por Erica de Paula

Essa vontade está verdadeiramente dentro de você, ou está sendo influenciada pelo medo da solidão, pela pressão social ou pela romantização da maternidade?

Praticamente desde que nascemos, nós mulheres somos confrontadas por uma expectativa social de quando iremos ter filhos. Ainda bebês, somos presenteadas com bonecas que devemos tratar como filhas e incentivadas a desenvolver habilidades de cuidado que, ao contrário do senso comum, não são inatas nem exclusivas do sexo feminino.

Criar filhos, sobretudo em uma era tão repleta de violência, corrupção e escassez cada vez mais frequente de recursos, é mais do que uma tarefa complicada. É uma enorme responsabilidade! Saber que estaremos colocando no mundo um ser completamente dependente de nós por um bom tempo, cujos bem-estar, saúde, felicidade, habilidades cognitivas, sociais e emocionais são tão intrinsicamente relacionados ao modo como gestamos, parimos e educamos é talvez a maior e mais importante missão com a qual um ser humano pode se comprometer ao longo de sua vida.

“Mais da metade das gestações não são planejadas, enquanto uma boa parcela da outra metade não foi escolhida de maneira consciente”

Por esse motivo, é preciso antes de tudo se questionar: quem, em você, te motiva a querer ter um filho? Essa vontade está verdadeiramente dentro de você, ou está sendo influenciada pelo medo da solidão, pela pressão social ou pela romantização da maternidade tão proclamada pela mídia? Infelizmente, mais da metade das gestações não são planejadas, enquanto uma boa parcela da outra metade não foi escolhida de maneira verdadeiramente consciente, causando um número absurdo de nascimentos de bebês cujos genitores não estavam realmente preparados para ter filhos. Tanto a maternidade quanto a paternidade, em tese, deveriam ser uma escolha bem informada e consciente que exige disponibilidade de tempo e emocional de ambos, e não uma predeterminação biológica. É curioso pensar que, para fazer uma laqueadura, é necessário comprovar primeiro que a decisão se deu dentro das faculdades mentais e saudáveis dos indivíduos e que conta com parecer de profissionais, enquanto que não existe nada parecido para que os futuros pais demonstrem capacidade psíquica, emocional e financeira para ter um filho.

Embora a mulher se veja sempre correndo contra o relógio (e nesse caso não podemos negar que a natureza foi realmente implacável com o sexo feminino), na maioria dos países ocidentais existe um processo de atraso na idade de ter filhos, pois preferem aguardar condições familiares e materiais ideais. Biologicamente, os 25 anos seria o momento de ouro para a reprodução, pois a fertilidade feminina começa a diminuir por volta de 30 anos, caindo ainda mais após os 35 (e aumentando também a proporção de abortos espontâneos ou outras complicações com o bebê). Falando estritamente em números, até os 30 anos um casal plenamente saudável tem cerca de 18% a 25% de chance de engravidar por mês de tentativas, enquanto dos 30 aos 35 eles têm cerca de 15% a 20%. Dos 36 aos 40 anos, essa taxa cai para 9%, e após os 40 esse número vai caindo até chegar em menos de 1% por volta dos 43 a 45 anos de idade. Portanto, do ponto de vista puramente biológico, o ideal seria engravidar antes dos 35, sobretudo se existe o desejo de ter pelo menos dois filhos. Nascemos com uma reserva ovariana que vai sendo utilizada e deteriorada mês a mês, enquanto outros fatores também se modificam e vão dificultando o processo de engravidar (como a espessura do endométrio, a secreção vaginal etc). Após os 35 e sobretudo após os 40 anos da mulher, ainda há o agravante de que os riscos de anormalidades cromossômicas aumentam consideravelmente para o bebê e há mais riscos de abortamento para a mulher, assim como pré-eclampsia, diabetes gestacional, hipertensão etc.

Já o homem se mantém fértil por mais tempo, o que não significa que os anos não podem fazer diferença na saúde dos filhos que ele terá, pois com o passar dos anos, tanto o volume quanto a motilidade dos espermatozoides masculinos diminuem. Ao contrário da antiga crença de que apenas a idade da mulher é um fator determinante para a saúde do feto, hoje já sabemos que a idade do pai é um fator de risco para o nascimento de crianças com problemas de saúde física ou mental. Em estudo recente publicado na Nature – uma das maiores revistas científicas do mundo –, as mutações atribuídas ao pai (1,51% ao ano) ocorriam quatro vezes mais rápido do que as da mãe (0,37% ao ano). Isso ocorre porque nas mulheres todos os óvulos são produzidos ao mesmo tempo e antes mesmo dela nascer, tendo assim poucas oportunidades para ocorrência de mutações espontâneas ao longo da vida, enquanto nos homens a produção de esperma é um processo contínuo (com mais chances de erros genéticos no processo de divisão celular). Por esse motivo, o governo britânico estabeleceu um limite de idade para doadores de esperma, com os homens devendo ter no máximo 40 anos.

Por outro lado, embora os pais mais velhos carreguem o estigma de que já não possuem o mesmo pique para cuidar de um recém-nascido e correr atrás de uma criança, existe o fato já estudado de que crianças nascidas de pais e mães acima de 30 anos possuem em geral pontuações cognitivas significativamente melhores do que os filhos de pessoas mais jovens. Isso provavelmente se explica porque os pais que geram filhos mais tarde na vida encontram-se em um nível socioeconômico mais favorável, são mais propensos a terem relacionamentos estáveis, um estilo de vida mais saudável e fazer um pré-natal adequado. Esses pais também tendem a educar os filhos de forma mais consciente e com menos castigos e violência verbal, o que repercute no bem-estar emocional das crianças. Portanto, a desvantagem biológica se equilibraria pela vantagem social.

“Talvez não exista mesmo um momento ideal para ter filhos que possa ser aplicado para todo mundo”

Recentemente, fiz uma enquete em minhas redes sociais a esse respeito e perguntei a idade em que minhas seguidoras tiveram filhos e se elas teriam feito uma escolha diferente caso pudessem voltar no tempo. O resultado foi bastante curioso: as que tiveram filho(s) “cedo” (antes dos 30) se dividiram entre aquelas que achavam que haviam feito uma boa escolha uma vez que possuíam mais energia para cuidar da criança e aquelas que achavam que deveriam ter esperado mais alguns anos (“curtido mais a vida, o casamento e a estabilidade financeira” antes do bebê). Já as mulheres que esperaram mais tempo e tiveram filho(s) depois dos 30 anos se dividiram entre achar que fizeram a melhor escolha (uma vez que estavam mais maduras para educar a criança) e o arrependimento de não ter começado antes devido a uma maior dificuldade de engravidar e gerar o segundo ou terceiro filho, por exemplo.

Ou seja, talvez não exista mesmo um momento ideal para ter filhos que possa ser aplicado para todo mundo. Cabe a cada mulher e cada casal avaliar, dentro da dinâmica de suas vidas, em que momento estarão dispostos a se doarem para uma missão tão importante, sabendo que existirão sempre ganhos e perdas intrínsecos a cada escolha, e que a vida jamais voltará a ser a mesma depois da chegada de uma criança.

Dica para as leitoras: se você está perto de fazer 35 anos e não tem perspectiva de ter filhos (mas pensa e deseja ser mãe), considere a possibilidade de congelar os seus óvulos. Pode ser que esses poucos anos façam toda a diferença quando você achar que chegou a hora certa.

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A doula Erica de Paula foi homenageada pelo Trip Transformadores 2014. Assista aqui a sua história. 

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Créditos

Imagem principal: Kristina Flour / @tinaflour

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