por Alana Della Nina
Tpm #180

Por que falamos tão pouco sobre as mulheres que não podem engravidar? A Tpm resolveu enfrentar o tabu da infertilidade e os sentimentos de vergonha, inadequação e solidão que acompanham o silêncio

O silêncio é frequentemente o caminho que resta às mulheres que desejavam, tentaram, mas não conseguiram ter filhos, deixando para trás processos dolorosos não resolvidos e questões que muitas vezes as acompanham desde pequenas. Como muitas garotas, a executiva Renata Altenfelder brincava de escolher os nomes de seus futuros filhos quando criança. “Venho daquelas famílias superunidas. Queria construir algo parecido”, lembra.

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Já crescida, conforme avançava na vida profissional, a vontade de engravidar acabou adiada. A decisão veio aos 36 anos, mas, ao realizar exames, diagnosticou um tumor benigno no útero e se submeteu a uma cirurgia. Quatro anos depois, ela retomou os planos. Foi quando descobriu que tinha uma contagem baixa de óvulos. “Tentamos por alguns meses e resolvemos procurar ajuda.” Era o início de uma jornada que duraria outros quatro anos.

Renata partiu para a fertilização in vitro (FIV), tratamento no qual os óvulos, estimulados por hormônios, são retirados e, em laboratório, fecundados por espermatozóides. Se o óvulo fertilizado virar um embrião, ele é implantado no útero. Das cinco tentativas, apenas uma resultou em implantação, mas sem sucesso. “Um dia antes da data que confirmaria a gravidez, perdi”, conta, hoje, aos 45 anos. Do processo, ficaram as marcas físicas e emocionais: o inchaço, as dores, o desânimo, a angústia. “Para quem tentou o tratamento e não conseguiu, como eu, acho que há diversas coisas de que acabamos não falando.”

A história de Renata, assim como a de outras tantas mulheres, corre na sombra das bem-sucedidas experiências da maternidade. Não realizar esse desejo vai na contramão de uma fantasia que, na maioria das vezes, começa quando meninas se imaginam com 30 anos, casadas, com filhos e realizadas profissionalmente. Mas, por mais que as mulheres tenham conquistado independência, reconhecimento profissional e autonomia, a natureza permanece a mesma. E é soberana: para se tornarem mães, elas dependem do relógio biológico, que, salvo raras exceções, é pontual. “A partir dos 25 anos, o corpo da mulher começa a diminuir sua produção de óvulos e, entre os 35 e 37, esse processo se acentua e há uma queda da qualidade ovariana. Depois disso, a diminuição é muito mais drástica”, explica a ginecologista e obstetra Eleonora Fonseca. “É recomendado que as tentativas de engravidar aconteçam antes dos 35 anos, para que, caso não consiga, a mulher tenha tempo de investigar as causas e pensar em um tratamento.”

“A partir dos 25 anos, o corpo da mulher começa a diminuir sua produção de óvulos e, entre os 35 e 37, esse processo se acentua”
Eleonora Fonseca

Ainda assim, não existem garantias. Desde os 19 anos, a empresária Shirlen Leal, 39, sabia que não poderia engravidar por ter feito a remoção do útero. Decidiu ter um filho com a ajuda da irmã, por meio da barriga solidária. Aos 30, ela e o marido iniciaram o tratamento de fertilização in vitro e passaram quatro anos tentando. “Você vai com a expectativa de engravidar de primeira. Mas não funciona assim. São muitos tratamentos invasivos, monitoramento”, relata. Após a falha da primeira FIV, mesmo desgastados, decidiram tentar novamente. “A mulher tem que estar muito estruturada para começar um tratamento, porque ele te desconstrói totalmente.” No início de 2018, conseguiu um embrião e, em setembro do mesmo ano, sua irmã confirmou a gravidez. “Caminhei por quatro anos num deserto e, finalmente, senti a brisa do mar”, diz ela, hoje mãe de Samuel.

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Assim como Shirlen e o marido, muitos casais ainda precisam lidar com o entrave financeiro para ter acesso ao tratamento de reprodução assistida: a fertilização in vitro – uma tentativa, apenas – pode custar entre R$ 10 e R$ 30 mil.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), no Brasil, um em cada dez casais enfrenta problemas de fertilidade – no mundo, são 60 milhões. As causas da infertilidade feminina podem ser muitas: endometriose, cicatrizes crônicas de inflamação pélvica, síndrome de ovário policístico e menopausa precoce. As causas masculinas equivalem a 50% dos casais inférteis, mas são facilmente tratáveis. “O homem tem a produção constante do espermatozóide, então consegue resposta rápida de tratamento ou até por mudanças simples de hábito”, explica Eleonora. Porém, o maior espectro da esterilidade é de causa desconhecida. “Um casal em condições normais tem de 30% a 35% de chance de engravidar durante um ciclo, ou seja, é mais fácil não engravidar do que engravidar todos os meses. Mas, fazendo isso repetidamente, no geral, acontece. Após dois anos de tentativas, muitos casais entram na causa desconhecida”, diz.

Uma perda sem nome

A jornalista Débora Rubin, 40, discutiu em muitas sessões de terapia se seu desejo pela maternidade era real ou fruto de uma construção social. “Tenho a sensação de que existem só duas alternativas: ou você é louca para ser mãe ou não gosta de crianças”, diz. Quando se viu pronta, estava com 37 anos. Débora engravidou logo, mas, com menos de dois meses de gestação, teve um aborto espontâneo. “Foi o ano mais difícil da minha vida. Lembro que, pouco tempo depois, visitei o recém-nascido de um amigo e, quando me deram o bebê no colo, devolvi correndo com medo de fazer mal a ele.”

