por Anita Pompeu
Trip #278

Há 35 anos, Valdeci Ferreira abriu mão de se dedicar à própria vida para ser voluntário em um presídio em que as chaves estão nas mãos dos condenados. Bandido bom, para ele, é bandido recuperado

O som alto da televisão anuncia uma vinheta já bem conhecida dos brasileiros. Era fim da tarde quando o plantão do jornalismo da Globo noticiava o atentado contra o presidenciável Jair Bolsonaro, esfaqueado enquanto participava de um ato de campanha em Juiz de Fora, Minas Gerais. A 350 quilômetros dali, na mineira Itaúna, a notícia chegava para a equipe da Trip em um contexto um tanto simbólico. “O que houve?”, pergunto enquanto me aproximo da TV. “Tentaram matar o Bolsonaro”, Jefferson responde.

Jefferson é detento – ou melhor, “recuperando” – e está cumprindo pena pela segunda vez, recém-chegado do sistema prisional comum. Educado e solícito, conversa e responde naturalmente às perguntas curiosas que surgem sobre o seu passado (no crime), num papo rápido, interrompido porque a equipe precisava partir. Já fazia sete horas que a Trip estava naquela Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (Apac), um tipo de prisão humanizada, que tem revolucionado o sistema carcerário no Brasil e no mundo, com baixos índices de reincidência (cerca de 20%, contra até 85% do sistema convencional), baixo custo per capita (um terço dos R$ 3 mil que custam um preso comum) e ausência da polícia.

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Espírito de luta

Porém, não estávamos lá simplesmente para apresentar as Apacs. O motivo da visita era conhecer Valdeci Ferreira, 56 anos, grande disseminador desse peculiar modelo pelo Brasil e pelo mundo (já são 49 instalações no Brasil e o sistema tem sido parcialmente aplicado em 23 países). Ele é discípulo do advogado e jornalista doutor Mário Ottoboni, que criou a metodologia em São José dos Campos (SP), em 1972. Fincado no tripé amor, disciplina e confiança, o método segue uma terapêutica penal própria, constituída por 12 elementos fundamentais, como a participação da comunidade, o trabalho e a espiritualidade. Nas Apacs, todos os recuperandos são obrigados a estudar também – muitos chegam com ensino fundamental incompleto, e saem com diploma de ensino médio e até superior.

A aproximação de Valdeci com o sistema carcerário se deu nos anos 80 de forma espontânea e natural, por conta de seu envolvimento com a igreja e de sua atuação como missionário, visitando creches, asilos, hospitais. Até que chegou o dia de visitar um presídio. “Fui embora desorientado. Nunca me senti tão pequeno e impotente diante de uma realidade tão grande de dor, sofrimento e abandono. ‘O que faltou na vida deles que não faltou na minha.’ Ou: ‘O que eu tive que eles não tiveram?’, eu me perguntava”, lembra hoje, mais de 30 anos depois de iniciar o trabalho que ainda faz como voluntário, agora como diretor-­executivo da Fraternidade Brasileira de Assistência aos Condenados (FBAC), que congrega as Apacs e fiscaliza a correta aplicação da metodologia, entre outras funções.

Formado em direito há mais de 20 anos pela Universidade de Itaúna (MG) – também cursou teologia na PUC-Rio –, Valdeci, que vive de seus livros e palestras, nunca participou de uma audiência sequer no fórum. Sua atuação se dá de forma gratuita e na área de execução penal. “Foram milhares de pedidos de progressão de regime, de livramento condicional, de indulto, mas nunca recebi um centavo como advogado. Na verdade, fiz o curso de direito para me defender e defender essa causa que eu abracei há tantos anos”, conta, enquanto apresenta os espaços da Apac: a padaria, a cozinha, a horta, a oficina em que os recuperandos montam parte dos aparelhos de ar-condicionado de carros Fiat, o parquinho, as salas de aula e as celas, cujas chaves ficam sob os cuidados deles próprios – não há carcereiros.

