Você depende deste cara

por Heitor Flumian
Trip #283

Nascido e criado em um ferro-velho, Cleiton trabalha para que São Paulo não se afogue em lixo, enquanto ensina ao resto do mundo a reciclar

O barulho embaixo do Viaduto Leste-Oeste, que corta o bairro do Glicério, no centro de São Paulo, é estrondoso. E quase ininterrupto. “É uma das principais vias da capital, liga o norte ao sul, o leste ao oeste. Se ela para, a cidade para também”, diz Cleiton Emboava, 35 anos, olhando para a estrutura de concreto que esconde o céu sobre sua cabeça. O movimento na parte de baixo, porém, não fica muito atrás: pelo portão de ferro verde, Kombis e carrocerias adaptadas surgem o tempo todo, chegando da rua abarrotadas de materiais recicláveis; é a primeira etapa de uma cadeia produtiva que envolve o trabalho das pessoas que fazem parte da Associação de Catadores de Materiais Recicláveis Nova Glicério, da qual Cleiton é presidente e faz questão de apresentar.

O passo seguinte, realizado em um box individual ou familiar, se baseia no trabalho manual de triagem e classificação dos resíduos coletados, ou seja, separar o que é papelão, garrafa PET, copo de plástico, sacola plástica colorida e branca, itens de alumínio e cobre, revistas, jornais, e descartar o que não é reciclável (borra de café, isopor, papel higiênico etc.). Na sequência, o material é ensacado e pesado em uma balança – há uma comanda para cada catador e carroceiro, tudo o que pesam vai direto para o seu nome.

Depois de ser colocado em uma caçamba coletiva destinada ao respectivo produto, o material é compactado por um prensa da qual sai em formato de fardo, pronto para a venda, feita em sua maioria para indústrias e revendedores. Em contas no banco, os associados recebem o valor proporcional ao que cada um coletou na semana –  em média tiram em torno de R$ 1 mil por mês. “A reciclagem é uma abertura socioeconômica para o indivíduo que está em vulnerabilidade social. E apesar de fazer um trabalho que beneficia a sociedade toda, ele não recebe nada da prefeitura ou de empresas: logística, segurança, gasolina, almoço, possíveis problemas de saúde, fica tudo por conta de cada catador”, conta Cleiton.

As mulheres são responsáveis por grande parte do processo que é feito internamente e, segundo ele, representam cerca de 70% do total de catadores em atividade dentro de associações e cooperativas brasileiras, desempenhando também funções administrativas. “A mulher pode não aguentar puxar uma carroça pesada, só que ela tem cérebro para desenvolver alguma coisa que vai carregar o dobro daquilo que o homem carrega. Sem elas, a reciclagem não existe”, diz. “Até os anos 70, esse era um trabalho predominantemente masculino. Com o tempo, e com a diminuição do estigma social de que as mulheres não podiam trabalhar, elas foram tomando seu espaço dentro da sociedade, e da mesma forma que chegamos ao ponto de ter uma presidente mulher, temos muitas delas em situações de decadência. A reciclagem as adotou”, explica Cleiton.

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Com 102 associados, e na ativa desde 1º de julho de 2013, a Nova Glicério retira das ruas, em média, mil toneladas de material por mês. Somado à labuta de outros 109 grupos de catadores de São Paulo (entre associações, cooperativas e grupos informais) e dos autônomos, que são 80%, respondem por mais de 90% do que é reciclado na capital, de acordo com números do Movimento Nacional dos Catadores de Recicláveis (MNCR). A cidade pararia se o trabalho dessas cerca de 20 mil pessoas envolvidas fosse interrompido? Cleiton assente com a cabeça. “Ficaria inviável em semanas.”

LIXO EXTRAORDINÁRIO

Filho e neto de carroceiros, Cleiton nasceu e foi criado em Guaianases, distrito da zona leste paulistana. Com a mãe trabalhando como vendedora de loja, desde muito pequeno acompanhou o pai, seu Arivaldo, 56, nas andanças entre a região de casa e o Glicério. “A primeira lembrança que tenho desse universo é de subir em caçambas que ficavam em um ferro-velho e pular no monte de papelão e de papel. Aquilo era a minha piscina, meu pula-pula”, conta. Junto ao ferro e ao metal que viravam sucata, esses materiais, se recorda, eram basicamente os únicos resíduos recicláveis, numa época em que havia poucos tipos de embalagem no mercado; diferente de hoje.

“Considerando desde a década de 60, quando meu avô começou a reciclar, a demanda de materiais passíveis de reciclagem foi aumentando ao longo dos anos embalada pelo crescimento da cidade, que se deu de forma acelerada e sem planejamento, e também pela evolução tecnológica, fatores que impactam muito o meio ambiente”, diz. “Aos 13 anos, eu olhava o celular Startac na mão dos outros e sabia que algum dia ele não valeria nada.” Ainda nessa idade, se casou; aos 17, teve uma filha e se tornou avô aos 33.

