por: Buscofem

Ritualizar a vida

apresentado por Buscofem

Para Milly Lacombe, são muitos os motivos para celebrar nascer mulher nesse mundo. Dentro disso, a menstruação é um fundamental rito de iniciação

O mitólogo americano Joseph Campbell escreveu que nossa sociedade não fornece às crianças rituais através dos quais elas possam se tornar membros de uma tribo ou comunidade. Todas as crianças, ainda segundo o autor, precisam nascer duas vezes para assim aprenderem sobre racionalidade no mundo, deixando a infância para trás e entendendo a importância dos rituais.

Desde pequena me encantam as cerimônias que marcam passagens em nossas vidas. Ritos que indicam o início de uma fase, de possibilidades e até de responsabilidades. São muitos os motivos para celebrar nascer mulher nesse mundo, apesar das dificuldades que encontramos para exercer livremente nossas criatividades. Dentro disso, a menstruação é um fundamental ritual de iniciação.

Quando sangramos pela primeira vez, alguma coisa se altera na forma como enxergamos e percebemos a existência. É com a primeira menstruação que cruzamos o portal que separa a infância (uma situação psicológica de dependência) da vida adulta (momento em que começamos a nos preparar para construir nossas estruturas psicológicas). A menstruação nos conduz por esse portal e abre espaço para novos sonhos.

Eu tinha 13 anos, era um domingo de sol e, enquanto brincava no jardim da casa de minha tia, comecei a sentir uma dor estranha na lombar. Corri para falar com minha mãe. “Deve ser cólica”, ela me disse. Em seguida, me deu uma bolsa de água quente enquanto ia até a farmácia comprar alguma coisa para atenuar o incômodo e recomendou que eu deitasse um pouco. Aquilo não me pareceu divertido, mas fiz o que ela disse. No fim do dia, meu pai voltou do trabalho trazendo um presente. Hoje entendo que minha mãe deve ter ligado para ele, contado sobre a menstruação, e o evento ganhou ares de ritual. Fomos jantar fora, eles me explicaram o que estava acontecendo com meu corpo e esse dia ficou na memória como uma cerimônia de passagem.

Um chamado

Desde então, todos os meses, tenho um encontro marcado com a capacidade de gerar uma vida e com o enorme poder que existe em escolher exercer minhas criatividades através da maternidade ou de outras ações. Todos os meses, há um chamado para olhar para dentro, para entender meu corpo, meus contornos, meus descartes e minhas liberdades. Algumas filosofias, como a ashtanga ioga, recomendam que tiremos o primeiro dia de menstruação para meditar, aquietar, silenciar.

O útero é território político, é ambiente de resistência, de poder, de existência. O útero é nossa primeira casa e o universo dentro do qual estamos conectados ao enorme mistério que envolve o específico feminino, nascer e existir. Todos os meses, a menstruação me lembra de que a vida tem um ritmo, tem oscilações, dores, escolhas, perdas, cores e cheiros – o esplendor de ser mulher.

O segundo grande ritual da vida de uma mulher cisgênero é o da menopausa, quando a menstruação é interrompida. Hoje, a pouco tempo de passar por ele, entendo que temos mais sorte do que nossos amigos do gênero oposto, que precisam perceber por conta própria quando deixar de agir como meninos, quando começar a amadurecer e quando é a hora de olhar com olhos de beleza para a finitude de todas as coisas.

Ser mulher não é para qualquer um. É muita energia. É muita beleza. É muita poesia. Somos, como escreveu Audre Lorde, poderosas e perigosas. Somos transformação, encantamento e magia.

*Por Milly Lacombe, jornalista, escritora e colunista da Revista Tpm.

Créditos

Imagem principal: Mariane Ayrosa

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