Um dos homenageados deste ano do prêmio Trip Transformadores por sua atuação junto a este revolucionário sistema prisional, Valdeci fala a seguir sobre origem, passado e presente, renúncias, e a chaga que é o sistema prisional brasileiro: “Uma ferida exposta em que ninguém quer tocar o dedo”.

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Trip. Você dedica sua vida ao trabalho na Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (Apac), um projeto que mexe com tudo o que normalmente pensamos sobre o sistema prisional. Como se deu essa aproximação?

Valdeci Ferreira. Fiz a primeira visita [aos 21 anos] e comecei a voltar regularmente à cadeia de Itaúna. Aos poucos, fui percebendo que havia outras pessoas que também faziam trabalhos individuais como voluntárias. Fui reunindo, mapeando essas pessoas, até que fizemos uma primeira reunião e criamos a Pastoral Penitenciária. A partir daí, o trabalho ganhou um pouco mais de solidez. Era mais ou menos 1986 e, visitando mais frequentemente a cadeia, fui conhecendo melhor a situação.

E era uma tragédia. Só tinha água duas vezes por semana na cadeia. Era aquele inferno no calor, porque as celas eram superlotadas. Fui fazendo amizade com os vizinhos e, quando ia à cadeia, saía recolhendo gelo nas casa deles. Os presos achavam ótimo beber água gelada, mas a polícia não admitia: como é que pode um preso beber água gelada? Via aqueles cobertores sujos, dando micose, com percevejos, baratas. Me falavam que não tinham como lavar, porque eles lavavam as roupas no próprio banheiro, nos baldes. Aí comecei a levar os cobertores para lavar em casa. Carreguei muito cobertor, muita trouxa de roupa na cabeça para lavar em casa. A primeira briga que arrumei foi com um colega da república. Ele falou: “Se você insistir em lavar roupa de preso no mesmo tanque que eu lavo as minhas roupas, não vai dar para você continuar aqui”. Eu saí no dia seguinte. Não tinha onde ficar e acabei indo morar na casa paroquial. Pedi para o padre me acolher, morei um ano lá. A missão é assim, a cada tempo ela tem as suas necessidades.

E o que a missão exige de você hoje? Exige que eu fale inglês, italiano, espanhol, para poder me comunicar, levar a mensagem da Apac para outros povos, outras culturas. Eu sei que, depois de algum tempo, a gente viu que a maior necessidade na cadeia era construir um pátio para os presos tomarem sol, onde pudessem se encontrar com os familiares e em que a gente também pudesse estar com eles, fazer uma celebração. Decidimos construir esse pátio na cadeia, fizemos muitíssimas campanhas e fomos percebendo o quanto o preconceito em relação ao preso está arraigado na nossa cultura, aquela ideia de que ele tem que sofrer, tem que morrer, “bandido bom é bandido morto”... Tudo isso foi muito difícil, perceber essa resistência por parte da sociedade.

Em quanto tempo vocês conseguiram construir o pátio? Demoramos quase dois anos. O dia que a gente inaugurou foi muito bacana, teve uma missa de manhã, foi a primeira vez que a gente pôde ficar no mesmo espaço que os presos. Fomos embora e eles continuaram lá jogando bola, felizes. À tarde, eles subiram uns nas costas dos outros e cinco presos fugiram. Aí percebemos o quanto o trabalho era duro e que não ia ser uma tarefa fácil. A gente se deu conta de que o preso é sacana, de que ele trai. Fomos perdendo aquela ingenuidade, aquela ideia romântica. Mas, afinal, são pessoas, humanos, e isso foi muito duro. 

Que tipo de problemas vocês tiveram que enfrentar? Nos oito primeiros anos, fomos processados 17 vezes. A primeira ação foi justamente por facilitação de fuga, fomos acusados de ter construído um pátio na cadeia para os presos fugirem. Lembro que, depois de uns dois anos, os próprios presos falaram: “Valdeci, se você não fizer o curso de direito, se não virar advogado, vai acabar vindo cumprir pena com a gente”. Fui acusado de tudo o que você puder imaginar, até de ter pegado dinheiro de preso para viajar de avião. Imagina, só fui viajar de avião muitos anos depois. Naquela época, eu só tinha uma bicicleta, em que eu andava para todo o lado em Itaúna e que foi roubada na porta da cadeia. Acabei fazendo o curso de direito.

