Eles passarão, eu passarinho

por Ariane Abdallah
Tpm #178

À frente do Twitter Brasil, Fiamma Zarife enfrenta vários dilemas – no trabalho e na vida pessoal –, mas sem esconder suas vulnerabilidades

Fiamma Zarife estava há menos de dois anos no Twitter, como diretora responsável pela relação com agências de publicidade, quando seu chefe a convidou para substituí-lo na diretoria-geral da empresa no Brasil (ele assumiria uma área global da companhia, em Nova York), em janeiro de 2017. Em vez de comemorar, a primeira reação da executiva foi de surpresa e dúvida. “Por que eu? Será que estou preparada?” Depois de uma noite de sono, Fiamma disse sim – e passou a fazer parte dos minguados 16% de mulheres que ocupavam cargos de CEOs e diretoria executiva no Brasil naquele ano (em 2018, já eram 27%, segundo a pesquisa International Business Report (IBR) – Women in Business). Concluiu que a insegurança inicial não tinha a ver com estar ou não pronta para o cargo, mas sim com seu estilo de liderança.

Descendente de italianos e libaneses, aos 47 anos, a niteroiense – que construiu a maior parte de sua carreira no setor de telecomunicações, com passagens pela Oi, Claro e Samsung – define sua maneira de conduzir a empresa como “liderança humanizada”. Faz parte dessa atitude rir muito (inclusive de si mesma), comentar sobre a vida pessoal em reuniões e ouvir histórias com uma atenção ao interlocutor difícil de se ver entre altos executivos, que geralmente estão correndo contra o tempo. Faz parte também ter insegurança, como qualquer pessoa. “Num cargo de liderança, me sinto muito observada, como se fosse a comandante de uma tripulação em um avião. As pessoas estão sempre te olhando. Se você está sorrindo, tudo está bem. Se o avião balançar, todos buscam sua expressão para saber o que se passa. Às vezes, você também está com medo”, conta.

Não era exatamente medo, mas o convite para ser “desconstruída” pela Tpm inicialmente a assustou, como comentou durante a sessão de fotos. Em poucos minutos, porém, estava à vontade, descalça, testando looks, sorrisos e perfis – justamente a desconstrução da figura da diretora em busca da pessoa que procurávamos. “Deve ser difícil a vida de modelo”, diz, rindo.

A dela também não é exatamente fácil. Depois de algumas horas fechada em uma sala com a equipe da revista – e a aparência de executiva devidamente 
desfeita –, brincou: “Torçam para eu atingir os resultados desse quarter [trimestre]”, diz, usando as inevitáveis expressões em inglês do mundo corporativo.

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Ela também assume a postura “corporativa” quando a conversa fica séria: sobre os impactos questionáveis do Twitter, adotado como principal meio de comunicação por autoridades como os presidentes Donald Trump e Jair Bolsonaro. Entre os efeitos colaterais indesejados da ferramenta estão uma falsa ideia de representação da opinião pública (quando parte relevante dos comentários é promovida por robôs), os vieses dos algoritmos que levam os usuários a se fecharem cada vez mais em suas bolhas e a discussão sobre privacidade. “A tecnologia é amoral. Ela é uma arena pública. O Twitter é o que o ser humano faz dele”, pensa. Não significa, porém, que não há o que fazer. Fiamma explica que, institucionalmente, “a prioridade do Twitter é trazer civilidade e segurança para a plataforma e combater a automação mal-intencionada”. O caminho para isso, no entanto, é longo.

E a meta?

Vamos começar por hoje. O dia desta entrevista era o prazo para toda a equipe da empresa colocar no sistema interno seus objetivos para o ano. No caso da diretora, o foco estava em zelar pela cultura da companhia – “diversa, inclusiva” – e de trabalhar duro, mas com diversão; ser a melhor parceria estratégica de marcas, por exemplo, direcionando anúncios para públicos segmentados; e atingir as metas financeiras. Na prática, isso significa que ela passará a maior parte do ano em reuniões.

