O que a aids nos
ensina para lidarmos
com o coronavírus?

por Luiz Alberto Mendes

A experiência com HIV no presídio faz nosso colunista acreditar que vamos vencer este momento se nos unirmos – e seguirmos a ciência

Eu me lembro quando a aids chegou ao Brasil e não havia nada preparado para aquilo. De repente, começou a morrer gente – e da forma mais horrível: secos, magérrimos, na caveirinha mesmo. Na Penitenciária do Estado, havíamos conquistado a visita íntima, após anos de lutas, greves de fome e espancamentos do batalhão de Choque da Polícia Militar de São Paulo. Mas foi só depois que o contágio já estava alastrado que eles começaram a tomar medidas preventivas de contenção da doença. Uma das mudanças na penitenciária foi no sistema de autorizações para que o preso pudesse receber a visita de sua companheira na cela – passaram a exigir do casal um atestado de exame de sangue para detecção do HIV. Então, aqueles que tinham companheiras tiveram de fazer o exame. 

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Nessa época, no começo dos anos 90, em que o vírus da aids explodiu no Brasil e, claro, nas cadeias, transformaram o antigo sanatório penal em um presídio voltado apenas a portadores do vírus, vindos de todo o sistema penal do Estado. Os companheiros já chegavam meio mortos a nós que lidávamos com eles. A gente percebia que deixavam o infeliz infectado praticamente entrar em coma para só então mandar para o sanatório. Lá, só tinha um médico e os enfermeiros eram portadores do vírus com alguma noção de enfermagem e muita boa vontade. As reportagens, como sempre, eram sensacionalistas no sanatório, até que juntos intervimos e não aceitamos mais que viessem fazê-las. 

Fui para conhecer, para ver de perto. Sempre havia meia dúzia em coma e outra meia dúzia já perto do estágio de receber alimentação via tubos, com sopas e sucos de fruta que roubávamos – eu e um amigo que trabalhava na copa da diretoria – para levar até lá. Fizemos isso por quatro anos e jamais tivemos problemas, havia até um diretor que sabia e fazia vista grossa quando eu passava com latas no ombro, carregadas de alimentos, levando para o sanatório.

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Laços de família
Eu me vinculei àquele povo e a maioria corria de medo. A gente nem sabia como pegava aquilo direito, mas, durante os 4 anos em que fiz minha parte lá no sanatório, não peguei nem resfriado.

Vivia com os caras, bebia, comia e fumava com eles. Sentava na cama deles, ríamos e chorávamos juntos. Vários morreram em meus braços, me sujando de sangue e tudo. Eu os amava e nem sei como ou o porquê, eu nunca fui assim, generoso. Eu costumava estar mais para sinistro, ardiloso e bom conversador. Com eles, eu era terno, amigo, até doce e afetuoso, dividia o que tinha. Arrumava pasta dental, sabonete, aparelho de barbear, envelope, papel, caneta e, se precisasse ligar para a família, era só me dar o número, o nome e o recado, que eu fazia a mensagem chegar ao destino – fosse via algum visitante, funcionário (nem todos eram maus), assistente social ou a gente mesmo dava um jeito. Criamos uma rede, uma frágil rede de apoio aos nossos amigos.

Começamos, então, a ser consultados por muitos companheiros que haviam sido informados que, no exame de sangue que haviam feito para liberar a visita íntima, constava que eles estavam com o vírus. Organizamos uma roda com alguns deles, cerca de 40, sentados em bancos, e dois portadores que trabalhavam como presos-enfermeiros há tempos lá no sanatório. Todos haviam descoberto recentemente, estavam assintomáticos – alguns nem chegaram a desenvolver as tais doenças oportunistas –, mas a maioria morreu. Três deles tinham esposas grávidas, que nem sabiam ainda do vírus de seus companheiros presos.

E essas gestações, como seriam? As crianças nasceriam com o vírus? Por sorte, as três grávidas, estavam entre as que não desenvolveram o vírus e as crianças nasceram normais – uma teve problema, na verdade, mas não era HIV, mas, sim, anemia.

E agora?

Por não estarmos preparados, pela desinformação, milhares morreram e ainda morrem, vitimados pelo vírus. Não havia na época um manual para gerenciamento de crises desse tipo.

Hoje, já temos experiência em campo e vamos conseguir preservar muita gente com os critérios usados agora para lidar com o coronavírus. E todo sacrifício é válido para salvarmos vidas, iniciativas como essas que temos visto: as pessoas em quarentena, a suspensão de das atividades de escolas, cinemas, shoppings, repartições, cancelamento de shows e espetáculos etc, só deixar funcionar o essencial. Ficar em casa, em núcleos pequenos, será nossa maneira de recepcionar o vírus. E, assim, ele não nos pegará desprevenidos, como em outras vezes.

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Mas, sim, podemos morrer. Eu, por exemplo, que tomo remédios para embaralhar o sistema imunológico, pois sou um transplantado e sou velho – tenho 68 anos –, embora esteja bem forte, frequente até a academia, posso ser uma vítima. Mas não sem luta, sem dar o melhor de mim para sobreviver e estar sempre bem de saúde.

E como farei para lutar? Seguirei informações científicas, não me permitirei o achismo. Seguirei as normas de higiene à risca, lavarei sempre as mãos e só sairei de casa em emergências. Trabalho é emergência. Como sobreviver sem trabalhar? E como o patrão vai pagar se não faturar?

Não sei no que vai dar isso, mas ninguém sabe também. Aguardemos, pois!

Créditos

Imagem principal: creative commons

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