Você atuou como advogado? Sou formado há mais de 20 anos, mas nunca fiz uma audiência no fórum. Sempre trabalhei gratuitamente na área de execução penal. Foram milhares de pedidos de progressão de regime, de livramento condicional, de indulto, mas nunca recebi um centavo como advogado, nunca fiz uma audiência. Fiz o curso de direito para me defender e defender essa causa que abracei há tantos anos.

Como você conheceu o método Apac? Depois de três anos da minha primeira visita ao presídio, descobri o método da Apac através de um livro do doutor Mário Ottoboni, que é o idealizador [da Apac]; sou apenas um discípulo e disseminador da metodologia. Fui a São José do Campos para conhecer in loco aquela experiência. Voltei para Itaúna convencido de que aqui nós iríamos ter uma Apac, uma prisão sem polícia.

E como isso aconteceu? Certamente que os desafios foram muitos, sobretudo o de mudar a mentalidade de que o preso tem que sofrer, morrer, porque a sociedade comete um equívoco ao acreditar que somente prender resolve o problema, se esquece de que, ao final, cumprida a pena, a pessoa que foi abandonada atrás das grades voltará com muito mais violência. Então, há mais de 30 anos, falar de uma prisão sem polícia parecia algo absurdo. Mas, aos poucos, a gente foi convencendo as pessoas. Fundamos a Apac em Itaúna, depois conseguimos um terreno que nos doaram e iniciamos uma série de campanhas para arrecadação de fundos. Depois de vários anos, a gente conseguiu iniciar a nossa obra. Nessa trajetória, certamente que esse apoio institucional do Tribunal, do Poder Executivo e também da Procuradoria Geral fez a grande diferença, de modo que hoje nós já temos 49 Apacs funcionando em cinco estados da federação, atendendo uma média de 3,7 mil recuperandos, e temos dezenas de outras. São mais de 90 Apacs em diferentes estágios de implantação no Brasil, e a aplicação parcial da metodologia em outros 23 países.

Quais são os elementos fundamentais do método? A participação da comunidade; o recuperando ajudando o recuperando; o trabalho; a espiritualidade; a assistência à saúde e jurídica; o mérito; o voluntário; a família; a valorização humana; a jornada de libertação. Enfim, quando estes elementos fundamentais são aplicados de modo harmônico, eles irão permitir uma mudança de mentalidade e, com isso, a redução drástica dos índices de reincidência, caindo de 80% a 85% para níveis abaixo de 20%. E estes 12 elementos se apoiam em um tripé: amor, confiança e disciplina, com o cumprimento da lei de execuções penais em tudo aquilo que toca os direitos e os deveres do recuperando.

A fé e a religiosidade são bem presentes nas Apacs, correto? Sim, muito, assim como na vida do doutor Mário Ottoboni. Eu diria que a Apac nasce aos pés da cruz, ela tem um viés espiritual muito forte. Nos primeiros anos, a base do método Apac era a religião.

Por que isso mudou? Depois de muito tempo, a gente descobriu que o preso tem outras necessidades que antecedem a de Deus. Não adianta você querer falar que Deus é amor se a pessoa está abandonada juridicamente, se quando ela abre a tampa do marmitex, sai aquele cheiro de comida podre, azeda. Como você vai falar que Deus é bom para um pessoa que está enferma, com uma úlcera, uma inflamação no dente? A espiritualidade é um componente forte, mas a base da metodologia é a valorização humana, é tratar o ser humano como um sujeito com direitos e deveres, como uma pessoa capaz de produzir, capaz de ser feliz e de fazer outras pessoas felizes.

Diante do cenário do sistema prisional brasileiro, o que diz parece um milagre. Um dos milagres que acontecem no interior das Apacs é o da convivência. Porque na Apac entra o homem, o delito fica do lado de fora. Não trabalhamos com o tipo de delito, tampouco com o tempo de condenação. Você tem presos condenados por latrocínio, tráfico, estupro, assalto, furto, estelionato, pessoas condenadas a cinco, 12, 15, 30, 80 anos. Diferentemente do sistema comum, nós não temos celas nem pavilhões de isolamento. Todas as pessoas convivem harmoniosamente dentro das mesmas salas, do mesmo espaço, no refeitório, na sala de aula.