Os objetivos de Fiamma só seriam registrados no sistema depois das 22 horas, quando os dois filhos, de 15 e 8 anos, estivessem dormindo. Seu ritmo profissional intenso não é um problema para a família. “Tomamos consciência de que o trabalho me torna uma mulher e uma mãe muito melhor”, afirma. Mas para chegar a essa conclusão foi preciso percorrer um caminho de altos e baixos, fazer escolhas difíceis e aceitar verdades indiscutíveis: “O meu conselho para outras mulheres que querem conciliar trabalho e família é não almejar a perfeição. Ela não existe”.

Tpm. Do que você teve que abrir mão para ter a vida que tem hoje?
Fiamma Zarife. De momentos com a família. Não tem jeito. Você não consegue estar 24 horas em todos os lugares. Desde que voltei dos quatro meses de licença-maternidade que tirei quando tive meus dois filhos, abri mão de oito, nove, dez horas de convívio diário com eles. Eu não estava na primeira vez que minha filha andou, por exemplo.

Você sente culpa por situações como essa, como acontece com tantas mães? A culpa faz parte, mas para mim sempre foi muito claro que eu só poderia abrir mão do meu tempo com a família, que é a coisa mais preciosa da minha vida, se eu estivesse fazendo algo que fosse muito especial e com muito propósito. Aos poucos, fui tomando consciência de que o trabalho me energiza, me dá independência e me torna uma pessoa melhor. Isso ficou muito claro para o meu marido e meus filhos também. Hoje tomei outras decisões. Por exemplo, não vou abrir mão da primeira comunhão, da formatura [dos filhos], desses momentos que considero importante participar. O meu conselho para outras mulheres que querem conciliar trabalho e família é não almejar a perfeição. Ela não existe.

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O que a maternidade mudou na sua vida?
 A primeira foi muito difícil. Eu trabalhei até sexta-feira e tive bebê no domingo. Era como se estivesse em um ônibus de alta velocidade. Entrei na maternidade com aquela barriga gigante, de 19 quilos, respondendo e-mail pelo celular. Quando cheguei em casa, tinha um bebê. Eu achava que nunca mais teria minha vida de volta. Olhava para fora e falava: “Meu Deus do céu, o que é isso? Nunca mais vou andar na rua, nunca mais vou fazer a minha unha, tenho certeza”. Porque você está no salão, o telefone toca, é hora de mamar. A ordem é voltar agora. E você sai com as unhas de uma mão só feitas: “Gente, tchau, beijo”. Você sai da sua independência. Adoro mulher que fala que vai fazer, por exemplo, francês quando o filho nascer. Eu falo: “Você não vai falar nem português de tão cansada que vai ficar”. Leva um tempo até se acostumar àquilo tudo. Mas depois você se apaixona, muda o mundo, e inverte: para deixar aquilo em casa, precisa ser alguma coisa que preencha muito. No segundo filho, eu já sabia que tudo aquilo ia passar, então curti mais.

Você conseguiu se desligar completamente do trabalho durante esse período? Não. Fiquei muito ligada no trabalho ainda, querendo saber o que estava acontecendo. Ao mesmo tempo que o filho é o maior amor do mundo, você fala: “Também quero digitar um pouquinho”[risos]. Durante a primeira licença, teve uma mudança na estrutura da empresa em que eu trabalhava [a Oi], e eu só fiquei sabendo porque as coisas chegavam até mim por SMS. Passei um e-mail para o chefe que entrou, que eu sequer conhecia, dizendo: “Oi, tudo bem? Sou a Fiamma, estou de licença-maternidade, parabéns pela posição, daqui a pouco estou de volta”. Porque tinha medo de voltar e não ter lugar.

