por Luara Calvi Anic

Após cinco anos lutando contra uma doença grave, a artista Regina Parra inaugura uma temporada de exposições e reflete sobre dor, morte, feminismo e arte

A artista plástica paulistana Regina Parra passou cinco anos buscando a cura de uma doença grave e rara que a acometeu de surpresa. Durante esse tempo, ela teve dores intensas no corpo, apaziguadas com morfina, e uma fraqueza dos músculos que não a deixava, por exemplo, subir escadas. Em uma das muitas apostas de tratamento, ela teve que assinar um termo em que se mostrava ciente de que o procedimento, experimental, poderia não dar certo.

No mesmo período, enquanto pesquisava a questão migratória para um trabalho artístico, topou com uma foto de um refugiado haitiano que segurava uma carteira de trabalho brasileira. "Na época, pensei que aquele tratamento era minha grande chance, como aquela carteira era para ele também", diz. Partindo dessa reflexão, nasceu a obra Chance (2015-2017), um neon adquirido pela Pinacoteca do Estado de São Paulo e que estará exposto no museu a partir do dia 13 de fevereiro. "Não tenho definido se ter uma grande chance é algo positivo ou negativo", diz.

Tratar de temas íntimos que tocam também a realidade de outras pessoas é uma característica de sua produção – que inclui pintura, vídeo e performance. Esse é também o caso da obra É Preciso Continuar (2018), luminoso vermelho instalado no Largo da Batata, em São Paulo, justamente quando aconteceu o #EleNão, ato contra o então candidato e hoje presidente Jair Bolsonaro.

O neon, que irradia as frases “É preciso continuar/ Não posso continuar/ Tenho que continuar/ Vou continuar ”, marcou a manifestação de setembro de 2018 e está no álbum de fotos do celular de muita gente que passou por lá. Para Regina, a frase tem ligação com a sua doença e com São Paulo, cidade em que ela nasceu. “Inicialmente, era sobre uma questão pessoal porque eu estava nesse lugar de ‘tenho que continuar, mas não consigo’, mas eu entendia que essa frase em São Paulo, e especialmente naquele lugar, podia falar de viver nessa cidade que demanda esforço permanente”, diz sobre o trecho, originalmente publicado no romance O Inominável (1953), do irlandês Samuel Beckett (1906-1989).

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Testar "grandes chances" e trabalhar, mesmo que deitada na cama ou se equilibrando em uma bengala, foi a rotina de Regina dos 29 aos 34 anos. Hoje, prestes a completar 35 e curada, ela inaugura uma exposição individual na Millan, galeria que a representa em São Paulo, em 21 de março. E, a partir de julho, fará uma residência artística em Nova York, cidade onde, ano passado, após uma significativa melhora, ela pôde voltar a andar de bicicleta. Confira a seguir a entrevista que a artista deu à Tpm:

Tpm: Seu trabalho, Preciso Continuar, foi muito fotografado durante a manifestação do #EleNão. Você esperava por isso?

Regina Parra Não, mas quando soube que o edital que participei seria para um trabalho no Largo da Batata, logo pensei nas manifestações de 2013 [contra o aumento das tarifas de ônibus], que aconteceram ali. É um lugar de potência. Além de ser muito São Paulo: as árvores não crescem, é árido, você quer ficar lá, mas não fica. Ao mesmo tempo, como tem uma demanda tremenda de espaço de lazer, as pessoas ocupam por falta de opção.

A doença influenciou seu trabalho durante os últimos cinco anos. O que você percebe que mudou na sua produção? O primeiro neon que eu fiz, em 2009, talvez tivesse uma coisa mais ligada a desejo. Esses últimos têm mais a ver com limite ou sobrevivência. O que mudou é que comecei a me interessar mais pelo corpo. Eu passava muito tempo sentada e deitada. Não tinha como não pensar no corpo porque ele virou meio que um impedimento para tudo o que eu queria fazer.

E você vai apresentar uma performance com bailarinos na Galeria Millan, certo?  Sim. Num movimento muito maluco, comecei a ficar obcecada por dança, assistir e pesquisar. Se você sai daquele balé mais harmônico e perfeito, pode ir para um lugar da dança que é dos movimentos estranhos, achei uma afinidade naquilo. Talvez uma tentativa de encontrar harmonia em um corpo inadequado, achar beleza em um corpo que não é o padrão. Trabalhei com um coreógrafo e duas bailarinas e vamos apresentar duas peças coreográficas chamadas Lasciva.

E nisso você chega no tema do feminino. Quando o foco vem para o meu corpo, vem para o corpo da mulher, que já chega com uma carga que é tentativa de domesticação e libertação. A exposição na Millan vai chamar Bacante, como na peça de Eurípedes, mas no singular. Isso para tentar personificar e trazer para o presente essas mulheres. Até onde eu entendo, me parece que é um dos primeiros momentos no teatro em que você vê mulheres muito decididas, inteiras e assumidamente sexuais. Eu queria abrir espaço para pensar nisso.

