Onde queres mulher,
revolução

por Nathalia Zaccaro
Tpm #178

Talvez a gente não saiba mesmo o que quer dos nossos relacionamentos afetivos e sexuais. Mas já sabemos o principal: o que não queremos

É foda sentir que você é a única louca que quer que as coisas sejam diferentes. A única que passou a sentir desconforto com a dinâmica de sempre em um relacionamento. Aquela que tem um desejo obscuro de transar com outra mulher, mesmo morrendo de tesão pelo marido. Ou que está bem feliz e satisfeita sendo dona da casa, mas tem uma curiosidade insistente sobre uma sex shop escurinha no fim da rua. A mãe solitária que entendeu que era melhor ter a guarda compartilhada dos filhos quando cansou de explicar que parceria vai além de se revezar na troca de fraldas. A única que percebeu, com vergonha e sofrimento, que se submete a um relacionamento violento por medo de perder a família.

Por muito tempo, a experiência de se relacionar com outra pessoa sendo uma mulher foi resumida a uma série de estereótipos que estabeleciam papéis claros para homens e mulheres. Definições altamente limitantes para as mulheres e convenientes aos homens, não custa lembrar. De mãe para filha, fomos herdando as expectativas, os sonhos e o modus operandi do comportamento feminino.

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“Ainda não houve a construção histórica e cultural da igualdade de gênero. Embora já existam novas formas de ser homem e de ser mulher em um relacionamento, o modelo tradicional ainda é muito presente, leva tempo para solidificar essas novas possibilidades”, explica Isabel Cristina Gomes, coordenadora do Laboratório de Casal e Família: Clínica e Estudos Psicossociais e professora titular do Departamento de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da USP (IPUSP).

Mas estamos nos movimentando, questionando e reestruturando esses padrões em busca de novas formas de construir relacionamentos afetivos e sexuais – um processo confuso e sem respostas prontas, exaustivo.

O processo é lento

Para Malvina Muszkat, mestre em psicologia clínica pela PUC e analista de casais e famílias, um dos reflexos dessa transição pode ser percebido nas próprias demandas femininas. “Carregamos estereótipos que nem percebemos. As mulheres querem que os homens sejam sensíveis e participativos, mas não deixaram de esperar que sejam também provedores. É muito comum que elas demandem certos padrões de comportamento de forma ambígua.”

O caminho de toda essa reconfiguração vai além de entender nossos desejos e de como queremos alcançá-los. E começar pelo que não queremos é uma opção.

“Sempre transei muito, me sentia supersedutora”, conta Júlia*, 37 anos. Mas, depois de dois anos morando junto com o namorado, ela percebeu que estava desinteressada. “Me sentia culpada por não querer mais transar. Falei com ele e decidimos fazer um curso de tantra. Lá, conversamos muito e resolvi dizer a verdade: eu nunca tinha tido um orgasmo com ele. E isso é uma realidade com todos os homens com que já transei, ninguém nunca me fez gozar. Só consigo atingir orgamos me masturbando. A vida inteira fui ensinada que a mulher serve o homem, sempre fui expert em dar prazer. Minhas transas maravilhosas tinham mais a ver com quanto deixei o cara com tesão do que sobre mim.”

No meio da crise, eles se mudaram para Portugal. “Sempre fui muito independente financeiramente. Nessa época, ele tinha um dinheiro guardado para a viagem e me disse que a grana era nossa, porque a gente estava junto. Saí da sociedade que eu tinha em uma empresa e me convenci de que estava tudo certo”, conta.

“Já em Lisboa, percebi que eu podia usufruir daquele dinheiro, mas da maneira como ele achava que eu deveria. Gastamos uma grana com um curso de inglês para mim que ele achou legal, mas eu não podia nunca contratar alguém para me ajudar na faxina da casa. E ele nunca limpou uma privada. Ele era, sim, o dono do dinheiro. No auge das minhas questões, ele queria que eu tivesse uma criança. Era tão confuso.”

Júlia precisou sair desse relacionamento para conseguir respirar e pensar nas suas reais vontades. “É algo que nunca fui estimulada a fazer. Refletir sobre o que estava sendo exigido de mim e sobre o que eu estava exigindo também. Logo que me separei, tive aversão a tudo, não queria mais nada do que já tinha tido. Agora estou tateando, na jornada de entender sozinha o que eu gosto no sexo e também em outros aspectos. Talvez eu queria ter filhos, morar com alguém. Não sei ainda.”