No Twitter, os homens têm direito a licença parental durante o mesmo período que as mulheres. Como isso tem funcionado? Temos o programa há dois anos e meio e dois casos aqui de homens que curtiram, mas voltaram relatando dificuldades. Existe o preconceito com eles também. Quando ligavam para algum amigo para pedir uma ajuda, escutavam: “Cara, eu lá sei o que fazer? Tive dez dias. O que você vai fazer em casa esse tempo todo?”. O conhecido de um deles falou: “Mas que vadiagem é essa? Você vai perder o emprego!”. É difícil para as pessoas entenderem. Então, eles sofreram muito também. Essa adaptação é importante. Porque essa é uma barreira para a mulher no mercado de trabalho. Primeiro de nós mesmas, que muitas vezes nos sabotamos recusando uma promoção porque planejamos ter filho dali a três anos. E tem o outro lado, claro. Muita gente que não contrata mulher por receio de ela engravidar. Então, a licença para mães e pais é uma forma de tentar igualar as condições.

Você já sentiu algum tipo de tratamento diferente no ambiente profissional por ser mulher? Olhando hoje, com o repertório que eu tenho, sim. Trabalhei em ambientes muito masculinos, mas eu não enxergava isso na época. Eu tinha o ponto cego. Um pouco pela criação e pela cultura em que vivi. Minha mãe nunca me criou me dizendo que eu seria diferente. Como ela também trabalhava fora, era professora, eu aprendi assim. Mas com o tempo fui percebendo que muitas mulheres não tiveram a mesma sorte. Também fui entendendo o impacto positivo que tinha quando eu contava minhas história publicamente e, mais que isso, quando expunha minhas fragilidades. Muitas falam comigo depois de palestra sobre o quanto foi inspirador. Para mim, é gratificante. No trabalho, eu sempre fui muito “folgada”, me posicionava naturalmente. 
Mas nunca fui muito vocal, não sou aquela pessoa que levanta a mão. Tive que aprender com o tempo que precisava falar mais. Esse é um conselho que eu dou para outras mulheres: seja vocal. O meu caminho é “fake it, until you make it[finja até que você se torne]. Porque a autoestima e a coragem são coisas que você exercita.

Que tipo de tratamento diferente você reconhece no seu histórico, olhando com o repertório de hoje? A questão da interrupção dos homens. Para mim, aquilo era natural. Às vezes, eu estava numa reunião só com homens e nem percebia que, quando começava a falar, eles interrompiam. Era automático. O homem interrompe. E tem também o que hoje chama mansplaining [um homem explicando algo a uma mulher de uma maneira condescendente ou simplista, do inglês “man”+ “splaning”, variação informal do verbo “explain”, que significa explicar].

E você se comporta diferente hoje no ambiente corporativo do que se comportava no passado? Em alguns momentos, sim. Quando eu trabalhava na Oi [entre 2001 e 2008], engravidei da minha filha, mas ainda não tinha contado a ninguém porque era o comecinho. Até que, um dia, meu chefe convocou uma reunião com os gerentes. No meio de todos, ele falou: “Estamos promovendo algumas pessoas, e a Fiamma será uma delas”. Na hora, não disse nada, mas fui falar com ele: “Como você me dá uma notícia dessa assim? Estou grávida, então, se você quiser rever essa posição, tudo bem”. Eu estava me boicotando. Mas ele respondeu: “Olha, vou fingir que eu não ouvi isso e quero que você volte imediatamente para o seu posto de trabalho. Nós temos muito o que fazer e nove meses pela frente”. Foi uma sabotagem comigo mesma e que bom que não tinha um executivo machista na minha frente naquele momento.

