por Martha Nowill
Tpm #151

A atriz que viveu a namorada do derrière mais comentado da temporada – o de Paolla Oliveira na minissérie Felizes para sempre? –, narra como descobriu que, no país do carnaval, não tinha bunda

Eu devo ter passado pela fila da bunda num lugar bem longe daqui, onde, aliás, passei por várias outras filas. A dos cabelos e pelos em geral, a fila das coxas, da simpatia (acho), dos peitos e boca. Passei pela fila da gula, da teimosia, dos olhos. Passei duas vezes na fila da ansiedade e quando fui passar pela fila da bunda caí num contêiner francês e ganhei esse derrière discretinho. 

Na infância, o que importa de fato nos recreios da escola são os cabelos e as tiaras, e, como naquela época sofria da síndrome do quero ter o cabelo liso, não havia espaço ou motivo para sofrer pela bunda. Na verdade nem pensava nela. Mas, quando veio a primeira festinha em salão de prédio e tive que me espremer numa calça jeans semibag, percebi que, no lugar da bunda redondinha que as minas exibiam, havia uma espécie de tábua na parte de trás do meu corpo. E assim, tomada por um ímpeto de tragédia grega combinado ao desespero de uma pré-adolescente, descobri, fria e cruamente, que eu, pobre de mim, no país do Carnaval, não tinha bunda.

Qual foi minha primeira atitude positiva diante disso? Culpar meus pais, claro. E, de fato, nem meu pai, nem minha mãe, nem os avós e bisavós eram dotados de bundas fartas. E o fato de eles serem bonitos e inteligentes pouco me importava, eu queria progenitores com bunda. Saco.

Descobri, acidentalmente, que, para os desbundados como eu, saias curtas, tipo as kilts, têm o poder de criar um falso volume na região do quadril. Adotei o uso delas sempre que possível. Também descobri uma parada chamada colo, que mais tarde tomaria forma em decotes e mais decotes, que às vezes beiravam o abusivo. Destemperada, eu seguia intuitivamente a máxima: "Se você não quer que reparem numa coisa no seu corpo, chame a atenção para outra".
E veio o tempo das caneleiras, de ficar de quatro no tapete da sala de TV, a Era Cindy Crawford. Minha irmã mais velha comprou um VHS de ginástica que mostrava a Cindy, linda, num lugar lindo, com um sorriso lindo e uma bunda perfeita malhando sem parar. Foi o hábito de tentar imitá-la que provavelmente me presenteou com pelo menos uma das seis hérnias de disco que hoje possuo.

 "Tem certeza que quer filmar minha bunda? Deixa eu mostrar meu peito, meu peito é tão melhor!"

Nos trinques
Em algum momento dos anos 90 os modelos das calças mudaram, mas meu problema com a bunda continuava, agora com o agravante de que calça de cintura baixa ressaltava as ancas, digo, fazia saltar aquela banha lateral. E aí comecei a querer emagrecer, já que não ter bunda era ruim, mas ser gordinha era pior ainda. E de fato emagreci, muito, e o que aconteceu com minha bundinha discreta? Ficou praticamente invisível!

Os anos se passaram e eu descobri que havia outras coisas na vida além de ser bunduda. Comecei a fazer teatro, ler muito, viajar. E comecei a gostar mais de mim. Ralei para isso, mas consegui.

Aí um belo dia me chamaram para fazer um filme em que eu tinha que ficar pelada. Panicada, corri para uma cirurgiã para tentar uma minilipo, daquelas que se fazem sem anestesia geral, nas ancas. A médica me examinou e disse que antes de eu engravidar deveria deixar meu corpo nos trinques. Eu não estava pensando em engravidar, mas por que não deixar o corpo tinindo? Ela sentenciou: se fizesse uma lipo nas ancas teria que fazer no abdômen. E que se mexesse no abdômen o ideal era aproveitar a gordura tirada e enxertar na minha bunda, que, segundo ela, ganharia muito com isso, mesmo tendo que ficar 15 dias sem poder sentar. Também disse que tiraria um pouco do papo, que até então eu não sabia possuir, e afinaria os braços, entre outras coisas. Em 45 minutos e eu já estava marcando a data e pedindo para ela dividir o procedimento em dez vezes.

Em tempo, desisti da loucura. Já no set, implorei para o diretor: "Tem certeza que quer filmar minha bunda? Deixa eu mostrar meu peito, meu peito é tão melhor!". "A bunda", ele disse. E assim foi. Alguém falou: empina a bunda na hora do take. Mas eu, imbuída da situação e da personagem, esqueci do conselho, e tive que ver, em cores e HD, um dos meus piores pesadelos. Sete anos depois filmando Entre nós tive que mostrar os peitos. Sim, foi mais fácil. Mas, a verdade é que eternizar a nudez diante das lentes é sempre embaraçoso.

Mas, voltando, continuei minha jornada atrás de um lugar ao sol e de uma bunda, claro, passando por pilates, musculação, rolfing, ginástica passiva, até acabar comprando em 12 vezes uma daquelas plataformas vibratórias de comercial da televisão. Se aquilo recuperava os músculos atrofiados dos astronautas, certamente recuperaria a bunda que nunca tive. Acho que foi nessa época que adquiri mais umas três das minhas seis hérnias de disco de estimação.

Fui parar num fisioterapeuta francês para coluna que finalmente tirou a dor das minhas hérnias e proibiu o excesso de exercícios. E então, com o aval médico, desencanei das loucuras pirotécnicas e milagrosamente comecei a achar minha bunda simpática, gostosinha até. Acho que sou o tipo de mulher vinho, melhora com o tempo. Qual não foi a minha surpresa quando meu namorado um dia me agarrou e me disse em letras maiúsculas: "AMO A SUA BUNDA!".  "Justo ela?", retruquei, "a pior parte do meu corpo?!?" "Ela é linda, você não percebe porque ela tá nas suas costas", João me disse. Fui dormir em glória e acordei a Miss Popozuda que sempre quis. 

Coincidindo com essas reflexões profundas e traseiras, estive no ar contracenando com Paolla Oliveira, minha namorada na série Felizes para sempre?, dona da bunda mais linda e comentada do momento. Que de fato é, sim, dela.

Já no teatro, onde estou em cartaz com a peça Animais na pista, faço questão de realizar uma troca de figurino em cena, de costas para a plateia, exibindo meu lindo derrière à meia-luz, conquistado à base de muita paciência e poesia.

*Martha Nowill é uma atriz paulistana de 34 anos. Ganhou em 2013 o prêmio de melhor atriz coadjuvante no Festival do Rio pelo longa Entre nós. Hoje, está em cartaz com a peça Animais na pista e produz dois documentários, Vermelho Russo em parceria com Maria Manoela, e outro pelo canal HBO sobre sua avó, Dorina Nowill.

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