por Giulia Garcia

Mulheres com mais de 70 anos mandam a real sobre sexualidade

Há sexo depois da menopausa, e ele é, embora obviamente diferente, tão gostoso como sempre foi. Mas para não se desconectar dessa certeza é preciso ultrapassar a barreira que entende a menopausa — em todas as suas mudanças internas e externas no corpo — como sintoma do fim da sexualidade. “Essa ideia surge, em parte, pela ligação que se faz entre sexualidade e reprodução, uma noção que tem mantido as mulheres distantes da possibilidade de terem prazer e se realizarem sexualmente”, diz Halana Faria, médica ginecologista do Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde.

Para além dos efeitos da menopausa, o envelhecimento em si soa como um obstáculo insuperável para muitas mulheres. “Não gosto de me olhar no espelho. Não gosto das rugas”, diz Thereza Pierroti, 85 anos, refletindo um sentimento que reverbera sensações de muitas mulheres. “Se o corpo jovem for colocado como protagonista do prazer, quando chegarmos na terceira idade, viveremos mais limitações do que possibilidades”, afirma a sexóloga Denise Miranda de Figueiredo.

Para Rozima Nascimento, 70 anos, tudo isso não gera bloqueios. Diferentemente do que já ouviu de outras pessoas, o tesão para ela não acabou quando passou da casa dos 50. “Se bate a química, não tem idade”, afirma. Essa visão encontra respaldo no que defende Halana: “Existe uma questão fisiológica de diminuição da libido, mas existe também uma construção social de que o homem se mantém ativo e vigoroso no envelhecer, enquanto as mulheres decaem”. Tal construção social estimula a formação de tabus ao redor do assunto, fazendo com que as mulheres principalmente se retraiam. “O envelhecer não significa tornar-se assexuado, existem mitos e tabus acerca da sexualidade na velhice”, diz a gerontóloga Tatiane Andrade.

Círculo do fogo

Em 2014, a atriz e ex-modelo da Chanel Vera Barreto Leite reencontrou um dos homens de sua história e sentiu seu corpo esquentar. Depois de cinquenta e cinco anos separados, ela estava de novo ao lado do fotógrafo Frank Horvart. Dessa vez, porém, ela tinha 78 e ele, 87 anos. “Eu era um vulcão, como naquela música da Edith Piaf, ‘On a vu souvent rejaillir le feu de l'ancien volcan’ (‘Frequentemente vemos renascer o fogo de um antigo vulcão’, em tradução livre)”, conta.

Thereza também sabe que esse fogo não tem a ver com idade. Viúva há dez anos, ela conta que seu marido a procurava todas as noites, até a última (aos 78). Para ela, pouco mudou desde sua primeira vez, com esse mesmo homem aos dezesseis anos. Já para Rozima as coisas mudaram. Mas ela não reclama, não: “Sexo é muito melhor com 60. Com 20, você não tem tanta experiência”. Vera ri e brinca: “Aos 80, é um pau meia bomba, mas não tem nenhum problema”.

O que diz Rozima reflete a importância que ela atribui ao sexo em sua vida. “Pra mim, é necessário, faz falta.” “Sexo é vida”, engrossa o coro Vera. Mas Thereza, embora nunca tenha deixado de transar com o parceiro em 62 anos de relacionamento, admite que o fazia mais por rotina do que desejo. “Eu dava porque tinha que ser, era parte do casamento. Nunca fui gamada em sexo, fazia mais por obrigação”, conta.

Meia bomba?

Entre os tabus, um dos principais é a dificuldade (especialmente entre homens, de todas as idades) de entender que há sexo para além da penetração. Mas há, como lembra a ginecologista Halana. E se os old boys não entendem, dá inclusive para exercitar sozinha a própria sexualidade. “Uma mulher que quer ser feliz na vivência da sua sexualidade precisa entender primeiro como ter prazer sozinha”, defende a médica do Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde. Na prática: “Se eu acordo com tesão, mesmo agora, imediatamente minha mão vai no sexo”, conta Vera.

O tabu da masturbação nasce de uma construção social que condena a atitude. “Minha mãe colocava na minha cabeça que era errado, feio, sujo. Isso me bloqueou, porque, quando você tenta fazer, lembra das palavras dos pais. Eu tinha uns 30 anos quando comecei a me tocar. Hoje, acho normal”, explica Rozima.

Halana entende o processo de descobrir seu corpo a partir do auto-toque como fundamental. Mas estar na frente do espelho vai além desta intimidade, passa bastante pela autoestima. A sexóloga Denise lembra que no envelhecimento é preciso passar por um processo de redescoberta, entendendo as possibilidades e limites desse novo corpo. Não se pode deixar que a série de alterações físicas afetem o psicológico a ponto de interferir na busca pelo prazer. 