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Você se considera feminista? Depende da definição. Para mim, feminismo é ter a liberdade de escolha. Gosto de juntar, não de separar. Eu tinha um par na Claro, por exemplo, que era um diretor com quem gostava muito de trocar. Muitas vezes eu ligava para ele porque precisava de uma visão mais objetiva. E ele, em outras ocasiões, me falava: “Preciso de uma intuição, me ajuda?”. Não sei se essa troca acontecia porque éramos uma mulher e um homem, ou porque era eu e ele, mas tinha essa complementariedade. Por outro lado, no Carnaval, um sobrinho do meu marido estava em um bloco e, olhando para o lado distraído, deu uma trombada numa menina que também estava distraída, olhando para o outro lado. Ele pediu desculpas, mas a garota achou que ele tivesse feito de propósito e começou a fazer um discurso: “É por isso que a gente tem que se defender”. Quando ele virou de costas, ela deu um tapa no pescoço dele. Começou a juntar gente em volta como se ele a tivesse assediado. Uma situação extremamente agressiva, que me deixou horrorizada. Isso, para mim, não é feminismo. É falta de respeito. Eu acredito em criar ambientes acolhedores, inclusivos, onde homens e mulheres podem prosperar juntos. Percebo também que tem algumas diferenças de geração. Hoje mesmo estávamos discutindo no Twitter o ato de dar ou não flores de presente no Dia da Mulher [8 de março]. Eu recebo flores do meu marido e, para mim, sempre foi assim e está tudo bem. Mas meninas mais novas me ensinaram que não é sobre o que a gente conquistou, mas, sim, sobre a luta. Entendi o ponto delas.

Vocês fazem mentoria reversa no Twitter, na qual pessoas mais jovens dão conselhos a executivos mais experientes. Como é para você? Uma vez por mês sento com um dos estagiários e falo: “O que está acontecendo no mundo? Na sua faculdade? O que você escuta no Spotify? Pode fazer uma playlist para mim?”. Essa troca é muito rica, levo para a minha vida. Entender como eles estão pensando a vida, o que estão fazendo. Isso gera o que eu chamo de empatia geracional. Eu pensava que só eu ia aprender com eles, mas eles começaram a me perguntar: “Como você se equilibra? Como dá conta de tudo?”. Comecei a ver as curiosidades e inseguranças que eles também têm.

Como você define o seu estilo de liderança? Tem peculiaridades por ser uma liderança feminina? O meu estilo de liderança é muito o da empatia, de se colocar no lugar do outro sem querer mudá-lo. Mesmo que seja para fazer o meu ponto. Antes você precisa escutar as pessoas. Eu amo gente e acho que isso ajuda. Mas é realmente muito difícil você ser um líder humano, que mostra suas fragilidades. Num cargo de liderança, me sinto muito observada, como se fosse a comandante de uma tripulação em um avião. As pessoas estão sempre te olhando. Se você está sorrindo, tudo está bem. Se o avião balançar, todos buscam sua expressão para saber o que se passa. Às vezes, você também está com medo. Mas quanto mais humanidade traz para esse papel, mais transparência e confiança constrói. Encontrei esse lugar [o Twitter] que me deixa exercitar esse meu jeito. Aqui o desafio é justamente liderar por influência, e não pela autoridade.

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Por quê? Por causa da estrutura matricial. Algumas áreas não se reportam diretamente a mim, mas sim à matriz [a sede do Twitter fica em San Francisco, na Califórnia, Estados Unidos]. Como você faz essas pessoas trabalharem 80% do tempo em objetivos que temos para o Brasil, sendo que você não tem a liderança oficial delas? Preciso sentar com essas pessoas e falar: “Gente, temos que trabalhar com essas marcas e essas agências para atingir os nossos objetivos. Como você, dentro da sua área, pode contribuir?”. O que mais faço na minha rotina são reuniões. Cerca de 60% internas e 40% externas, com clientes.

O que você teve que aprender na posição de presidente da companhia? Eu amo trabalhar. Geralmente, depois que coloco as crianças para dormir às 10 da noite, me concentro em decisões estratégicas e planejamento. Por isso, esse era um momento que eu mandava muitos e-mails para a equipe. Mas comecei a receber feed-backs – uma prática muito comum aqui no Twitter – de que as pessoas se sentiam na obrigação de responder na hora, e isso era ruim. Eu dizia que não precisavam, que era o meu momento, mas não adiantava. O efeito era o mesmo. Então, entendi que precisava me atentar a detalhes como esse. Hoje, programo as mensagens para saírem da minha caixa no dia seguinte.

