisioneiros, mas obviamente não era o mesmo tipo de escravidão do período colonial. É possível que tenha sido uma forma de vigiar quem entrava e saía do mocambo. Quando esses prisioneiros participavam de ataques contra os engenhos eram libertos.

Você acompanha os trabalhos de outros quadrinistas negros? Quais? Posso indicar o Robson Moura (HQ Black Friday), o Geuvar Oliveira (Mugambi) e o Maurício Pestana, que foi editor da Revista Raça e começou publicando quadrinhos no Pasquim.

Quais suas referências fora dos quadrinhos? Eu cresci ouvindo rap, fez parte da minha formação política e artística. Hoje em dia têm muitas linhas do rap ligadas à igreja, existe até o rap gospel... Parece que eles acabam não discutindo algumas coisas importantes, como, por exemplo, a religiosidade de origem africana, como candomblé e umbanda. Eu sinto falta que os rappers tragam uma história de resistência, que não passe apenas por essas correntes evangélicas. O Rincon Sapiência consegue resgatar isso muito bem, os clipes têm uma estética africana muito interessante também. 

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Créditos

Imagem principal: Marcelo D'Salete

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