por Regina Navarro Lins
Tpm #175

O amor romântico está saindo de cena, levando com ele a sua principal característica: a exigência de exclusividade

"Somos casados há 12 anos e sempre me senti muito amada pelo meu marido. Mas agora ele me propôs abrir a relação. Quer transar com outras mulheres e acha que eu também devo experimentar sexualmente outros homens. Não consigo entender como alguém que me ama pode não se importar por eu ter amantes!” Este foi o relato que Vivian, médica, 36 anos, me fez na primeira sessão de terapia de casal.
Atendo no consultório há 45 anos. De cinco anos para cá, passei a receber casais trazendo novos conflitos, que ocorrem porque uma das partes propõe a abertura da relação, ou seja, partir para a não monogamia – relações livres, poliamor, amor a três –, ou então uma nova prática sexual, como sexo a três, swing... E a outra parte sente-se desrespeitada, não amada. Estamos num período de transição entre antigos e novos valores.
Quando analisamos a história do amor, constatamos que os comportamentos amorosos e as expectativas em relação à própria vida a dois são bem diferentes em cada período da história. Desde o início do século 20, somos regidos pelo mito do amor romântico. Esse tipo de amor é calcado na idealização – você conhece uma pessoa e atribui a ela características de personalidade que ela não possui – e traz expectativas que não se cumprem, como a crença de que os dois vão se transformar num só, de que um terá todas as necessidades atendidas pelo outro, e de que quem ama não tem olhos para mais ninguém.
Ocorre que a busca da individualidade é característica da época em que vivemos. A grande viagem do ser humano é para dentro de si mesmo. Cada um quer saber das suas possibilidades na vida, desenvolver seu potencial. O amor romântico propõe o oposto disso; prega que haverá uma fusão entre os dois, com complementação total entre eles.

Saindo de cena
Preservar a própria individualidade começa a ser fundamental, e a ideia básica de fusão do amor romântico deixa de ser atraente porque vai no sentido inverso dos anseios contemporâneos. O amor romântico está saindo de cena, levando com ele a sua principal característica: a exigência de exclusividade. Com isso, aumenta o número dos que preferem não se fechar numa relação a dois e optam por ter parceiros múltiplos
Entretanto, não é fácil discutir de forma isenta relacionamentos amorosos fora do modelo tradicional; provoca a ira dos conservadores e ataques de todos os tipos. Esse debate só será realmente possível quando a fidelidade deixar de ser um imperativo. Uma pesquisa da Universidade de Michigan (EUA) concluiu que a forma como psicólogos e outros cientistas estudam os relacionamentos está orientada para dar resultados – às vezes inconscientemente – que promovem a monogamia.
A reação negativa a mudanças de comportamento não é novidade. No início do século 20, por exemplo, quando surgiu o telefone, os conservadores protestaram dizendo ser uma indecência. Alegavam que a moça poderia estar recostada enquanto a voz do homem entrava sensualmente pelo seu ouvido.
Estamos num processo de profunda mudança das mentalidades. Mas não são poucos os que ainda temem viver de forma diferente da que estão acostumados. Afinal, o novo assusta e o desconhecido gera insegurança. Contudo, acredito que o predomínio das novas formas de amar seja apenas uma questão de tempo.

Créditos

Imagem principal: Marcio Simnch

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