A separação foi fundamental também para Regina Colasseri, 56 anos, casada por mais de duas décadas. “Eu tinha 42 anos. Na época, foi bem difícil me entender como uma mulher divorciada. Sair e transar com caras que não necessariamente estão ligados a um romance foi algo que conquistei e é muito bacana. Hoje, sei que não preciso ter um homem do meu lado”, conta.

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O mundo está mudando e com a nossa sexualidade não é diferente. Aos 19 anos, Samanta Freitas já experimentou namorar um cara ciumento, se envolver com mulheres, relacionamentos poli e monogâmicos. “Sou bissexual e a maioria das minhas amigas também. Eu entendo que amar uma pessoa não inclui não sentir atração por outras. Isso é muito irreal”, diz. Desde os 14 anos, quando conheceu seu primeiro namorado, ela teve contato com textos feministas e conseguiu perceber rápido que deixar um cara determinar quais cores de esmalte eram ou não apropriadas não poderia ser bom negócio. Terminou o namoro e foi se descobrir por aí. “Primeiro, veio aquela ideia de ‘eu posso fazer o que eu quiser e foda-se’. Depois, fui amadurecendo e percebendo que nem todas as companhias são boas e que selecionar bem é a melhor coisa que faço”, diz.

Um caminho com voltas 

Adriana Arcebispo, 40 anos, cresceu em Guaianases, na periferia de São Paulo. Sua mãe trabalhava como empregada doméstica e, quando voltava pra casa, corria para deixar tudo limpo, fazer o jantar para a família e cuidar dos filhos. Ela tinha que dar conta, era seu papel. Aos 16, Adriana engravidou de um namorado. “Eu não queria casar, mas era uma obrigação. Como uma menina preta, periférica, de uma família religiosa, era um grande problema eu ter engravidado. Meus pais tinham que reorganizar o que eu tinha supostamente desorganizado.” O casamento aconteceu, mas, depois de nove meses, o filho de Adriana faleceu, vítima de uma doença respiratória, um dos momentos mais difíceis de sua vida. Em seguida, ela se divorciou.

Adriana entrou na faculdade, viajou, trocou experiências com mulheres que tinham biografias totalmente diferentes da sua e teve os primeiros contatos com o movimento feminista. “Comecei a entender que eu queria uma relação que não me escravizasse. Que não tivesse a violência que vi na casa da minha mãe e que inúmeras famílias nem entendem como violência. O meu projeto era criar uma relação de troca”, diz.

Toda mudança, porém, vem acompanhada de dores, dilemas e dos tais sentimentos ambíguos. “Tem hora que sinto falta de poder ficar quietinha esperando o Jones vir me cobrir e falar: ‘Fica aí que eu resolvo tudo, deixa comigo’.”

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Jones é companheiro de Adriana desde que ela tinha 27 anos e foi com ele que ela começou a botar seu projeto em prática. “Peguei um papel e uma caneta e fui separar as tarefas da casa para manter a convivência. Ele escolheu lavar e eu, passar, e assim por diante. Uma vez, por algum motivo, ele não lavou a roupa. Minha mãe foi me visitar e perguntou: ‘E essa roupa aqui para lavar?’. Respondi que ele ia lavar na próxima semana. Ela retrucou: ‘Adriana, homem não aguenta isso’”, conta.

Hoje, o casal compartilha a rotina familiar com os filhos (Akins, 7 anos, e Dandara, 3 anos) no canal do YouTube Família Quilombo. Nas interações, percebem diariamente como uma ideia que parece bastante razoável – a divisão das tarefas entre um casal – ainda assombra muita gente. “A discussão sobre o novo papel do homem, sobre a perspectiva de gênero, chega com muita dificuldade nas famílias mais pobres. O pessoal tira barato, acha que mando nele, esse tipo de coisa. Ao mesmo tempo, vejo quantas pessoas têm nosso relacionamento como exemplo na internet.”

E, em qualquer extrato social, os próprios homens ficam quase sempre fora da discussão. “Eles não se repensaram, nem elaboraram novos modelos de masculinidade. Estão perdidos e continuam enfrentando muita dificuldade para falar sobre os próprios sentimentos e para lidar com seus afetos”, diz Ana Canosa, terapeuta de casais e educadora sexual.