Além da dor da perda, Débora teve que encarar o isolamento – ela só conseguia dividir o que estava sentindo com o marido. Segundo a psicanalista Renata Fortes, diferentemente de quando enlutamos por alguém que existiu e é possível elaborar essa morte por meio do luto compartilhado e de rituais de despedida, em um aborto espontâneo precoce não há um corpo a velar. “A experiência coloca essa mulher em um luto não compartilhado porque se trata de uma vivência subjetiva, que está relacionado a um projeto pessoal, um encantamento construído apenas pela mulher ou pelo casal”, explica.

“A última tentativa foi a mais dolorida. Gostaria de ter tido um filho, mas não me sinto menos mulher por não ter conseguido”
Renata Altenfelder

“A impossibilidade de engravidar gera vergonha e um sentimento de inadequação. Vivemos essa frustração muito só”, diz a professora de ioga para crianças Priscila Fernandes de Gouveia, 43 anos. Depois de tratar uma série de tumores, engravidou aos 36 anos, mas, na 14ª semana, o ultrassom revelou que o bebê estava morto. “O médico não teve delicadeza ao me contar e precisei carregar o bebê por dez dias até realizar a curetagem”, conta. Dois meses mais tarde, Priscila engravidou e teve outro aborto espontâneo, com nove semanas. Ela entrou em depressão e encarou um tratamento psiquiátrico antes de partir para a fertilização in vitro. Os sete anos de tentativas, no entanto, minaram as energias e o casamento de Priscila. “Essa frustração é dolorida entre o casal. Há um sentimento de culpa, um medo de o amor acabar.” Pela sua experiência, falta acolhimento às mulheres que lidam com o luto. “As clínicas de fertilização tratam pacientes em linha de produção e não oferecem suporte emocional”, diz.

Outro aspecto difícil de lidar na experiência da perda é a banalização do problema. Há uma crença de que o aborto espontâneo, por ser relativamente comum – no Brasil, acontece em 15% a 20% das gestações –, não deveria causar tanto sofrimento. “A mulher se envergonha com a intensidade do sofrimento, sente que a dor é desproporcional. Como se essa estatística desse conta da nossa subjetividade”, contesta a psicanalista. Débora sente que o fato de ter perdido o bebê cedo favoreceu a banalização. “Se não tem nome, roupinha, por que sofrer?”, diz. “Todo mundo fala que é comum. Comum para quem? Para mim, não foi. É um processo doloroso.”

Débora ainda ouvia de amigas e desconhecidos que logo engravidaria novamente. Mas nunca mais conseguiu. Prestes a completar 40 anos, descobriu uma endometriose e teve a recomendação médica de uma cirurgia para, assim, iniciar tratamento de fertilização in vitro ou inseminação artificial. “Fiquei atordoada e pensei: ‘Não é isso que quero para mim’”, diz. Hoje, ela pensa em adotar e se sente livre para tomar a decisão quando a hora – dela – chegar. “Me preparei para ter um filho biológico, agora preciso me preparar para um adotivo.”

Mesmo com diferentes narrativas, essas mulheres tiveram um entendimento em comum: se a jornada pela gravidez foi uma batalha perdida, por outro lado, marcou um recomeço. Ou, como diz Renata, um renascimento. “Não é só o não ter, é o que você faz com o resto das coisas. Encerrar essa etapa abriu portas para um novo mundo, outros sonhos que foram sendo construídos”, conta a executiva, que, durante a entrevista, estava em viagem ao Nepal. “Um dia, meu marido disse: ‘Rê, você é a minha família’. Ali, me deu um clique e tudo mudou. Pensei: ‘É isso, a gente já é uma família’.”

Olhar a vida

Priscila já entrou na fila de adoção e ainda não desistiu de engravidar, só que, por enquanto, prefere deixar a decisão por conta da natureza. “Se continuássemos nessa obsessão, iríamos deixar de viver o que temos hoje: um ao outro”, conta ela, que destinou sua vocação maternal aos alunos da ioga e às crianças de uma ONG. “Precisava cuidar de mim com o mesmo amor que queria dar a um filho. É um processo de automaternagem.”

“Deveríamos ensinar meninas a olhar a vida como um projeto que abrimos vários caminhos. A maternidade é só uma das muitas opções fantásticas”
Débora Rubin

Olhar para essa jornada com coragem e encarar o suposto fracasso foi um passo fundamental para cada uma delas entender que o sonho de ser mãe não precisa morrer para uma nova história de vida começar – ele pode ser reinventado de outras formas, em outros lugares. “Sei que nunca vou sentir o olhar de um filho e acredito que esse olhar seja único”, diz Renata. “Mas, hoje, invisto esse amor nos meus sobrinhos, nos filhos de amigos. Maternidade é cuidar das pessoas que você ama.”

Para Débora, mais que relações, essa energia pode ser destinada a outras paixões. “Minhas gestações são de projetos, sentimentos, parcerias”, diz. “Deveríamos ensinar meninas a olhar a vida como um projeto em que abrimos vários caminhos. A maternidade é só uma das muitas opções fantásticas que temos.”

Créditos

Imagem principal: Daiana Ruiz

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