Nesse meio tempo, trabalhou como garçom em um buffet, se aventurou em uma empresa de segurança, fez bicos na construção civil e foi e voltou em períodos de trabalho como catador. Até que, em 2013, decidiu retornar de vez para a área de reciclagem, mas com a intenção de fazer algo além para a categoria. Passou um tempo coletando, reciclando e se informando na 
Cooper Glicério, cooperativa vizinha, que já era mais estruturada, onde o pai e uma das irmãs trabalham, e em 2017 veio para a Nova Glicério, então mais carente de recursos e ideias.

Logo no primeiro ano de sua gestão no espaço construído em 2009, com verba liberada pelo governo federal, à beira da Avenida do Estado e ao 
lado da sede mundial da Igreja Pentecostal Deus é Amor, peitou representantes da Prefeitura Regional da Sé e da Tropa de Choque, que bateram à porta com uma ordem de despejo. A medida, ironicamente, era parte do projeto Cidade Limpa e exigia reintegração de posse. “Botei os associados para dentro, fechei o portão e falei que ninguém ia entrar. Olhei para o tenente e disse: ‘Você está com essa farda porque conhece a lei. E sabe que está errado’.”

Meses depois, em abril de 2018, Cleiton embarcou para uma viagem de uma semana ao Quênia e à Tanzânia, na África, após ser escolhido por 23 cooperativas de São Paulo para representá-las no exterior. A oportunidade surgiu por meio do projeto Mapping Waste Governance (“mapeando governanças de resíduos”), que busca mapear e colaborar com iniciativas, arranjos e políticas de gerenciamento de resíduos feitas por comunidades, promovendo, também, a ponte entre os catadores e os governos locais. A empreitada abrange profissionais do Canadá, Argentina, Brasil, Nicarágua, Quênia e Tanzânia e é liderada pela professora de geografia Jutta Gutberlet, da Universidade de Victoria, no Canadá.

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“Uma das inovações apresentadas pelo Cleiton foi um biodigestor feito com materiais recicláveis que nos permitiu trabalhar com resíduos orgânicos, normalmente descartados em aterros. Ele ensinou os locais a construir o equipamento e colocá-lo em prática, transformando material orgânico [restos de comida e excremento bovino] em gás a ser usado para cozinhar”, conta Jutta. A seu ver, a importância de Cleiton e da Nova Glicério vai além de recuperar materiais e inseri-los de volta na economia circular, transformando o que é considerado lixo em mercadoria novamente. “A cooperativa efetua um serviço social de dar apoio a essas pessoas e capacitá-las para outras funções, como a de educador ambiental. Alguns catadores dão palestras em escolas e também ensinam pequenos empresários a como melhor separar o material que geram”, diz.

A BASE VEM FORTE

Em maio, como integrante do projeto canadense, Cleiton fez outra incursão ao continente africano, passando por Kisumu e Nairóbi, no Quênia, e Dar es Salaam e Zanzibar, na Tanzânia. Dessa vez, foi ele que importou ideias: uma delas foi descobrir novas aplicações para o vidro descartado, o que colocará em prática no laboratório que está montando em um contêiner doado por uma empresa, onde também criará produtos a partir de lixo eletrônico; a outra é uma mistura do desejo que crianças africanas manifestaram – de terem coisas como um parquinho e um banheiro melhor – com a habilidade dele de criar novos objetos com materiais recicláveis. A ideia é levar para as crianças o resultado do trabalho.

“É muito difícil reeducar um adulto, principalmente sobre a questão ambiental e em uma cidade louca, onde ele vive com a cabeça voltada para os seus problemas. Por isso, as crianças são o caminho: educando-as, elas passam a ensinar os adultos”, reflete Cleiton. “Em vez de ir de porta a porta em uma comunidade que tem 10 mil habitantes, prefiro ir à escola, onde estão os filhos dessa gente. Se ela tem 2 mil alunos, nosso trabalho chega a 2 mil casas de uma vez. Basta oferecer uma excursão ao Hopi Hari a quem trouxer mais resíduos de casa toda sexta-feira durante um mês”, diz. É a tal da sabedoria popular. Ou das ruas.

do it yourself 

Aplicativo conecta catadores e geradores de lixo, e dobra a renda de quem faz o trabalho duro

É difícil encontrar uma Kombi ou carroça na Nova Glicério que não tenha o adesivo do Cataki. Lançado em 2017, o premiado app conecta geradores de lixo e catadores. Basta o profissional da coleta se cadastrar, indicar a região em que trabalha e o tipo de material que recolhe. Por meio de geolocalização, a ferramenta mostra quais catadores estão por perto e, então, é só fazer uma ligação para combinar o encontro e o preço do serviço. “Temos retornos de catadores que dobraram a renda, e outros contam que puderam começar a almoçar, pois antes ganhavam só com a venda dos materiais e agora também recebem pelo serviço prestado”, conta o grafiteiro e ativista Mundano, 33, criador do app. “Os catadores são cada vez mais essenciais, e a maior luta é contra o sistema vigente, que enterra por ano, em aterros, mais de R$ 8 bilhões em materiais recicláveis só no Brasil”, protesta. O app tem mais de 1,8 mil catadores cadastrados. Uma nova versão, que será lançada em dezembro, vai conectar catadores a empresas e agentes do poder público.

Créditos

Imagem principal: Filipe Redondo

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