No fundo, qual é o impacto?

por Pedro Carvalho
Trip #283

Os investimentos de impacto apostam em negócios que ajudam a sociedade e dão lucro aos investidores. Mas, na prática, essa teoria funciona?

Em 2006, surgiu na Califórnia uma marca de sapatos chamada Toms Shoes, que tinha uma proposta inspiradora: a cada par de calçados que vendesse, ela doaria outro para crianças de países pobres. Dez anos mais tarde, a Toms encomendou um estudo ao Banco Mundial para avaliar essa bem-intencionada iniciativa. Os pesquisadores analisaram um grupo de 1.578 crianças que receberam as doações em áreas rurais de El Salvador. Descobriu-se que os impactos positivos sobre saúde, educação e bem-estar da comunidade eram insignificantes. Os sapatos novos, quase sempre, serviam apenas para substituir os velhos – mesmo antes da Toms, aquela não era uma comunidade de pessoas descalças. Isso reforçava as queixas, ecoadas em diferentes países, de que a marca só fazia prejudicar o comércio e a indústria locais.

A história da Toms – que depois repensaria seu modelo e passaria a apoiar diferentes causas por meio das vendas – serve para mostrar como é escorregadio o terreno dos chamados negócios de impacto, aqueles que são formulados para ajudar a sociedade, ao mesmo tempo em que perseguem os lucros. Na última década, dada a abundância de problemas socioambientais no mundo, esse tipo de empresa passou a seduzir um número cada vez maior de investidores – afinal, no jargão financista, grandes problemas significam grandes oportunidades. Se os governos são lentos e ineficientes para resolvê-los, que as soluções venham de negócios inovadores e talhados pelo propósito, imaginaram esses capitalistas. O fenômeno popularizou uma atividade chamada “investimento de impacto”, na qual pessoas com dinheiro investem em pequenas ou médias empresas dispostas a resolver as mazelas do planeta – enquanto, é claro, obtêm lucros por meio de sua atuação.

No Brasil, existem 29 iniciativas ligadas a este modelo, das quais 12 têm sede no país e 17 são estrangeiras, segundo levantamento divulgado pela Aspen Network of Development Entrepreneurs em 2018. As três principais gestoras de recursos desse tipo no país são a Vox Capital, a MOV (criada pelos fundadores da Natura) e a Kaeté, que somam um patrimônio líquido de R$ 340 milhões – ainda pequeno, se comparado à indústria de fundos brasileira, que passa de R$ 4,4 trilhões. Entre 2016 e 2017, foram registrados 69 investimentos dessa natureza no país, que movimentaram US$ 131 milhões. No mundo, as estimativas são de que os fundos de investimentos de impacto tenham US$ 500 bilhões sob gestão.

A Vox Capital, pioneira no país nessa atividade, completa uma década na estrada em 2019. Nesse período, criou dois fundos para comprar participações em empresas “do bem”. O mais antigo, lançado em 2012, foi o primeiro do tipo no Brasil e captou R$ 84,5 milhões junto a famílias de alta renda envolvidas com causas sociais. O dinheiro permitiu fazer investimentos em 20 startups. Seis delas não vingaram e fecharam as portas. Duas foram vendidas por valores irrisórios, porque não dariam resultado. Mas uma, chamada TEM, que fornece cartões pré-pagos para a população de baixa renda acessar serviços de saúde, acabou comprada por uma seguradora estrangeira ano passado. Foi o primeiro (e até agora único) caso em que o ciclo de investimento de impacto se completou de maneira bem- sucedida no Brasil: os investidores da Vox tiveram lucro de 26% sobre o capital aportado inicialmente na empresa. (Houve outro negócio vendido com lucro pela Vox, a Bille, que constrói habitações populares, mas ela foi alienada antecipadamente pelo grupo porque não criava impactos sociais relevantes.) Esse primeiro fundo de investimento de impacto brasileiro calcula que, até agora, garantiu um retorno de 17% ao ano para os donos do capital – devido a regras, todas as participações serão vendidas nos próximos três anos e essa valorização se transformará, de fato, em dinheiro. O segundo fundo da Vox saiu em 2016, captou R$ 80 milhões e tem conseguido resultados melhores: o correspondente bancário Celcoin, a plataforma de educação Edufuturo e a startup de educação para profissionais da saúde Sanar são as três empresas que receberam aportes e registraram, em média, valorização de 70% ao ano. “Os novos investimentos são muito melhores do que os iniciais. No começo, a gente olhava para investimento de impacto de maneira bastante ingênua”, afirma Daniel Izzo, fundador da Vox.