Resumindo, qual é o seu papel na empresa? Minha função é muito mais a de um conector. Para a parte externa, temos um diretor de vendas, que é a pessoa que fica efetivamente na rua, em reunião com as marcas. Eu entro pontualmente na conversa quando posso fazer a diferença. Por exemplo, às vezes ele precisa conhecer o vice-presidente de uma empresa que eu já conheço, então faço a ponte. Eu abro as conexões. Internamente, faço reu-niões com áreas para garantir que a máquina está funcionando. Para isso, a primeira coisa é garantir que elas tenham tudo de que precisam. Às vezes, um diretor me diz: “Estou precisando que o global dê um pouco mais de recurso para a gente aqui”. Nesses casos, eu também posso advogar por essas áreas lá fora. Por isso é importante entender no detalhe cada uma delas e ter a confiança de todos.

Nas reuniões com clientes, o que exatamente você faz? Falo com as empresas e com as agências para entender quais são os objetivos estratégicos de cada marca para o ano. Depois, aqui dentro, exercito com a minha equipe de vendas, de brand strategy [estratégia de marcas], entre outras, o que podemos oferecer para elas para ajudá-las a atingirem seus objetivos. Então, montamos o planejamento. Também dedico muito tempo à questão da diversidade e inclusão, que é algo muito forte e cobrado aqui dentro. E não é só diversidade de gênero – embora, claro, a de gênero venha mais forte, até por isso temos uma mulher à frente de uma empresa de tecnologia.

O que vocês oferecem para essas empresas? Vendemos espaço no Twitter para anúncios feitos de uma forma natural em formatos como foto, meme, live e até parcerias com influencers. Por exemplo, uma instituição bancária que tem uma agenda que inclui empoderamento da mulher, finanças e questões sociais pode buscar a plataforma para ver o que as pessoas estão falando sobre isso e entrar na conversa, oferecendo um cartão de crédito com vantagens que interesse ao seu público. Conseguimos mapear os assuntos para segmentar a publicidade de maneira adequada aos objetivos de cada anunciante.

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O lado positivo de redes sociais como o Twitter está claro. Temos hoje plataformas que permitem discussões públicas, dão voz a minorias, tornaram mais transparentes e ágeis as relações entre as pessoas e com empresas. Mas os efeitos negativos também têm crescido, principalmente nos últimos dois anos. Por exemplo, a presença de robôs que, muitas vezes, reproduzem comentários como se fossem pessoas, refletindo a realidade de forma distorcida. Um tema ou viés 
que se destaca na plataforma não necessariamente espelha a opinião pública. Qual é a responsabilidade do Twitter sobre essa distorção? É uma responsabilidade enorme, que consideramos prioridade no Twitter. Queremos que a plataforma colabore para criarmos um mundo e uma sociedade melhores, para ampliar o repertório das pessoas. Mas temos que lembrar que a tecnologia é amoral. Ela é uma arena pública. O Twitter é o que o ser humano faz dele. Para que ele cumpra sua missão, que é servir às conversas públicas, temos lançado muitas ferramentas para tornar esse ambiente digital mais seguro, civilizado e amigável, onde as pessoas possam de fato se expressar livremente. Isso é fácil? Não. É um esforço contínuo, estratégico e em grande escala, feito com muito investimento, principalmente em tecnologia.

Que tipo de ação tem sido feita? No caso dos robôs, que são a automação mal— intencionada, temos uma equipe, mas usamos também inteligência artificial, machine learning, que aprende a detectar comportamentos estranhos, que um humano não teria. Por exemplo, tuitar rápido demais. Quando isso acontece, nosso sistema desafia a conta. Isto é, pede para o usuário mandar um e-mail. Quando ele não responde, entendemos que não é uma pessoa do outro lado, e a conta é derrubada. Isso funciona de maneira rápida, em diversos idiomas e fusos horários e não depende só de denúncias. Mas elas também acontecem e nos ajudam.