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Com quem ficam as chaves das celas? Como um dos pressupostos básicos é a confiança, nós entregamos todas as chaves para os recuperandos, desde a da cela no regime fechado até a da portaria principal de acesso à rua.

Vocês usam o termo “recuperando” em vez de “detento”? Quando o preso chega nas Apacs, na maioria das vezes, chega mal fisicamente, péssimo psicologicamente e, muitas vezes, morto espiritualmente. Então é “recuperando”, porque é preciso recuperar a autoestima, os valores da família, do trabalho, da paz, da saúde física, mental, da educação. É uma terminologia bastante ampla, que aborda todas as faces do ser humano.

Quais são os critérios para o preso ir para uma Apac, e não para um presídio convencional? Tem que ser da região e estar condenado, a família precisa residir onde tem unidade, ele tem que manifestar o interesse por escrito e há o critério da antiguidade [presos que solicitaram a transferência há mais tempo]. E esses critérios precisam ser rígidos. Defendemos a descentralização penitenciária, pois isso força as comunidades a tomarem a iniciativa de ter a sua Apac.

Você acredita na recuperação de qualquer preso? Acredito piamente na recuperação do ser humano. Fizemos uma pesquisa com mil presos no sistema comum e concluímos que 85% deles manifestam o desejo de mudança de vida e de ter uma oportunidade, 10% são indiferentes, e 5% apregoam que o crime é interessante e que não querem mudar de vida. Ou seja, poderíamos ter Apacs para atender de imediato 85% da população prisional, e mesmo aqueles que são indiferentes, indecisos, com um trabalho de motivação, é possível também conquistar grande parte deles. Seriam necessárias prisões de segurança máxima para somente 5%, 7% da população. Mas, lamentavelmente, o método Apac ainda é bastante desconhecido e o sistema prisional é uma grande indústria; muitas são as pessoas, as corporações, as instituições que sempre viveram e vivem à custa da miséria dos presos.

Quanto custa um preso na Apac? Um preso na Apac custa um terço daquilo que se gasta no sistema prisional comum. Ou seja, mesmo que nós não recuperássemos ninguém, uma pessoa sequer, só pelo custo, já seria interessante investir em Apacs. Além do baixo custo e dos baixos índices de reincidência, nós nunca registramos rebeliões e as fugas são reduzidíssimas. 

O que é e qual é a sua atuação na Fraternidade Brasileira de Assistência aos Condenados (FBAC)? O doutor Mário sempre foi um homem muito inspirado e quando percebeu que as Apacs tinham esse potencial de se multiplicar, ele criou a FBAC, a federação das Apacs, que tem a tarefa de congregar as unidades, fiscalizar a correta aplicação da metodologia, celebrar seminários, realizar congressos e treinamentos, capacitar voluntários, funcionários, recuperandos, autoridades. Eu sou o diretor executivo da FBAC.

Como surge uma Apac? Ela é uma entidade civil de direito privado sem fins lucrativos. Cada Apac é autônoma jurídica e financeiramente, e todas são regidas por um estatuto-padrão fornecido pela FBAC. Não se cria Apac por decreto, não se cria pela vontade de uma autoridade, seja um juiz seja um promotor, um deputado, prefeito, padre ou pastor. A Apac é uma escolha da comunidade, é o resultado da sociedade civil organizada que toma consciência do problema prisional e resolve apontar em um caminho diferente. Existe um passo a passo que a FBAC disponibiliza. Qualquer pessoa pode dar início a uma Apac seguindo o passo a passo. A associação é aquilo que a gente chama de intersetorialidade: tem a sociedade civil que se organiza, o Estado, que entra como o fomentador, e a iniciativa privada, que vem ao encontro para capacitar profissionalmente, para preparar essas pessoas para a volta à sociedade.