Foi o ciúme do marido que fez Gabriela Franco, 43 anos, deixar de acreditar no sonho do amor romântico. Aos 25, quando se casou, ela estava pronta para viver um conto de fadas. “Eu queria desesperadamente uma família. Ou pelo menos achava que queria. Me casei por isso. Mas fui percebendo que meu ex— marido era muito castrador, uma coisa doentia. Chegou a me trancar em casa. Foi ficando claro que toda a ideia do casamento, de um relacionamento que dura por toda a vida, era construção social”, diz.

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Depois de quatro anos casada, ela se divorciou e se permitiu viver uma bissexualidade que sempre soube que existia, mas que nunca tinha tido espaço pra rolar. Aos 33, se apaixonou outra vez por um homem, mas decidiu investir em um casamento não monogâmico, que durou dez anos e gerou sua filha. “Estipulamos regras. Muita gente acha que relacionamento aberto é uma putaria sem fim, mas não é. Como todo envolvimento, tem responsabilidade emocional. Tenho certeza de que não abro mais mão da minha não monogamia.”

Hoje, Gabriela está solteira, explorando a possibilidade de se envolver tanto com homens quanto com mulheres. “Com elas, a comunicação é mais fácil, a gente se compreende muito mais, fala sobre sentimentos e sexualidade de um jeito aberto. Essa trava que os homens têm para conversar não existe com mulher. Não tem a coisa de ter que cumprir um papel”, explica.

Ana Canosa tem observado de perto as implicações dos relacionamentos homoafetivos femininos. “As parcerias rolam de forma mais natural. Mas uma coisa que vejo bastante acontecer é a disputa. Para ver quem é a melhor mãe entre as duas, por exemplo. Algo que não existe muito quando os papéis de gênero estão mais definidos”, conta.

Nos Estados Unidos, surgiu o termo late blooming lesbians para fazer referência a mulheres com mais de 30 anos que sempre se entenderam como heterosexuais e, inesperadamente, se perceberam a fim de transar e se envolver com outras mulheres.

Se organizar direitinho…

Carolina*, 42 anos, casou com seu primeiro namorado e, há 25 anos, vive um relacionamento cheio de respeito e afeto e que tem como fruto sua filha de 9 anos. Há cerca de um ano, os dois conversaram e toparam abrir o casamento. Ela poderia agora transar com outros caras. Mas não foi bem isso que aconteceu.

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“Por meio de amigos em comum, comecei a conversar com uma mulher pela internet. Trocávamos dicas de leituras e filmes, passávamos o dia todo conversando. Me vi muito interessada por ela e comecei a achar que talvez fosse uma experiência interessante, me envolver com uma mulher. Mas eu não pensava em me apaixonar. Ela morava em outro estado e, quando a gente se conheceu pessoalmente, foi muito incrível. Depois disso, ela veio morar na minha casa. No começo, estávamos os três envolvidos. Mas acabou não rolando e, no fim das contas, eu me relaciono com o meu marido e com ela, e eles dois são amigos”, conta.

Aceitar o próprio desejo por outra mulher – e conseguir que seu marido compreendesse a situação – foi a parte menos difícil do processo. Casca-grossa mesmo é lidar com a reação das pessoas ao abandono da monogamia. Por isso, ela optou por viver seu romance lésbico em segredo, escondendo a relação da maior parte dos amigos e familiares; todos acreditam que ela é só uma inquilina. “Minha geração cresceu entendendo que, se você ama o seu marido, nunca vai se interessar por outra pessoa. E que, se você se interessa, é porque o seu relacionamento não está bom. Me apaixonar por uma mulher não diminui o amor que sinto por ele”, conta.

Testar novos combinados não é sinônimo de deixar de priorizar relações afetuosas. “O que, dentro de uma estratificação social específica, está ficando mais aberto é o formato. Principalmente se as pessoas já casaram, já se separaram, têm filhos. Aí é inclusive muito mais fácil observar outros combinados”, explica Isabel.

Aos 20, 40 ou 60 anos, estamos em constante expansão. Mudando de ideia sobre os caminhos que nos levarão à utópica felicidade, descobrindo novas rotas para o gozo revolucionário, enfrentando nossas angústias na defesa de nossos corpos contra o machismo naturalizado e na busca do afeto. A experiência de estar vivo, solto no mundo, é compartilhada. Nos entendemos refletidas nos outros e os relacionamentos serão sempre fundamentais. Mas não precisamos ser reféns de nenhum tipo de ordem preestabelecida. Estamos percebendo que desorganizando dá pra se (re)organizar. E amar (e gozar).

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