Quais os resultados desses esforços? Compilamos alguns dados de 2018. De março a maio, a média de denúncias de spam recebidas por meio do mecanismo de denúncias diminuiu de 25 mil para 17 mil por dia. Em maio do ano passado, mais de 9,9 milhões de potenciais contas de spam ou automatizadas foram identificadas por semana. Bem mais do que em dezembro de 2017, quando foram 6,4 milhões contas identificadas e, em setembro do mesmo ano, 3,2 milhões. Então, nosso alcance está maior. Em 2018, removemos 214% mais contas do que em 2017. Nossa intenção é deixar a plataforma mais saudável.

Se o presidente Jair Bolsonaro fosse outra pessoa, a conta dele teria sido derrubada ou bloqueada depois de polêmicas como a do Carnaval de 2019, em que ele publicou um vídeo que ficou conhecido como “golden shower” em que um folião urinava em seu parceiro? Todos os usuários estão sujeitos às mesmas regras de serviço, que são muito claras. Ele não é diferente.

Qual é a sua posição política? Olha, à frente de uma multinacional, na cadeira que ocupo hoje no Twitter, uma plataforma social, eu sou politicamente isenta. Preciso atender a todos os diferentes públicos, ideologias e opiniões.

O presidente Donald Trump trata o Twitter como um Diário Oficial. No Brasil, Jair Bolsonaro adotou atitude similar. Qual é a sua opinião sobre essa forma de governar e os impactos disso? A política é muito forte no Twitter, mas sempre tivemos líderes de várias áreas usando a plataforma. A começar pelo Barack Obama. As pessoas falam muito do Trump, mas o Obama usava muito também. O Papa é um líder religioso que usa o Twitter, assim como economistas e empresários. Essa coisa de liderar pelo Twitter sempre existiu e permite falar instantaneamente com a massa, sem barreiras.

O Twitter tem moderador de conteúdo? Não. O que temos é uma curadoria de jornalistas que fazem parte da nossa equipe. Um exemplo foi a queda do avião da Chapecoense. O aeroporto de Medellín começou a tuitar, então os jornalistas buscam esses tuítes e checam a veracidade. Eles só curam os tuítes que viram um trending topic na plataforma. Não tem nenhum tipo de mediação. O que buscamos é o equilíbrio de opiniões, independentemente de o conteúdo ser mais positivo ou mais negativo.

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Qual é o mecanismo para definir um trending topic? Não posso abrir todos os critérios que usamos para evitar manipulações, mas são algumas variáveis, como o número de tuítes sobre o tema e a velocidade com que eles começam a ser feitos.

Em uma coluna na Folha de S.Paulo de 4 de março de 2019, o advogado Ronaldo Lemos, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro, chamou a atenção para o fato de que muitos dos tópicos que aparecem em primeiro lugar no Twitter Brasil acabam, “coincidentemente”, aparecendo em primeiro lugar também em países como Bahrein, São Tomé e Príncipe e Vietnã – que, a princípio, não teriam as mesmas discussões que o Brasil, inclusive porque falam idiomas diferentes. Isso é fruto da manipulação de contas automatizadas? Como saber se um trending topic é confiável? O que acontece nesse caso é reflexo de um mecanismo da plataforma. Quando um país fica mais silencioso, por exemplo, de madrugada, porque a maioria das pessoas está dormindo, o número de trending topics começa a cair. Então, o Twitter busca em outros países o que está “trendando” para alimentar a plataforma. Não significa necessariamente que no Vietnã as pessoas estavam falando sobre esse assunto. Talvez elas apenas tenham parado de tuitar tanto e a plataforma tenha preenchido o primeiro trending topic no país delas com um tópico de outro lugar.