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“Nós achávamos que investir em dez ou 20 empresas iria mudar o Brasil. Sim, tivemos impactos. Mas são uma gota no oceano”
Daniel Izzo

A ingenuidade à qual Izzo se refere, além de uma autocrítica sobre a inocência na seleção dos negócios, poderia incluir uma romântica crença inicial de que essa atividade seria uma solução para os problemas do país. “Nós achávamos que investir em dez ou 20 empresas iria mudar o Brasil. Sim, tivemos impactos. Mas são uma gota no oceano”, ele reconhece. Passada uma década, uma constatação comum desse setor é a de que o governo, por mais lento e ineficiente que seja, é indispensável para que os impactos dessas startups sejam relevantes. “A ideia inicial era resolver os problemas sociais ‘apesar do governo’”, diz o professor Edgard Barki, que desde 2010 estuda o tema na Fundação Getúlio Vargas. “Descobriu-se que esse sistema tem limites. Em temas como educação e saúde, o buraco é mais embaixo. É muito difícil resolvê-los por meio dos negócios. Para conseguir um impacto real, as parcerias com os governos [que pode, por exemplo, contratar as soluções dessas startups ou criar marcos regulatórios favoráveis a elas] são essenciais. Do contrário, esses negócios só lustram a ponta do iceberg e não atingem a raiz dos problemas”, diz. A reflexão do pesquisador deságua em uma pergunta fundamental: qual tem sido, na prática, o impacto dos negócios de impacto?

 Uma medição científica

Como mostra a história dos sapatos da Toms, aparências podem enganar. Se comprovar impacto fosse apenas dizer “doamos tantos mil pares de calçados”, a conclusão a respeito da iniciativa seria uma. Se isso levasse em conta as mudanças reais que o negócio provocou na comunidade, o veredicto talvez fosse diferente.

Na literatura científica que começa a se consolidar nesse meio, a comparação do parágrafo acima é descrita como a diferença entre “outputs” e “outcomes”. Casos concretos acontecidos no Brasil podem ajudar a ilustrar essa teoria. Uma plataforma de aprendizagem on-line para crianças de baixa renda teve alguns milhares de acessos nos últimos anos (outputs), mas não provocou melhorias na aprendizagem (outcomes) – as necessidades escolares dessas crianças pareciam ser ainda mais básicas do que o conteúdo oferecido pelo sistema. Uma agência de microcrédito para pequenos empreendedores descobriu que seus empréstimos não melhoravam a vida financeira dos clientes – quem tinha um comércio mal gerido antes de acessar aquele dinheiro continuava tendo um comércio mal gerido depois. Esses são exemplos de casos recentes analisados pelo Insper Metrics, um laboratório criado em 2013 para medir cientificamente o resultado de iniciativas de impacto no Brasil.

“O que fazemos é tentar responder, não necessariamente de forma sofisticada, mas com alguma clareza, a pergunta: o que teria acontecido naquela comunidade se o programa não tivesse existido?”, explica o professor Sergio Lazzarini, coordenador do Insper Metrics. Para isso, o departamento compara os efeitos dos negócios de impacto com grupos de controle não beneficiados por essas empresas. A cada semana, aproximadamente três agentes desse universo (startups, fundos de investimento etc.) o procuram para solicitar esse serviço. Lazzarini não tem os dados consolidados, mas consegue elaborar um bom panorama sobre a realidade do setor. “Na base da pirâmide, temos muitas empresas atuando nesse segmento [um levantamento de 2018 contou 1.139 negócios de impacto no país] e uma parcela pequena usa metodologias que medem os impactos reais da sua atividade. E, no topo, pouquíssimas são as empresas que descobrem que conseguiram ter um impacto realmente significativo.”

Quem quer dinheiro?