É uma iniciativa que já virou política pública? Independentemente do novo governo que assuma em Minas Gerais, as Apacs já se firmaram como política pública no estado, embora sejam 39 Apacs em um estado com mais de 800 municípios. Mas a força delas é muito grande porque vem da comunidade, da sociedade civil.

O Luiz Mendes, nosso colunista que cumpriu mais de 31 anos de prisão, mandou uma pergunta para você: “Como você enxerga a cultura do crime dentro da cadeia?”. Aí é que está o xis da questão. Você tem o presídio comum e todas as mazelas que são peculiares a esse ambiente prisional, com toda a sua cultura ou subcultura, códigos, linguagem e regulamentos próprios, aos quais não temos acesso porque estamos do lado de fora. Então, essa pessoa que de repente cai na prisão, tem que, em um estalar de dedos, aprender toda essa linguagem. O maior desafio para o preso não é alcançar a liberdade, é sobreviver. E esse preso que veio para a Apac saiu da prisão, mas a prisão não saiu dele. Ele chega trazendo toda essa carga negativa, essa linguagem, esses códigos, todo um cabedal de sofrimento, de muita dor e muita violência que existe dentro dos próprios presos. Então, através de uma proposta metodológica, vamos ajudá-lo a romper com esse mundo de onde ele vem, com essa linguagem que ele vem trazendo, com esses conceitos.

De que forma é possível romper com essa cultura? Quando você, por exemplo, entrega a chave das celas para um recuperando para ele poder abrir e fechar aquelas celas, você começou a romper, porque isso é inadmissível na cultura deles, um preso poder trancar o outro. Como é que um ladrão vai trancar um ladrão? Quando de manhã, um recuperando passa de cela em cela chamando as pessoas, dando bom dia, e acordando o pessoal para ir ao primeiro ato socializador, ele rompe. Aí você entrega um crachá, e já não pode mais chamar por apelido ou por número, porque o sistema prisional despersonaliza as pessoas. A pessoa deixa de ser João, Pedro, Maria, Tereza, e passa a ser 1.222, 3.475. Números não pensam, não choram, não têm emoção, não têm sensibilidade, não têm projeto de vida, não têm filhos. Na Apac é proibido também falar de crime, se vangloriar dos crimes que foram cometidos, e tudo com muito respeito.

São os próprios detentos que fiscalizam isso? Sim. Se acontecer alguma transgressão, primeiro eles vão ser chamados e vão ter direito de defesa, serão considerados atenuantes e agravantes. Se tiver que aplicar alguma sanção, primeiro será uma advertência verbal, depois, por escrito, e assim por diante. A disciplina é muito rígida, porque nosso objetivo é manter um ambiente de paz, de boa convivência. Imagina que na Apac tem 200 recuperandos e que o traficante vai dividir a mesma cela com um estuprador, um pedófilo vai conviver com o latrocida, com o assaltante de banco. Você tem que ter regras de convivência para manter isso. O segundo
grande objetivo da sanção disciplinar é internalizar, em nível de psique humana, a disciplina interior que, porventura, eles não tiveram, e, se tinham, em algum momento da vida perderam.

Como os recuperandos lidam com a questão da confiança? Quando uma pessoa entra no mundo da droga ou do crime, a primeira coisa que acontece é ela perder a confiança. Perde a confiança da esposa, da mãe, dos filhos, do pai, dos irmãos, dos vizinhos, de todo mundo. Então, chega um momento em que ela não confia mais em si mesma. Pode ser que ela tenha escutado tantas vezes frases como “você não presta”, “você não serve”, “você é burro”. E depois, dentro da prisão, “você é bandido”, “você não tem recuperação”. A sociedade, de um modo geral, diz isso para quem está atrás das grades, então fica muito impregnado, muito registrado na psique da pessoa. Sendo assim, dentro da Apac vamos repetir pelo menos umas dez vezes por dia “meu irmão, você é legal, você é capaz, você pode, você dá conta”. A gente faz isso nas palestras de valorização humana, nos atendimentos individuais, nas frases que são escritas nas paredes, nos murais, nas salas de aula, nas oficinas de trabalho... É o tempo todo dizendo, é o resgate da pessoa. Você impregna o ambiente de uma cultura positiva.

