Emilio Dantas revê machismo de Todas as mulheres do mundo

por Carol Ito

Isolado na casa em que vive no Rio de Janeiro com Fabíula Nascimento, o ator bate um papo com a Tpm sobre masculinidade e fala dos desafios de reviver um personagem criado há mais de 50 anos

Depois de se consagrar com personagens como Beto Falcão, na novela Segundo Sol, e Rubinho, em A Força do Querer, Emilio Dantas agora dá vida a Paulo, personagem da série Todas as mulheres do mundo, lançada pelo Globoplay. O protagonista é um arquiteto morador de Copacabana que, depois de trair e romper com a namorada Maria Alice (interpretada por Sophie Charlotte), se relaciona com uma mulher diferente em cada um dos doze episódios.

Na internet, as atitudes do personagem dividem opiniões. De um lado, há quem o elogie como um cara romântico e intenso, um tipo raro em tempos em que o distanciamento afetivo já era uma realidade mesmo antes da pandemia impor o distanciamento físico. Do outro, há quem o compare a um típico "esquerdomacho", expressão pejorativa usada para tipificar homens que dizem ter pensamentos progressistas, mas, apesar de parecerem bem intencionados, reproduzem o mesmo machismo que pode levar a relacionamentos abusivos.

"Eu sempre fui um grande defensor de manter os erros do Paulo", diz Emilio Dantas, 37, ator carioca que interpretou o protagonista e colaborou no processo de adaptação do personagem aos tempos atuais, já que a série é livremente inspirada no filme homônimo de Domingos Oliveira (1936-2019), lançado em 1966 e protagonizado por Paulo José e Leila Diniz. 

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A série atual, escrita por Jorge Furtado e Janaína Fischer, com direção artística de Patricia Pedrosa, contou com uma equipe composta em sua maioria por mulheres e, no elenco, estão nomes como Matheus Nachtergaele, Martha Nowill, Fernanda Torres, Lilia Cabral, Maria Ribeiro, Fábio Assunção e Maeve Jinkings.

Emilio, que estava no meio das gravações da minissérie Fim (baseada no livro homônimo de Fernanda Torres) quando estourou a pandemia, falou com a Tpm por telefone de sua casa no Rio de Janeiro, onde vive com a companheira e também atriz Fabíula Nascimento há três anos. No papo, ele fala sobre masculinidade, o lugar do esquerdomacho e conta como está lidando com a quarentena. 

Tpm. Como foi a preparação para viver o personagem? 

Emilio Dantas. Eu não conhecia profundamente a obra do Domingos Oliveira, então, fiz um mergulho em seus filmes, principalmente o Todas as mulheres do mundo e o Edu, coração de ouro [de 1968, também protagonizado por Paulo José], que me ajudaram a montar o Paulo de hoje. Bati um papo maravilhoso com o Paulo José e o principal conselho que ele me deu foi: “Divirta-se, tenha prazer em fazer isso, era o que o Domingos sempre falava para todo mundo”. Foi um processo super rápido, uns dois meses de preparação e, no começo do segundo semestre de 2019, já estávamos gravando. 

Como foi pensar a adaptação desse personagem e sua relação com as mulheres, com base em uma obra lançada há mais de 50 anos? A preocupação foi justamente a adaptação de valores, de conceitos, de comportamentos. Dentro desse novo perfil de masculinidade que temos que encarar, achei que seria mais honesto mostrar os erros da época que ainda são pertinentes para serem discutidos. A equipe composta em sua maioria por mulheres ajudou muito.

