por Carol Ito

Nome em ascensão do humor, Daniel Furlan fala sobre Choque de Cultura, astrologia, vaidade e a (des)importância do riso nos tempos atuais

Daniel Furlan já foi DJ de colação de grau, acadêmico e cartunista antes de se tornar um nome comentado do humor nacional. Há quem se lembre de sua atuação completamente nonsense em O Último Programa do Mundo, exibido pela MTV, em 2013. Ou do ex-empresário do ramo futebolístico e comentarista Craque Daniel, do programa Falha de Cobertura, da TV Quase (canal no YouTube que ajudou a criar, em 2008). Mas foi com Renan de Almeida, o motorista invocado do programa Choque de Culturatambém da TV Quase, que ele chegou às tardes de domingo da Rede Globo, em 2018.

O Choque de Cultura que, inicialmente, era um programa em que Daniel e outros três atores interpretavam motoristas de van que fazem as vezes de críticos de cinema, se tornou um programa de auditório em julho deste ano, o Choque de Cultura Show. “Quando eles nos chamaram pra uma primeira conversa, não achei que iria engrenar. Pensei que deixaria de ser nosso, que a gente não iria mais escrever, dirigir e editar, mas tudo isso foi mantido”, explica. 

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Daniel, 39 anos, nasceu em Vitória (ES), se mudou para o Rio de Janeiro com 6 anos e mora em São Paulo desde 2013. O currículo do capixaba é extenso: foi roteirista do desenho animado Irmão do Jorel (exibido pela Netflix e Cartoon Network), criou o canal de humor Amada Foca, no YouTube (reunindo ex-VJs da MTV), foi roteirista do Lady Night (talk show apresentado por Tatá Werneck), atuou na série Samantha! (Netflix) e em comédias como Copa de EliteLa Vingança e TOC - Transtornada, obsessiva e Compulsiva. Também foi vocalista e guitarrista da banda de rock Ócio, formada em Vitória.

“Acho que pensam que eu vou ser o zoão da galera quando não tenho nenhum interesse em zoar ou em galera. ”
Daniel Furlan, humorista

Além do Choque, ele pode ser visto na série Pico da Neblina, da HBO, em que interpreta Vini, um investidor do ramo da cannabis. Até o fim do ano, Daniel, junto com o roteirista da TV Quase Pedro Leite, pretende terminar de escrever o livro de autoajuda do personagem Craque Daniel, intitulado Você não merece ser feliz - 20 passos para conseguir mesmo assim, que será lançado pela editora Intrínseca, em 2020. “O título é provisório, ainda não sei se serão 20 passos, estamos escrevendo e entendendo exatamente quantos passos precisa pra ser feliz, mas devem ser muitos”, adianta.

Batemos um papo com o ariano sobre a vida antes da fama, carreira, astrologia, Choque de Cultura e a importância (ou não) do humor nos tempos atuais.

Tpm. Sua mãe é astróloga, certo? O que os astros dizem sobre você?
Daniel Furlan. Quando eu era mais novo e ela achava que eu estava em crise, marcava com um astrólogo de confiança dela, porque, na real, não se faz mapa de parente. Os astros não dizem nada bom sobre mim, sou ariano com lua em capricórnio e meu ascendente minha mãe deduz que é escorpião, mas o parto foi muito complicado, não se sabe certinho a hora, provavelmente foi arredondada. Na certidão, é sagitário. De qualquer forma, essa combinação não é algo que se diga por aí, pega mal. Eu não sei me aprofundar no que os astros dizem disso, não sou astrólogo. Mas se alguém fala que tem essa combinação numa roda de conversa a tendência é as pessoas pouco a pouco irem embora.

Você é hétero? Que eu saiba sou hétero, sim.

Você é vaidoso? Não gosto dos meus dentes, cabelo, corpo, voz e meu jeito de andar. Acho que isso faz de mim vaidoso. Por outro lado, nunca fiz nada em relação a isso, o que provavelmente faz de mim relaxado.

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As pessoas têm a expectativa de que você seja engraçado o tempo inteiro? Acho que sim, porque eu noto a decepção nos olhos delas quando me conhecem pessoalmente. Acho que pensam que eu vou ser o zoão da galera quando não tenho nenhum interesse em zoar ou em galera. No trabalho também, porque posso ser muito simpático e solar por e-mail, mas não sou capaz de estar à altura dos meus belos e-mails no trato pessoal.

Você faz mil coisas, em diversas linguagens. É workaholic? Não sei se sou workaholic, mas, quando você sucateia sua vida pessoal e não tem nenhum interesse real fora do trabalho, a parte profissional tende a render bastante. Dica aí pra os jovens.