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Começou há dois anos uma série de rebeliões pelo Brasil, especialmente nos estados do norte do país. Como você analisa essas notícias? Em 45 anos de história, nunca tivemos rebeliões nas Apacs, nunca registramos atos de violência macabros. De tempos em tempos, somos assaltados pela mídia com essas notícias de rebeliões sangrentas, com cenas bárbaras de decapitações. Nesses momentos, discutimos, acontecem mesas redondas, a imprensa passa dias falando e, em menos de dois meses, tudo cai no silêncio. E as propostas são sempre as mesmas: construções de mais presídios e leis mais duras. É sempre a mesma receita para um câncer que vai piorando cada vez mais. 

E as facções? Elas ocupam o espaço que o Estado, por ser omisso, não ocupa. As facções, assim como o sistema prisional, são o atestado da incompetência do Estado. O Brasil nunca teve um planejamento e não tem uma política prisional. Você vê: estamos em pleno período eleitoral, e até agora qual candidato a presidente você viu falar a respeito disso? Nenhum, até porque não tem. O sistema prisional é uma chaga, uma ferida exposta em que ninguém quer tocar o dedo. 

Você ainda se emociona? Ainda.

Quando? O tempo todo.

Como você cuida do seu lado espiritual e psicológico? Faço acompanhamento psicológico há mais de 20 anos, e espiritual quase a vida inteira. Eles são fundamentais para manter uma pessoa sadia a ponto de trabalhar em um ambiente prisional. Isso é importante para que não sejam criadas muralhas nas pessoas que aqui trabalham. Quantas vezes eu entrei nas unidades comuns e vi crianças de 5, 7 anos abaixando o calção para serem revistadas, agentes com luvas cirúrgicas fazendo exame de toque até em mulher grávida, e fazem isso naturalmente, como se fosse algo comum... Então a gente tem que tomar cuidado para que isso não se repita no ambiente das Apacs, porque, se isso acontecer, não precisa mais delas. 

Quando você chega em casa, como faz para relaxar e deixar o peso do ambiente prisional para trás? Tem pessoas aqui que, mesmo cheias de boa vontade e querendo uma mudança de vida, estão no regime fechado há cinco anos, outras que chegaram ontem, trazendo toda essa carga negativa do sistema comum. O corpo deles está aqui, mas a mente continua lá. É um ambiente que vai te carregando e você vai atraindo essas energias negativas. Então é muito importante que, ao sair, você tire o sapato, pise no chão, na grama, vá jogar água nas plantas, cuidar do seu cachorro, brincar com as crianças. Eu falo sempre para quem trabalha nas Apacs, para fazer uma meditação um quarteirão antes de chegar em casa, para que possa deixar todas essas cargas negativas para trás.

Onde você mora? Moro sozinho na minha casinha própria, claro, financiada em 25 anos, dos quais oito já se passaram. Quando não estou na estrada, moro em Itaúna.

Você é solteiro? Como é sua vida social? Sou solteiro. Sempre que posso, vou a um barzinho conversar com os amigos, tomar uma cerveja. Gosto muito de dançar, de sair, ir para balada, mas não consigo com muita frequência porque são muitos compromissos, muitas responsabilidades. Também gosto de estar com a família.

Um dos presos comentou que você abriu mão de ter a sua família para cuidar de quem muitas vezes destruiu a família de outras pessoas. É isso mesmo? Na verdade eu passo pouco tempo com meus irmãos e minha mãe, que está doente. E passo muito tempo com os presos nas Apacs. São renúncias que a gente vai fazendo ao longo da vida. Eu poderia ter feito concurso para juiz, promotor, delegado ou defensor público, também abri mão disso. Poderia ter uma casa, um carro bacana, um bom escritório. Mas fui abrindo mão dessas coisas e da própria família... Qual esposa aceitaria ter um marido que está o tempo inteiro ausente, que filhos aceitariam um pai tão ausente? Eu tenho a Apac como uma grande opção de vida, como uma paixão, mas não posso exigir que as outras pessoas tenham essa mesma paixão, que estejam tão disponíveis quanto estou.