Você fala bastante da diversidade como uma prioridade interna da empresa. Mas os vieses dos algoritmos, muitas vezes, têm levado os usuários do Twitter para a direção oposta, apresentando conteúdos que reforçam suas buscas e hábitos de leitura. Com isso, a plataforma não incentiva que cada um permaneça na sua bolha? Como o Twitter é real time e cronológico, não vou te falar que a gente não usa algoritmo porque tem uma parte que, sim, usamos. Mas com o objetivo de facilitar a experiência. Quando passo muito tempo fora do Twitter e volto, ele é muito rápido em me mostrar coisas que geralmente leio – o algoritmo aprende com seu comportamento. Mas o fato de ser uma plataforma que diz “olhe o que está acontecendo no mundo, na economia, na política, olhe os movimentos sociais”, faz com que você se depare com comentários abertos, de todos os tipos e opiniões. A gente tende a ficar no que é familiar nas redes em que controlamos os amigos, onde precisamos aceitar alguém para te seguir. Nesses ambientes é mais fácil não olhar para fora. Para mim, essa é a grande beleza do Twitter. Não dá para não sair da sua bolha.

Você é uma mulher de 47 anos em uma sociedade que, apesar de todo o avanço dos debates atuais, ainda impõe duros padrões para o feminino. Você percebe sinais mais evidentes do passar do tempo? Ah, sim. Por exemplo, a vista é um negócio sensacional. Quando você faz 40 anos, acorda cega [risos]. Tenho vários óculos porque perco todos. O porteiro sempre fala: “Olha os óculos”. Porque gasto mais com motoboy do que com os próprios óculos. Também sinto a coluna, mas acho que é porque sou muito alta [tem 1,77 metro]. Faço exercício de três a quatro vezes por semana, como esteira e musculação. Mas o engraçado é que eu me sinto muito bem hoje. É superclichê falar isso, mas é verdade que a maturidade traz segurança. Você não perde tanto tempo preocupada com coisas que antes eram temas. Com a experiência, aprendi a gastar energia onde tenho que gastar. Aos 25 anos, temos tantas dúvidas, é tudo tão complicado, tão por acontecer. A minha sensação é de que hoje já sei muita coisa, porque já vivi muito, o que me dá musculatura. Não troco isso por todos os dilemas dos 20 e poucos anos.

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Como você lida com a ideia de finitude? Eu tenho medo de envelhecer. Mas o meu maior medo, o que me tira o sono mesmo, é imaginar ficar sem trabalho.

Qual foi a decisão mais difícil que você já tomou na vida? [Pausa.] Foi sair do Rio de Janeiro [Fiamma nasceu em Niterói, mas morava na capital fluminense] e vir para São Paulo, em 2008, para trabalhar na Claro. Meu pai faleceu em 2000 e ficamos só minha irmã e minha mãe, com quem tenho uma ligação muito forte. Minha filha é a única neta dela. A família do meu marido também é de lá. Em momentos como esse, em que preciso tomar 
uma decisão importante, gosto de ficar sozinha em um café. Em 26 anos com meu marido, entre namoro e casamento, já foram muitas as vezes que pedi para ele me deixar tomando um cafezinho porque precisava refletir e decidir.

Você tem outros momentos em que consegue ficar sozinha? Todo dia de manhã faço o que chamo de pausa. É muito importante para mim. Geralmente, dedico os 20 primeiros minutos do dia, quando acordo, para ficar em silêncio. Durante muito tempo, fazia oração, agora medito com o aplicativo Headspace. Faço um exercício de separar o que estou sentindo e o que estou pensando. Se você abre o olho já pensando no e-mail que tem que ler, acorda em débito com o mundo. Eu já entrei várias vezes no piloto automático, de estar viajando e acordar sem saber onde eu estava ou se já tinha feito a apresentação de trabalho. Nessas horas, pensei: “Estou em um ritmo errado, não está legal”. E fui aprendendo a valorizar essas pausas. Uso esses momentos para, principalmente, agradecer. Por tudo. Por ter acordado viva, pelo privilégio que é ver um céu azul, pela saúde que me permite inclusive dizer “que céu lindo”. A gente vai conquistando as coisas na vida, mas não quero nunca perder os pequenos prazeres.

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