I May Destroy You: liberdade e consentimento sexual

por Maria Clara Drummond

A exploração da juventude entra em colisão com as nuances do consentimento sexual na série escrita e estrelada por Michaela Coel para a BBC One e HBO

Arabella Essiedu é uma bem-sucedida escritora de trinta e poucos anos que explora livremente sua sexualidade entre noitadas com os amigos em East London. A premissa de I May Destroy You, escrita, produzida e estrelada por Michaela Coel para a BBC One e HBO, poderia lembrar, a princípio, Sex and the City. Mas, aqui, em vez de uma elite branca politicamente alienada que encontra empoderamento em sapatos Manolo Blahnik, temos a realidade, nua e crua, etnicamente diversa, que abrange diferentes tipos de orientação sexual e de identidade de gênero, em todas suas nuances. E, principalmente, qual o custo que uma mulher – no caso, uma mulher negra – paga por essa liberdade.

O principal incidente da trama ocorre no primeiro episódio: Arabella sai com os amigos para um bar quando sua bebida é batizada. Ela é estuprada, mas tem poucas lembranças do ocorrido. A partir daí, em busca de montar o quebra-cabeça em sua memória, Arabella revive episódios marcantes de sua vida enquanto investiga as nuances do consentimento, tanto em sua história quanto na de seus amigos. 

Arabella não é a vítima ideal: santa, casta, virgem, recatada, pudica, religiosa, mãe de família – e, vale dizer, branca, que gerou a terminologia sociológica “missing white woman”. Ao contrário, Arabella bebe shots, e não uma taça de vinho socialmente, como uma boa menina; Arabella usa drogas, mistura quetamina e cocaína, maconha e MDMA; Arabella faz sexo casual com pessoas que acabou de conhecer, ou seja, estranhos. Arabella tem o comportamento padrão de muito jovem solteiro que mora em uma metrópole em 2020. Esse estilo de vida, embora relativamente comum, não tem representações fidedignas na mídia – e, se tem, é envolto numa aura de tabu e condenação moral, e não dentro da esfera cotidiana, até mesmo ordinária e banal. 

A expressão “sexo, drogas e rock n’roll” foi popularizada no ápice do amor livre que caracterizou os anos 70. É uma expressão carregada de glamour, representativo de algo extraordinário, aventureiro, subversivo. Mick Jagger, Jim Morrison, Bob Dylan, Kurt Cobain são ícones tanto por sua música quanto por suas controvérsias. Até podem não ser um exemplo, mas a condenação não entra tanto na moralidade, e sim na tragédia. São anti-heróis cheios de vigor e angústia, alvos de admiração, não escárnio. Sobretudo, em geral são homens brancos, ricos, poderosos, protegidos pela fama, que podiam experimentar à vontade, fazer o uso que quisessem de seus corpos, e até, em alguns casos, impunemente, abusar do corpo dos outros (coisa comum naquela época em que o feminismo ainda engatinhava, muito antes do #MeToo). Mas, quando essa mesma experimentação é feita longe das esferas de poder, há uma profusão de riscos que a série tão habilmente explora. 

Essa confusão é bem exemplificada pelo ménage à trois feito por Terry, melhor amiga de Arabella, numa viagem à Ostia, na Itália. À princípio, Terry parece se sentir empoderada por estar transando com dois homens que conheceu por acaso num bar. Ao menos, é essa a impressão que procura transmitir quando posteriormente se vangloria do feito para os demais. Mas, durante o ato em si, é possível entrever alguma hesitação em seu olhar, talvez influenciada pelo imperativo do gozo que demanda: transem transem transem (um contraponto, direcionado à um nicho menor, é verdade, mas também com sua dose de opressão, à demanda da mulher casta). Mais tarde, Terry percebe que aquele não havia sido um encontro orgânico entre três desconhecidos, e sim que os homens já se conheciam e forjaram uma situação para seduzi-la. Nesse momento, o empoderamento de se perceber como agente de sua própria aventura desaparece. Agora, Terry é um objeto, e ela se sente enganada, até mesmo violada, a tal ponto que considera aderir ao grupo de apoio frequentado por Arabella. A autoexploração da sexualidade feminina está sempre por um triz de tornar-se um risco para nossa integridade física ou psíquica. 

A dicotomia entre objeto e agente se dá de forma mais complexa com outro melhor amigo de Arabella. Kwame é um personal trainer gay que utiliza de modo quase compulsivo aplicativos como o Grindr. Em dado momento, ele é violentado depois de um encontro anônimo consensual. Enquanto se recupera, decide dar uma pausa nos seus encontros com homens e testar como seria sexo com uma mulher, o que até então nunca havia feito. A garota branca sequer esconde que fetichiza seu corpo masculino negro. Mas, quando descobre que ela também é uma experimentação, fica ofendida. Para essa geração, cada vez menos interessada em arranjos tradicionais como casamento, sexo casual não é mais tabu, é algo cotidiano. Logo, a objetificação do corpo do outro é inevitável, pois não é possível estabelecer vínculos afetivos, e se preocupar de forma genuína com o sentimento alheio, com tamanha rotatividade de corpos. 

Michaela Coel, que se identifica como aromântica (ou seja, alguém que acredita que relações platônicas, românticas e sexuais funcionam melhor em separado), questiona o quanto estamos confortáveis com isso. É como se precisássemos navegar entre as mazelas psíquicas da repressão sexual e os possíveis traumas infligidos àqueles que ousam subverter a ordem cis-heteropatriarcal. No fim, a resposta de Micaela Coel é que sim, vale a pena. O trauma, se for tratado com o afeto e terapia necessário, pode ser construtivo tanto numa esfera individual quanto coletiva. E, assim, emerge uma esperança que um dia possamos todos ser livres sem sermos punidos por isso.  

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Imagem principal: Reprodução

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