[Nesse momento, o telefone dele toca. É uma advogada de Brasília tentando reivindicar a transferência de um preso para uma Apac. Ele alega que não pode fazer nada a respeito.] É todo dia assim? O tempo todo. Alguém querendo fazer transferência, e eu não posso fazer nada...

Você se arrepende de alguma coisa? Não, de nada, de nenhuma decisão que tomei ao longo da vida. Todas as decisões que tomei foram sempre muito conscientes.

De onde você vem? Nasci em Itapecerica, interior de Minas Gerais, em uma família de seis irmãos. Tinha 6 anos quando meu pai faliu e a gente se mudou para Belo Horizonte para começar uma vida nova. Meus pais fizeram uma pensão na nossa casa, onde o tempo todo chegavam e saíam forasteiros, peregrinos, jovens que vinham do interior para estudar na capital, gente que chegava procurando trabalho. Houve momentos em que tinham 40 pessoas morando na nossa casa. E minha mãe fazendo comida e lavando roupa para todo mundo, em uma época em que não tinha máquina de lavar.

Como era a vida ali? Como a casa era pensão, a gente ora dormia num quarto, ora num corredor, ora em frente ao banheiro. Minhas irmãs dormiram no sofá durante mais de 15 anos, né? Nós éramos sempre os últimos a nos servir da alimentação; a prioridade eram os pensionistas. Nosso sonho era estudar, trabalhar, ganhar dinheiro para construir a casa dos pais, sair do aluguel e não ter mais que mexer com pensão porque era um trabalho muito extenuante, sobretudo para a minha mãe. Com esses sentimentos, me criei, me formei em metalurgia e, com 21 anos, fui trabalhar como técnico metalúrgico, com o objetivo de ganhar dinheiro para construir a casa dos pais, em Belo Horizonte.

Você contou que foi aos 21 anos seu primeiro contato com a realidade prisional. Como foi? Nessa época eu já tinha uma vida muito intensa na igreja, era catequista, monitor de crisma e fazia parte de grupos missionários. Fundei um grupo de jovens, que chegou a ter mais de 70 integrantes, visitávamos creches, asilos, hospitais, trabalhávamos com teatro amador. Mas, depois que me mudei para Itaúna e comecei a trabalhar como metalúrgico, acabei tendo que deixar essas atividades sociais e cristãs em Belo Horizonte, porque meus horários de trabalho não eram compatíveis. Até que um dia fui fazer uma visita a um asilo, onde conheci um grupo de jovens que me convidou pra ir até a cadeia. Depois de alguns desencontros, consegui finalmente chegar na hora da visita da cadeia de Itaúna.

Você descreve um ambiente harmonioso, dentro do possível, e positivo. Mas como era a realidade que você encontrou nestes primeiros contatos? Como eu venho de uma família muito afetiva, aquela cena de mães que não podiam abraçar os filhos, esposas que não podiam beijar os maridos, crianças que não podiam ser abraçadas [pela ausência de um pátio], tocou muito a minha sensibilidade e também o fato de ver atrás das grades jovens como eu. A pergunta que eu fazia era: “O que faltou na vida deles que não faltou na minha?”. Ou: “O que eu tive que eles não tiveram?”. Eram crianças brincando em cima do esgoto a céu aberto, tudo feio, sujo, lixo acumulado em tambores, presos desfigurados, tristes, olhares sem esperança. Quando eu estava indo embora, um preso me chamou de dentro da grade, perguntou quem eu era, e falou: “O que você está achando?”. Respondi: “Igual a um zoológico, só que eu sei que aí dentro não tem bicho, tem gente”.

Qual foi a sua reação? Fui embora desorientado, nunca me senti tão pequeno e impotente diante de uma realidade tão grande de dor, sofrimento e abandono. Dormi muito frustrado.

Você voltou lá depois de quanto tempo? Voltei à cadeia uns dois, três dias depois, levando várias coisas que tinha conseguido reunir: roupas, pasta dental, escova de dentes. Isso foi há 35 anos e eu nunca mais os deixei.

Créditos

Imagem principal: Mario Ladeira

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