por Carol Ito

Indígenas são retratadas na série ”Mulheres da terra”, da fotógrafa Maria Ribeiro, que se dedica a mostrar a beleza feminina natural

Maria Ribeiro, de 32 anos, fez de seu trabalho uma observação da diversidade e da beleza de mulheres brasileiras, como uma forma de resistência aos padrões irreais que ainda dominam a indústria da beleza. A mineira iniciou a carreira na publicidade e, assim, acompanhou de perto a maneira como a imagem feminina é manipulada. “No resultado das fotos, via que as mulheres eram completamente diferentes do que tinha fotografado”, reflete.

Isso fez com que ela passasse a questionar a própria profissão: “Que resultados esse tipo de trabalho traz? Milhões de mulheres no mundo inteiro se detestando, alimentando uma indústria que vende inseguranças”, concluiu ela. Pensando assim, decidiu retratar mulheres ao natural, em uma narrativa estética dotada de um olhar humanizado e atento à diversidade de corpos e histórias.

LEIA TAMBÉM: Cacique Tanoné é uma das poucas lideranças indígenas femininas do Brasil

Esse olhar delicado fica evidente em Mulheres da Terra, projeto em que ela captura cenas do cotidiano das indígenas. As fotos desse trabalho foram realizadas em Goiás, na região da Chapada dos Veadeiros, em 2016, ocasião em que foi realizado um encontro com dez etnias, como os kariris-xocós, caiapós e karaús, cujo objetivo era que todos compartilhassem seus saberes e também discutissem questões políticas. A ideia da série é, a partir do modo de vida das mulheres indígenas (a relação com maternidade, família, divisão do trabalho e participação em rituais, por exemplo), mostrar essas mulheres, para as quais pouco olhamos, desligadas dos estereótipos. “Foi um trabalho de delicadezas”, explica Maria. 

Logo ao chegar na grande aldeia, Maria se surpreendeu com as mães que, mesmo com filhos pequenos, participavam de todas as cerimônias e danças, carregando os bebês em panos amarrados junto ao corpo. A maternidade, para ela, pareceu algo muito mais leve do que estava acostumada a ver: “Os filhos são de todos. Todo mundo ajuda a criar e tem responsabilidade sobre as crianças. E elas ficam sempre juntas, é uma questão comunitária, mesmo”.

Ela conta que participou de um ritual que celebra a mudança de fase da lua, em que os índios podem trocar de parceiros por uma noite, já que nem todas as etnias são monogâmicas. As mulheres dançaram e cantaram uma espécie de mantra durante toda a madrugada e, pela manhã, jogaram laranjas nos homens, como uma brincadeira que simbolizava a hora de voltar para as companheiras originais. “No encontro havia etnias não-monogâmicas, com diferentes organizações de trabalho, com homossexuais e pessoas trans. A gente tem uma concepção equivocada de achar que todos os indígenas têm os mesmos costumes”, ressalta.

LEIA TAMBÉM: A revolução da fotógrafa Helen Salomão

A série foi feita no fim de uma jornada de seis meses investigando a vida de mulheres que são guardiãs da sabedoria popular no sertão de Minas Gerais, em que Maria retratou benzedeiras, parteiras e rezadeiras. A imersão deu origem à série Caliandras, que dará origem a um documentário no segundo semestre deste ano.

O trabalho Mulheres da Terra foi exposto em 2017 na galeria Amplify, em Nova York, onde Maria morava na época, antes de ir para Belo Horizonte. Com Nós Madalenas – uma palavra pelo feminismo, série com mulheres retratadas sem Photoshop, ela venceu o Prêmio Ivone Herberts na ONU Mulheres, em 2016. E nos próximos trabalhos vai seguir na mesma direção: “O mais importante, para mim, é trazer mulheres de verdade, com suas histórias e almas”.

Créditos

Imagem principal: Maria Ribeiro

matérias relacionadas