Outra raridade desse ecossistema são as startups que cumprem a outra função dos negócios de impacto: ganhar dinheiro. O levantamento que calculou o número de empresas, feito pela organização Pipe.Social, identificou que 38% delas ainda não têm faturamento algum. Mesmo negócios bem estabelecidos lutam para ser lucrativos. Em 2014, o paulistano Fernando Assad abriu a Vivenda, empresa que faz reformas baratas em casas de comunidades. O negócio já executou 1,4 mil obras, a um custo médio de R$ 8 mil cada. Em 2018, faturou R$ 2,5 milhões. Mas, em nenhum ano desde a sua fundação, chegou a dar lucro. “No início, falei para minha esposa que eu teria de ficar no máximo dois anos ganhando mal para a empresa vingar. Mas, até hoje, vivo com um salário de trainee, igual ao que eu ganhava no segundo ano da faculdade”, conta Assad.

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“O que fazemos é tentar responder a pergunta: o que teria acontecido naquela comunidade se o programa não tivesse existido?”
Sergio Lazzarini

O plano da Vivenda é ficar no azul a partir de 2020. Para isso, precisa levar o número de lojas da marca de dois para quatro. Para trazer a empresa até aqui, Fernando contou com formatos criativos de investimento de impacto. Em 2018, captou R$ 5 milhões vendendo uma inovadora debênture (um título de dívida) de impacto social. O dinheiro está sendo usado para financiar as reformas – a inadimplência é de apenas 1,8%. Além disso, o empreendedor recorreu ao chamado crowdequity, uma espécie de vaquinha entre microinvestidores: ele levantou R$ 1,2 milhão por meio da colaboração de 120 pessoas, que em troca ficaram com um total de 25% do negócio. “Muita gente se interessa pelo tema do impacto social. Mas quem quer pagar o preço? Quem quer ficar cinco anos ganhando mal e se endividando loucamente?”, questiona Assad.

Talvez a pergunta não seja quem quer pagar esse preço, mas quem pode fazê-lo. “Não é por acaso que a maioria dos empreendedores de impacto são homens, brancos e de boa condição financeira”, afirma Barki. A baixa diversidade apontada pelo pesquisador – notada no mundo do empreendedorismo em geral – não ajuda os negócios. “O perfil desses empreendedores é: um cara, com cargo sênior em uma empresa, que tem ou quer ter um sentimento de propósito na vida”, explica Maure Pessanha, diretora executiva da Artemisia, aceleradora de negócios de impacto que, em operação desde 2004, teve importante papel no crescimento dessa atividade no país. “Parte deles não conhece direito a periferia ou o público de baixa renda. Quando isso acontece, a chance de criarem um produto que não tenha adequação para esse público, levando à morte do negócio, é muito maior”, diz.

A Toms, do início do texto, provavelmente não conhecia El Salvador a fundo, para imaginar que as crianças do país não tivessem acesso a sapato algum. Mas o fim da história mostra que não precisamos ser só pessimistas. A marca ter mudado e melhorado sua fórmula de atuação social mostra que lições podem ser aprendidas, processos podem ser melhorados e boas ideias podem virar bons resultados reais.

É o que se viu no Brasil, por exemplo, com a Avante, startup que oferece pequenos empréstimos a empreendedores de regiões mal atendidas pelo sistema bancário tradicional. “No início, a ideia era abrir lojas em comunidades para vender esses produtos financeiros. Abrimos uma no bairro Paraisópolis [periferia da cidade de São Paulo], em 2014. Depois de 15 dias, ninguém tinha entrado pela porta. Os moradores viam uma loja toda bonita e sem nenhum produto na prateleira e não entravam”, conta Izzo – a startup recebeu investimento da Vox. Após algumas reflexões, o modelo passou a adotar a venda nas ruas, por meio de promotores. De lá para cá, a Avante fez empréstimos para 75 mil microempreendedores (90% deles no interior do Nordeste) e o valor da empresa se multiplicou por 15 nos últimos cinco anos. “Sobre o impacto final, estamos medindo isso com o Insper Metrics e ainda não podemos divulgar, mas já descobrimos que é positivo. E quando o cliente é mulher, mais velha e tem o negócio há mais tempo, esse impacto do empréstimo é ainda melhor”, conta o executivo.