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A vaidade, para Rozima, é um ponto essencial para não cair nesses conflitos. “Sempre gostei de roupa sexy, calcinha e sutiã de renda. Minhas roupas não são pra ninguém ver, são para eu me olhar no espelho e me sentir bonita”, conta. Para Thereza, seu corpo —  sem arrumações — basta. “Adoro ficar pelada. Não vejo banha caída, não vejo gordura, nada. Se eu tiver que ir ao banco de shorts, eu vou. Me sinto bem. Não tô jovem, mas não me sinto velha, acabada, caquética”, diz.

Barreira interior

Além das mudanças externas, a ginecologista Halana Faria lembra do desafio trazido pelas mudanças fisiológicas. A diminuição da libido é comum e a vagina, a vulva e o trato urinário inferior tendem à atrofia pelas alterações hormonais. Essas questões, porém, podem ser contornadas com visitas regulares a médicos (ginecologistas ou não) que tratem de incluir a sexualidade entre os assuntos clínicos. “Acredito que o tema muitas vezes não seja discutido por ser um tabu e porque muitos profissionais assumem que a sexualidade dessas mulheres é inexistente”, pensa Halana.

Vera conta que isso realmente aconteceu com ela em sua última ida ao ginecologista. O médico se recusou a examiná-la por ser idosa, dizendo que nem um dedo passaria pela sua vagina por sua idade. “Eu levantei, enfiei minha calcinha e fui embora. Fiquei tão humilhada, com tanta raiva. Quantas mulheres ele conseguiu humilhar?”, desabafa a atriz.

Para a gerontóloga Tatiana, a falta de discussão sobre a sexualidade na terceira idade é um dos principais fatores do aumento no contágio de DSTs entre idosos. “Por conta dos mitos e tabus relacionados ao envelhecimento, ignora-se que idosos ainda possuem interesses sexuais. Um exemplo disso é que campanhas de prevenção de DSTs são precárias para esse público”, diz.

O não-uso de métodos protetivos não é de hoje. “Nós éramos uma geração que não tinha pílula, nada fora a lua e a tabelinha. Com essa sexualidade tão liberada, era difícil se proteger, então fiz muitos abortos”, conta Vera. Thereza, que só teve relações com seu marido, diz que nunca utilizou nenhum método, enquanto Rozima - a mais nova, aos 70 - sempre uso e acha essencial falar sobre isso com pessoas de todas as idades.

Mas falar de sexo não é - e era ainda menos - comum. A vida sexual de Vera, por exemplo, teve início cedo, muito antes de pensar em casamento. Com a mãe artista, cresceu nos camarins, tornou-se modelo e atriz e sua sexualidade sempre foi muito livre: “Eu tinha tesão, eu trepava. Nunca tive problema com isso”. E completa: “Eu gosto de um caralho, viu? Acho muito interessante aquela coisa que se transforma, que cresce. Me dá um tesão fodido”, completa.

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Para outras, essa liberdade não existia como possibilidade sequer remota. “Papai não deixava ninguém entrar dentro de casa, não podia namorar. Tinha facão enfiado atrás do sofá”, lembra Rozima. O sexo não era assunto em sua casa, no interior do Rio de Janeiro. “Antigamente, a mulher não podia sentir prazer, era errado. Só puta podia sentir prazer”, diz. Foi só depois do casamento, aos 16, que ela conseguiu entender seu corpo e descobrir o sexo, o tesão...

Em seus três casamentos e nos tempos de solteirice, Rozima sempre se permitiu explorar seu corpo. “Acho que muitas mulheres que só tem um homem, acabam não sabendo o que é o prazer, porque se prendem na ideia de que só o homem tem que se satisfazer e você não”, diz.

“A sexualidade é romântica. Mesmo no topo, você entrega a alma”, diz Vera. Ela fez questão de passar para suas filhas a mesma liberdade que teve e não entende como a geração de seu bisneto ainda possa ter problemas com repressão sexual. Rozima acrescenta: “Precisamos entender que nem sempre sexo e amor estão associados, às vezes é só tesão”.

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Fugindo dos estereótipos de vovó, há mulheres que entendem, falam e vivem sua sexualidade certas de que não faz sentido condenar ou rotular ninguém. “Eu sou o que eu sou. Sempre fui porra louca e não quero ser diferente, gosto de ser assim. Acharam ruim? Problema deles, não é meu, porra”, afirma Thereza. “Se vocês sentem que estão se reprimindo, a primeira coisa a fazer é procurar as feministas, ser atuante como mulher, porque é a maneira que você tem de se libertar”, defende Vera, em um chamado para todas as mulheres, de qualquer idade, entenderem que viver de outra forma não faria nenhum sentido.

Vovó também transa!

Créditos

Imagem principal: Mauricio Abbade

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