“Dentro desse novo perfil de masculinidade que temos que encarar, achei que seria mais honesto mostrar os erros”
Emilio Dantas, ator

Como uma equipe majoritariamente feminina influenciou nesse processo? A gente batia muito papo, todo mundo deu pitaco, foi um processo muito humano. No roteiro, fica nítido que as mulheres da série são livres, né? Elas passam pela vida do Paulo, pela vida do Cabral [amigo de Paulo, interpretado por Matheus Nachtergaele] e cabe a eles se modificarem, reverem os erros, os conceitos sobre o masculino. A gente levantou questões como: por que esse cara? Por que falar de mulheres diferentes se relacionando com esse cara? Por que não uma mulher se relacionando com outros caras? Tinha várias formas de pensar, mas é a obra do Domingos, como ela foi escrita. Fala de um homem porque as mulheres já estão evoluídas, elas vão estar sempre à frente, têm uma praticidade carinhosa, sabem que a racionalidade é conduzida através do afeto e não da dureza do certo ou errado.

Até rolaram algumas críticas na internet sobre a necessidade de ter, mais uma vez, um homem dizendo o que pensa sobre as mulheres, como é se relacionar com mulheres. Eu concordo plenamente, a gente estava até brincando outro dia que, para uma segunda temporada, a Laura [amiga de Paulo, interpretada por Martha Nowill] poderia ser a protagonista, acho que aí a coisa andaria bonito. No meu entender, é o seguinte: na arte, a gente sempre precisa movimentar o que está parado. Uma mulher como protagonista seria apenas um regozijo do que a gente já conhece que é essa evolução, esse descomplicamento feminino, essa segurança que as personagens da série trazem. Acho que é mais importante rever os conceitos masculinos do que simplesmente inverter os papéis.

Parece que o personagem percebe que tem atitudes machistas, mas não se aprofunda muito nessa revisão, até abandona a terapia em um dos episódios. Você concorda? Eu não tenho uma opinião formada, para ser bem sincero. É uma série leve, rápida, em que a gente junta muito das reflexões do Domingos. Eu sempre fui um grande defensor de manter os erros do Paulo, já que a gente não tinha muito espaço para aprofundar. Com isso, a série continua no Twitter, nas rodas de discussão, no imaginário das pessoas, enfim, nas transformações de cada um.

Você acha que o Paulo se encaixa no perfil de esquerdomacho? O que você considera um esquerdomacho? Concordo também. Acho que o esquerdomacho é o cara que traz alguma sensibilidade [para a questão do machismo], só que, dentro dessa sensibilidade, tem uma certa consciência de poder tirar proveito disso. Eu acho que o Paulo realmente não tira proveito da situação sendo esquerdomacho, mas também não revê profundamente seus erros.

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Através do personagem e das conversas com as mulheres da equipe, você reviu alguma atitude sua? Pode dar um exemplo? Não sei dizer exatamente um exemplo, a gente nunca vê a curva da mudança, não existe essa portinha mágica que a gente abre e fala “é aqui”. São pequenas atitudes que você vai mudando e chegando a um lugar melhor. Eu tive uma educação machista, sou da década de 80. Era o ciúme, a possessividade, a banheira do Gugu, sabe? Tinha um cardápio de mulheres na banca de jornal todo mês, é um universo muito louco para se desconstruir, porque tudo aquilo fez parte de você. 

“Acho que o esquerdomacho é o cara que traz alguma sensibilidade [para a questão do machismo]”
Emilio Dantas, ator

Como a série ajuda a repensar os relacionamentos afetivos, ainda mais agora, em tempos de distanciamento físico? Eu acho que é valorizar os encontros, né? Mas o mais maneiro da série é justamente não responder nada. A série, assim como toda filosofia, como toda poesia, não é sobre responder, e sim, levantar mais perguntas. Nesse momento da quarentena, onde a gente está sendo obrigado a se reter, se observar, se policiar, a série traz muitas perguntas importantes, principalmente sobre o tempo da gente, o tempo que rege nossas relações. 

Como está sendo a sua quarentena? Estou com a Fabíula e, remotamente, é muito complicado a gente trabalhar como artista, muito embora exista um campo aberto para se criar várias coisas. Então, estou exercitando muito a minha criatividade, pensando em possibilidades de ajudar quem precisa, limpando a casa, cuidando da horta, estudando teoria musical. Acho que se a gente não aproveitar esse momento para se reavaliar, se modificar um pouquinho, não está valendo.

Créditos

Imagem principal: Sérgio Santoian

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