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Daqui ninguém me tira

por Luara Calvi Anic

No país que mais mata ambientalistas no mundo, Altamiran Ribeiro luta para que comunidades tradicionais do cerrado brasileiro tenham seu direito à terra e à vida respeitados

Houve um momento transformador na história de Altamiran Ribeiro, 39 anos, quando ele encontrou um sentido especial para sua vida. “Foi quando descobri que o índio, o ribeirinho, o pescador, a mulher lavadeira, a quebradeira de coco, cada um do seu jeito, têm um modo de vida bonito, que deve ser respeitado, valorizado e defendido”, diz à Trip, enquanto se protege do sol embaixo de um ipê-do-cerrado, no Parque Ambiental Encontro dos Rios, em Teresina (PI).

Isso aconteceu há 20 anos, quando teve seu primeiro contato com líderes comunitários da Comissão Pastoral da Terra (CPT), organização criada nos anos 70 em defesa dos trabalhadores rurais da região amazônica, expulsos das terras que ocupavam. O episódio fez com que ele também se tornasse um defensor das comunidades tradicionais que vivem na região do cerrado piauiense, ameaçadas pelo avanço do agronegócio. “São gerações que mantém um modo de vida tradicional. Elas têm o direito de posse da terra porque sempre moraram ali. A lei garante isso.”

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Altamiran trabalha para que a lei seja, de fato, cumprida. O foco de sua atuação é a região agrícola do Matopiba (na divisa entre os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), onde, devido ao clima quente, a vegetação local, a localização e ao investimento econômico nacional e internacional, a monocultura só cresce. “Tem aquela ideia de que vamos progredir [com a monocultura], alimentar a nação. Mas esse povo não come soja. Esse povo não come algodão. Que progresso é esse?”, questiona.

“São gerações que mantém um modo de vida tradicional. Elas têm o direito de posse da terra porque sempre moraram ali. A lei garante isso”
Altamiran Ribeiro

A cada 15 dias, ele deixa a família e encara até cinco horas de moto partindo do município de Bom Jesus (PI), próximo de onde mora, para visitar comunidades que sofrem com ataques de grileiros. Depois, de Bom Jesus, pega um ônibus e, percorridos 600 quilômetros, chega à sede da Comissão Pastoral da Terra (CPT), em Teresina. Faz duas décadas que Altamiran trabalha na CPT como voluntário. Há seis anos é coordenador colegiado, cargo remunerado para o qual foi eleito e vai ocupar até dezembro. Após esse período, deve voltar ao trabalho informal para sobreviver.

Sua ocupação hoje é informar comunidades tradicionais de seus direitos à propriedade, garantidos pelo Estatuto da Terra, mesmo que não tenham em mãos documentos que comprovem isso. “Não são invasores, eles vivem lá há décadas. Quando a terra vira um produto, um ativo financeiro, a necessidade [dos empresários] de expandir expulsa essas comunidades que dependem da terra para viver. Estamos lá para mobilizar, mostrar que elas têm que ser protagonistas da sua própria história.”

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Para reivindicar essa proteção, a Pastoral também aciona órgãos públicos. Em novembro de 2018, Altamiran e a equipe da Pastoral, em parceria com a Fian Brasil 
(Organização pelo Direito Humano à Alimentação e à Nutrição Adequadas), foram à ONU, na Suíça, denunciar as violações de direitos humanos no Matopiba. “A região é a menina dos olhos do capital internacional, que investe no agronegócio. Fizemos uma denúncia relacionada aos impactos ambientais e sociais e à vista grossa que o Brasil faz em relação a isso.”

“Eu, no primário, aprendi sobre a geografia de São Paulo, mas não sabia nada do Piauí. Quero ser um professor diferente.”
Altamiran Ribeiro

Há relatos de casos envolvendo incêndios criminosos, ameaças de morte e tratores que chegam derrubando casas e disseminando o pânico em populações que vivem isoladas no Cerrado. “As mulheres são as que mais sofrem porque ficam mais em casa. Quando chega uma caminhonete, elas se escondem no mato com medo das ações dos grileiros.” Segundo um relatório publicado pela CPT em parceria com instituições internacionais (que vieram ao Brasil em 2017 em uma missão de investigação), as populações que vivem no sul do Piauí “sofrem com graves consequências do desmatamento, da perda de biodiversidade e da contaminação generalizada do solo, da água e do gado por agrotóxicos. Isso causa a destruição de seus meios de subsistência, rupturas nas comunidades e insegurança alimentar e nutricional”.

Sempre em frente

Enquanto ajuda outras pessoas, Altamiran também encara outros problemas, mas no âmbito pessoal. O piauiense mora com a esposa e quatro de seus seis filhos em uma casa de tijolo e telha de amianto. A mulher, que se recuperou recentemente de um câncer no cérebro, tem de lidar com uma rinite crônica, agravada pela poeira que solta da parede de adobe cru. Em setembro, ele criou uma vaquinha on-line para conseguir dinheiro para reformar sua casa.

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Mas as dificuldades não impedem 
Altamiran de desenhar um outro futuro. Nos últimos tempos, ele vem acalentando o sonho de se tornar professor. Há quatro anos, entrou no curso de licenciatura em Educação do Campo (área de ciências humanas e sociais), na Universidade Federal do Piauí. “Quero ensinar história, filosofia, discutir a realidade com a moçada. Eu, no primário, aprendi sobre a geografia de São Paulo, mas não sabia nada do Piauí. Quero ser um professor diferente, trazendo a realidade daquele povo, daquela comunidade.”

Enquanto não se forma, ele segue como ativista no país que lidera o ranking de assassinatos de ambientalistas – foram 57 em 2017, segundo o relatório da ONG britânica Global Witness –, mesmo já tendo sofrido diversas ameaças. “Tenho medo de morrer. Todos os dias, eu abraço minha filha e minha esposa como se fosse a última vez”, diz, emocionado. “Mas se eu não gritar, quem é que vai ecoar o grito desse povo?” Uma dessas ameaças veio quando uma das comunidades sofreu um incêndio criminoso e a CPT acionou a polícia. Ele logo recebeu o recado: “Você é novo pra morrer, deixa a gente fazer o nosso trabalho”. Com medo, porém perseverante, ele diz que, nessas horas, recorre a um mantra pessoal: “Faz escuro, mas eu canto”. “Apesar dos problemas que temos, eu sempre continuo cantando, pois tenho a esperança de que um dia a gente vai conseguir ter as comunidades em seus lugares, ter os direitos das pessoas respeitados. Isso me motiva, me movimenta a ir em frente.”

 

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Créditos

Imagem principal: Mario Ladeira

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