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horizonte distante

Ainda que os impactos não sejam medidos com precisão, eles parecem positivos. A Sanar vendeu mais de 100 mil livros a profissionais de saúde que não tinham acesso a essa qualificação em 2018. A Movva atingiu mais de 800 mil brasileiros com seus conteúdos sobre educação. A Terra Nova já ajudou mais de 10 mil famílias de comunidades a homologar acordos de regularização fundiária – e assim por diante. “Temos carências sociais imensas”, diz André Albuquerque, fundador da Terra Nova. “Claro que há uma curva de aprendizagem nesse setor de investimento de impacto. Mas, no dia em que a solução para a pobreza for um bom negócio, essa questão será resolvida rapidamente”, acredita.

“Muita gente se interessa pelo tema do impacto social. Mas quem quer pagar o preço? Quem quer ficar cinco anos ganhando mal? ”
Fernando Assad

“O investimento de impacto só fará uma diferença grande quando os governos passarem a adotar as soluções dessas empresas”, acredita Maure, da Artemisia. Por isso, a instituição fez uma parceria com o BID, banco credor de uma série de estados e municípios brasileiros. Por meio de portas abertas pela instituição financeira, a Artemisia criou 17 frentes de projetos-piloto pelo Brasil, nos quais as famosas parcerias público privadas usam as soluções das startups de impacto. Além disso, gestores públicos de lugares como Santos, Belo Horizonte e Brasília procuraram a organização para desenvolver sistemas de empreendedorismo de impacto nessas localidades. “Enquanto esse tipo de solução não for abraçada por governos, não vamos ver o ponto de virada desse setor”, ela conclui.

deu ruim

A Saútil foi criada para ajudar pessoas de baixa renda a encontrarem os recursos disponibilizados pelo SUS em suas cidades – principalmente postos de saúde e remédios grátis. Fundada em 2011, após quatro meses (e sem campanhas de marketing), a plataforma tinha somado 40 mil acessos. No ano seguinte, recebeu investimento da Vox Capital e passou a ser acelerada pela Artemisia, os dois principais apoiadores de startups sociais do país. Era “uma das estrelas de negócios de impacto no Brasil”, conforme Edgard Barki, professor da FGV, descreve na página on-line da GVCasos. A empresa chegou a ter um escritório com 22 pessoas em São Paulo e uma média de 120 mil acessos por mês. Mas não encontrou um modelo de negócios que a tornasse lucrativa e foi fechada em 2018. No começo, o serviço era vendido a pessoas e a empresas que ofereciam a plataforma aos funcionários. Com a crise, o faturamento minguou e passou a vender os serviços para prefeituras interessadas em facilitar a vida dos cidadãos. Mas as receitas não eram recorrentes – ou seja, a venda acontecia só uma vez. Além disso, grandes empresas de tecnologia perceberam a oportunidade e passaram a oferecer os mesmos dados com vantagens comerciais. A Saútil não resistiu.

 deu bom

A Terra Nova faz a regularização de terrenos ocupados irregularmente em favelas, onde existam conflitos entre os moradores e o antigo proprietário do local. O advogado curitibano André Albuquerque, 53, começou esse trabalho em 2001, antes da consolidação do termo “negócio de impacto”. A ideia se provou útil e o número de clientes cresceu rapidamente. A startup, porém, passou a viver um dilema: “O serviço é pago ao longo de 20, 30 anos. Mas preciso de dinheiro para as contas do mês”, ele conta. As coisas mudaram quando, em 2013, a MOV, um fundo de investimentos de impacto, fez um aporte na empresa. Isso permitiu que André bolasse um plano para ganhar escala. 
“A gente só para em pé se tiver volume de clientes.” Hoje, a Terra Nova soma 20 mil famílias beneficiadas, das quais 10 mil já têm acordo fundiário homologado e 3 mil, o título de propriedade emitido (ou em processo final). Em 2019, a startup se tornará lucrativa. Quando a MOV investiu na startup, ela era avaliada em R$ 13 milhões, hoje, está na casa dos R$ 30 milhões. “Provocamos um impacto relevante. Após a regularização, um terreno se valoriza em pelo menos 70%. Além disso, a prefeitura passa a poder levar água, luz, energia e saneamento à região”, conclui.

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Imagem principal: Divulgação

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