Você poderia falar mais sobre a doença que enfrentou nesses últimos anos? Eu tive uma doença genética muito rara chamada miopatia mitocondrial [doença neuromuscular que resulta no mau funcionamento das mitocôndrias nas células musculares]. A energia celular produzida pela mitocôndria não chegava no músculo e ele ia atrofiando. O primeiro sintoma foi o cansaço, depois passei a ter dificuldade para subir escada, até o ponto em que eu não conseguia mais andar. Caminhava um quarteirão e depois só com um carrinho elétrico. Usava aparelhos para sustentar o pescoço, o tronco. Comecei a ter dificuldade para engolir e não podia mais comer, só tomava líquido.

O tratamento que gerou a obra Chance deu resultado? Não, não foi uma grande chance, eu fui só piorando e basicamente ficava deitada, não conseguia trabalhar muito. Pesquisava coisas no celular, fazia o que conseguia. Durante esses cinco anos da doença, passei dois fazendo tratamentos muito pesados – quimioterapia, tomei muito corticoide e nada dava resposta. E aí comecei um tratamento diferente, em março de 2018, com um médico ortomolecular, que meu pai insistiu para eu visitar. O que ele fez foi tentar reequilibrar quimicamente o meu organismo. Basicamente, me deu muito antioxidante e vitaminas que tomo até hoje. E aí do mesmo jeito que fui piorando, fui melhorando. Foi meio inacreditável. 

E você está curada? Sim. Em julho, quando estava em Nova York trabalhando, percebi que estava bem. Voltei a andar de bicicleta, que era uma coisa que eu não fazia há cinco anos. Voltei a subir escada, estou fazendo musculação. Devagar, mas retomando. Subi a rampa da Bienal de São Paulo e comecei a chorar porque fazia anos que não conseguia isso.

Quando que você sentiu vontade de falar de rótulos femininos, como na série A Libidinosa (2018)?  Tenho pensado muito no quanto a gente é livre e no quanto a gente não é. O ponto de partida foi uma série fotográfica assustadora de mulheres consideradas histéricas no século 19. Havia toda uma encenação nessas imagens e, no meio desses estudos médicos, eles a chamavam de "a venenosa", "a febril", "a libidinosa". Eram classificações e uma tentativa, ao meu ver, de domesticar ou controlar essa sexualidade, de colocá-las em caixinhas. E também perceber que a gente ainda vive isso.

Em algum momento você questionou se os seus trabalhos que tratam de questões feministas deveriam ser mais panfletários? Não. Eu acho que, pelo momento em que a gente vive, devemos ser inteligentes e estratégicos no que queremos comunicar. A potência da arte é ir para um lugar que envolve sedução e que a pessoa nem percebe que você está colocando uma coisa mais subversiva. Gosto de pensar a pintura como um lugar onde há um veneninho, não uma metralhadora.

Entre seus trabalhos recentes está uma série em que fala de afogamento. Por que esse tema? Começou com um vídeo horrível que eu vi de um refugiado se afogando num canal em Veneza. As pessoas não faziam nada e filmavam. Comecei a procurar os depoimentos dessas pessoas e o argumento delas era que ele estava se matando. E um deles falou: "Alguém jogou uma boia e ele não pegou, estava querendo se matar”. Mas, se tem alguém se jogando do prédio, você vai lá e agarra! Fui pesquisar afogamento e existe uma situação muito específica chamada "resposta instintiva do afogado", que dura de 20 segundos a 50 segundos. A pessoa está consciente, então sabe o que está acontecendo, mas o corpo age de modo involuntário. Então o braço faz um movimento como se estivesse empurrando a água para baixo, só que você não consegue subir porque a perna fica paralisada e a boca aberta tentando respirar. Não consegue pedir ajuda e, se alguém te der uma boia ou a mão, você não vai pegar. Deve ser uma coisa desesperadora.

Por isso você deu o título “Not waving but drowning” (não acenando, mas afogando, em tradução livre) à uma das pinturas.  Sim, é o título de um poema da inglesa Stevie Smith que fala de um homem que estava no mar e as pessoas achavam que ele estava acenando mas, na verdade, ele estava se afogando. Lendo sobre isso eu obviamente associei com o que eu estava passando, com essa parte da doença que era basicamente ter uma cabeça muito lúcida e um corpo que eu não conseguia controlar e que estava literalmente se afogando – e que isso não era visível. Achei que essa condição, além de ter uma relação muito pessoal, é uma condição de estar nesse limite entre a vida e a morte, de um corpo que você já não controla mais. Chamei uma bailarina para a gente tentar fazer uns movimentos a partir disso e fiz essa pintura.

Você teve medo de morrer? Acho que era mais uma vontade de continuar, uma vontade de não morrer do que um medo de que isso acontecesse. Mas, ao mesmo tempo, nos piores dias – em cinco anos eu tive uns três ou quatro dias muito pesados – parecia interessante a possibilidade da morte. Não que eu estivesse pensando em me matar, mas estava com uma dor insuportável, já tinha tomado morfina e não tinha passado, não conseguia me mexer nem dormir. Até que ponto vou insistir? E aí não era mais um medo, era quase um lugar de desejo. Chegou esse momento em que comecei a cultivar uma relação com a morte. Você vê de perto um lugar que não é tão assustador, entende que talvez seja quase que um alívio para a situação em que você está. Mas é maluco voltar depois de passar por isso. Agora, minha sensação é de ter nascido de novo, literalmente.

E hoje você acorda às 7 horas da manhã para trabalhar. Exatamente! [risos] Trabalho que nem uma louca, 13 horas por dia e feliz, com uma euforia.

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