Como foi o salto do Choque de Cultura no YouTube para a Globo? O que mudou? Na Globo, não podemos falar palavrão por causa do horário, mas, por mais que a gente soltasse um "porra" ou "merda" no Choque no YouTube, a graça não estava nisso, então, não faz falta. Mas pra quem faz absoluta questão de ouvir "porra" e "merda" pra achar algo engraçado tem um monte de outros programas por aí. As obsessões dos nossos chefes, Dani Ocampo e Marcius Melhem, são que o programa fique engraçado e dinâmico, que são as nossas obsessões também, então, nos damos bem. Quando eles nos chamaram pra uma primeira conversa, não achei que iria engrenar, pensei que deixaria de ser nosso, que a gente não iria mais escrever, dirigir e editar, mas tudo isso foi mantido. Inclusive, o formato novo foi ideia nossa, dentro do nosso sonho de sermos Serginho Total [programa exibido pela emissora NGT, do Rio de Janeiro]

Em qual momento você costuma ter ideias para o programa? No banho, sentado no boteco, assistindo à TV? Ideias surgem a qualquer momento, principalmente as ruins, mas com menos frequência quando você precisa delas. Eu anotava muito, mas na maioria das vezes não entendo minha letra e, quando entendo a letra, não entendo o sentido. Costumava anotar só algumas palavras-chave que achava que pareciam suficientes na hora, mas não faziam sentido depois, tipo "saxofone Mauro Silva". Mas vejo muito TV. Sensacional, Superpop (talvez agora tenha outro nome) são referências recentes fortes, fora Serginho Total e Camisa 9, que são nossas referências maiores.

Já pensaram em incluir mulheres no Choque de Cultura? Quem acompanhar essa temporada que tá rolando agora até o fim vai ter algumas surpresas em relação a participações femininas.

“Não dá pra justificar que tá sem graça porque não teve liberdade, eu não quero essa desculpa. Se tiver sem graça pode vir cobrar da gente.”
Daniel Furlan, humorista

O que fazia antes de ser humorista? Não sei se sou humorista, mas antes de trabalhar com o que quer que seja, já fui uma série de coisas, como tradutor de videogame, cartunista, músico. No audiovisual, já tive uma série de funções como assistente de direção, assistente de câmera em inauguração de condomínio ou DJ de colação de grau (não sei se isso é bem audiovisual), onde eu tinha que dar play nas músicas que os formandos tinham escolhido. Quando dava algum problema no arquivo do Jota Quest ou do Capital Inicial e a música que eles tinham pedido não tocava, às vezes eles choravam, porque era um momento muito importante. Carrego essa culpa.

Você fez um mestrado em artes midiáticas pela Universidade de Greenwich, em Londres. Pensava em seguir carreira acadêmica? No mestrado, achava que seria professor, sim. Não planejava exatamente porque não planejava nada, mas achava que era isso que ia acabar acontecendo. Mas nunca o que a gente acha que vai acontecer acontece.

Qual a principal conclusão da sua pesquisa de mestrado? A tese, Riso Culpado, fala sobre o prazer que existe no riso com culpa, ou seja, rir de algo do qual supostamente não deveria se estar rindo por racionalmente entender que é errado, mas ainda assim (antes de completar essa compreensão) achar engraçado. Como uma blasfêmia. Me perguntam com alguma frequência sobre essa tese, mas não gosto de me estender muito porque tem anos que nem olho pra ela e não sei mais o que penso sobre. Mas era basicamente isso.

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Você fazia quadrinhos para a revista Quase, da qual era editor no começo dos anos 2000. Pensa em voltar a fazer quadrinhos em algum momento? Eu era um cartunista preguiçoso, não tinha um traço muito trabalhado, então, poder materializar minhas ideias em outros meios foi um alívio. Ainda assim, o que penso em fazer eventualmente seria publicar um livro com alguns desenhos, textos e colagens, mas algo numa linha caótica, tudo ao mesmo tempo, uma coisa por cima da outra.

“Não vai ser o humor que vai ter importância pra nada, além de fazer a gente rir um pouco enquanto afunda.”
Daniel Furlan, humorista

Falando em caos, O último programa do mundo, da MTV, era bem caótico. Rolava liberdade total no roteiro e atuação? Como era o processo? Tínhamos liberdade criativa, mas muita restrição orçamentária, o que limitava, por outro lado. A gente queria trazer entrevistados do Brasil inteiro e não tinha como, então, acabamos formatando um programa que entrevistava os funcionários do prédio. O mais importante é como se encontra as soluções criativas para as restrições. Não dá pra justificar que está sem graça porque não teve liberdade, eu não quero essa desculpa. Se tiver sem graça, pode vir cobrar da gente.

Você foi colunista da Folha de S.Paulo. Como rolou esse convite? Escrevi por um ano, publicavam os textos às segundas. Infelizmente, não tenho nenhuma história interessante de superação pra esse trabalho, eles me mandaram um e-mail me convidando e eu aceitei. Foi isso, um e-mail.

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Como foi trabalhar com Tatá Werneck em Lady Night? Eu não fiz essa nova temporada do Lady Night, mas contracenar com a Tatá sempre foi ótimo. Acho que é a pessoa mais engraçada que eu já conheci, mas eu não conheci muitas pessoas.

O que você ainda não fez, em termos profissionais, que gostaria de fazer? Sempre fico meio incomodado comigo mesmo quando chega essa pergunta, porque eu realmente não gostaria de fazer nada. Mas quando aparecem os projetos eu acabo gostando.

Com tudo tão tenso no Brasil, qual a importância do humor? Nenhuma importância. Para mim, a coisa é tão grave, estarrecedora e sem perspectiva de melhora que não vai ser o humor que vai ter importância pra nada, além de fazer a gente rir um pouco enquanto afunda.

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